RJ em Foco

Após colisão entre dois helicópteros, Anac estuda criação de rotas de voo por instrumentos no Rio

Hoje, o tráfego dessas aeronaves acontece em corredores pré-definidos, e a responsabilidade de manter distância é dos pilotos.

Agência O Globo - 10/07/2026
Após colisão entre dois helicópteros, Anac estuda criação de rotas de voo por instrumentos no Rio
Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) - Foto: Reprodução

Depois da colisão entre dois helicópteros no Recreio que matou seis pessoas, incluindo o cantor americano Oliver Tree, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) começou a discutir, no começo deste mês, a implantação de rotas de voo por instrumentos (IFR) na cidade. O acidente, ocorrido em 14 de junho, chamou atenção pela forma que aconteceu, em pleno voo e registrado por testemunhas.

Balé nas águas:

Governador em exercício:

O voo por instrumentos é a técnica de pilotar uma aeronave guiando-se exclusivamente pelos instrumentos de bordo e pelas orientações do controle de tráfego aéreo, sem necessidade de referências visuais externas. Hoje, o tráfego dessas aeronaves ocorre em corredores pré-definidos, e a responsabilidade de manter distância entre elas é dos pilotos, feita de forma visual.

Além disso, todos os pilotos devem estar sintonizados em uma mesma frequência de rádio e informar aos demais o prefixo da aeronave, a direção e a altura em que se deslocam, bem como quaisquer manobras que mudem seu rumo. Diante do crescimento da frota, especialistas em segurança aérea defendem maior rigor na fiscalização da conduta dos pilotos e mudanças nas regras para tornar o espaço aéreo fluminense mais seguro.

Renovação urbana:

O 1º Encontro Técnico do Grupo Brasileiro de Segurança Operacional de Helicópteros (BHEST) reuniu representantes de diferentes segmentos da aviação civil e de organizações relacionadas às operações com helicópteros, incluindo operadores de táxi aéreo, empresas de transporte offshore e Petrobras. Também participaram operadores aeroportuários, órgãos de segurança pública, Corpo de Bombeiros, empresas de consultoria e representantes do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).

A programação foi dedicada à discussão de aspectos técnicos relacionados à implantação de rotas IFR para helicópteros, incluindo questões operacionais, requisitos de segurança operacional e características das operações realizadas na região do Rio de Janeiro. Entre os pontos abordados estiveram também a disponibilidade de fontes confiáveis de informação altimétrica e de dados meteorológicos necessários às operações por instrumentos.

Instituto Rio Metrópole:

De acordo com a Anac, o Estado do Rio possui 319 helicópteros registrados. Em 2023, eram 247. Isso representa um aumento de 29% em três anos. Em São Paulo, o total ultrapassa 400. Apesar disso, o maior número de pousos e decolagens vem sendo registrado no Aeroporto de Jacarepaguá: em maio, foram 7.903. Na segunda posição aparece o Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, com 2.642.

Com o aumento do tráfego de helicópteros no espaço aéreo do Rio, o número de incidentes no estado superou com folga o registrado em São Paulo, que tem a maior frota do país. No ano passado, foram registrados 142 incidentes com esse tipo de aeronave no Rio, uma média de um caso a cada três dias, enquanto em São Paulo foram contabilizadas apenas 11 ocorrências em todo o ano, menos de uma por mês.

Os registros no Rio representam 71% dos incidentes envolvendo helicópteros no país em 2025 e incluem desde falhas ou mau funcionamento de sistemas e componentes até incursão em pista, colisão com aves e quedas. Neste ano, já foram 61 incidentes no Estado do Rio e apenas seis em São Paulo. Os dados são do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer).

Novo capítulo:

Reuniões com moradores

Os transtornos causados pelo ruído de aeronaves no Aeroporto de Jacarepaguá e em helipontos da região, além da colisão que matou as seis pessoas no dia 14 de junho, já motivaram cinco reuniões de moradores com representantes do Decea e da Anac. A última delas foi realizada no final do mês.

Segundo a Anac, ao longo dos encontros, foram discutidos métodos para reforçar o cumprimento, por parte dos operadores aéreos, da altitude mínima de voo prevista para a Avenida das Américas, buscando-se estudar formas de fazer com que haja uma maior observância dos parâmetros normativos. Ao mesmo tempo, segundo a agência, o Aeroporto de Jacarepaguá está desenvolvendo uma forma de monitorar os voos e identificar quando essa altura não é respeitada, para então informar as ocorrências à Petrobras, empresa que pode aplicar penalidades às aeronaves que prestam serviço às suas plataformas.

Importunação:

Já em relação aos helipontos privados da região, a Anac diz que foram apontados alguns fatores que podem estar contribuindo para o barulho, e serão feitos estudos para buscar formas de reduzir esse impacto. "É importante esclarecer que implementar essas medidas depende primariamente dos responsáveis pelos aeródromos e helipontos envolvidos e do Decea. A Anac participa das discussões dentro do que cabe à sua atuação, ajudando a aproximar os envolvidos e acompanhando o assunto de perto", completa a nota.

Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, se queixa de que os encontros têm se mostrado infrutíferos:

—Não evoluiu nada. Algumas pessoas têm achado essas reuniões inócuas. O Decea diz que vai tomar providência, multar e não faz nada — queixou-se.

Agressão:

O Decea também foi procurado, mas não respondeu. Dumbrosck reclama dos transtornos com os ruídos e a insegurança. Segundo ele, moradores cobram um protocolo e uma regulamentação dos voos de helicópteros na região.

— Vamos seguir em cima deste tema como já temos feito há mais de um ano. Só vamos parar quando esses problemas estiverem resolvidos — prometeu o deputado Hugo Leal, que esteve presente no último encontro.

Caso Jeff Machado:

Relembre o acidente

A colisão entre os dois helicópteros no ar do Rio de Janeiro virou notícia nos principais jornais do mundo. Uma das aeronaves, um Bell 206B Jet Ranger, prefixo PP-MAC, transportava cinco pessoas: o piloto Alexandre Souza; o youtuber argentino Gaspar Prim Díaz, o Gaspi; o produtor musical brasileiro e DJ Lucas Brito Chaves, o Lucas Frota; o diretor de videoclipes argentino Lucas Vignale; e o cantor americano Nickel Oliver Tree. A bordo do segundo helicóptero, um Eurocopter AS350 B2 (atualmente designado como Airbus H125 e popularmente conhecido como Esquilo), de matrícula PR-DJJ, estava o piloto Charles Marsillac.

A aeronave onde estavam cinco pessoas havia decolado do Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste carioca, às 8h51 e iria para o Heliponto Piratas Mall, em Angra dos Reis, na Costa Verde. A outra vinha do Aeroporto Santos Dumont, no Centro do Rio, onde havia deixado um passageiro às 8h46, e partiu para Guaratiba, na Zona Oeste da capital.

Pouco antes das 9h, do dia 14 de junho, um domingo, as aeronaves colidiram no ar e caíram no quarteirão da Avenida das Américas entre as ruas Beth Lago e Rivadávia Campos. Moradores da região relataram ter ouvido uma explosão. Os dois helicópteros estavam em situação normal de aeronavegabilidade, de acordo com a Anac. Os dois pilotos eram experientes.

Na queda, o helicóptero onde estavam as cinco pessoas atingiu o estacionamento de uma concessionária de carros elétricos BYD, provocando um incêndio. As chamas se alastraram pelas baterias dos veículos, gerando explosões secundárias. Treze carros ficaram destruídos. A outra aeronave caiu a cerca de 100 metros de distância, sobre dois carros que estavam no mesmo estacionamento.

Com a violência do choque aéreo, pedaços dos helicópteros se espalharam e atingiram prédios. Uma parte da cauda de um deles foi arremessada até o terraço de um prédio residencial vizinho. Em outro edifício, dois vidros de uma varanda foram atingidos e quebraram.