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Ex-procurador-geral do Estado preso por esquema em autarquia ignorou parecer com irregularidades, diz MPRJ

Marcelo Lopes da Silva também já foi procurador-geral do Estado na gestão Wilson Witzel

Agência O Globo - 10/07/2026
Ex-procurador-geral do Estado preso por esquema em autarquia ignorou parecer com irregularidades, diz MPRJ
MPRJ

Um dos seis presos na operação que mirou um esquema de desvio de recursos públicos no Instituto Rio Metrópole (IRM) foi Marcelo Lopes da Silva, que atualmente atuava como procurador-geral da autarquia. Segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ), era ele quem emitia pareceres que davam a cobertura jurídica aos contratos considerados fraudulentos. Em seu currículo, há ainda a passagem pelo alto escalão do governo fluminense durante a gestão de Wilson Witzel.

Instituto Rio Metrópole:

Vinculado à Procuradoria do Estado desde 1998, o advogado já foi nomeado até como procurador-geral do Estado na gestão entre 2019 e 2020. Marcelo deixou o posto em junho de 2020, quando sucedeu Lucas Tristão como secretário estadual de Desenvolvimento Econômico.

Segundo o Ministério Público, o procurador acobertava a operação criminosa, dando uma "roupagem lícita a atividades que não tinham objeto pertinente", conforme apontado por Delcio Alonso, coordenador do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf/MPRJ).

Novo capítulo:

— Um dos fatores chamou a atenção especificamente: por uma obra do divino, o procurador se afastou, de férias. E foi substituído por outra servidora, que, analisando corretamente o comportamento tanto da autarquia, quanto das pessoas jurídicas contratadas, apontou a irregularidade do objeto contratado. Na sequência, no retorno das férias, esse parecer foi ignorado e simplesmente foi substituído por outro que dava valia àquilo que a autarquia pretendia fazer — afirmou o coordenador do Gaesf, que tratou a situação como "gritante".

A promotora Roberta Jorio, por sua vez, detalhou que o envolvimento de promotor no esquema "ficou muito claro" a partir desse atropelo ao parecer que havia sido emitido nas suas férias.

Agente morreu no hospital:

Na denúncia, o Ministério Público afirma que o Instituto Rio Metrópole foi capturado por uma organização criminosa e transformado em uma máquina de desvio de dinheiro público. Segundo a acusação, presidente, diretores, procurador e servidores ocuparam cargos estratégicos para fraudar licitações, dar aparência de legalidade aos contratos, impedir a fiscalização e garantir o fluxo de recursos desviados, convertendo uma autarquia estadual criada para planejar políticas públicas em um "instrumento de enriquecimento privado". Outras investigações prosseguem por parte do MPRJ, que apura outros contratos envolvendo a autarquia.

Os acusados utilizaram contratos firmados pelo IRM entre julho de 2022 e maio de 2026 para desviar recursos, ainda conforme a denúncia. O esquema teria movimentado R$ 86,28 milhões. Segundo o Ministério Público, valores pagos a duas empresas contratadas eram posteriormente transferidos para o Brazilian Institute of Organics (Instituto BIO), entidade sem estrutura operacional compatível, de onde o dinheiro era sacado em espécie.

— A gente teve contratos fraudulentos que foram celebrados com o Instituto Rio Metrópole, com fraude tanto na licitação quanto na fiscalização da execução dos contratos. Na medida que dois membros da organização criminosa eram responsáveis pela fiscalização desses contratos. E depois, posteriormente, houve a celebração de contratos fictícios entre essas empresas, que haviam celebrado contratos com o IRM, com o Instituto BIO — explicou Roberta Jorio, promotora de Justiça do Gaesf/MPRJ.

'Nunca vimos isso no inverno':

A promotora tratou o contrato com o Instituto BIO como "inteligível", já que "não é capaz de compreender o objeto do contrato".

— Era para a consultoria para hidrovias de uma ONG em Teresópolis cuja diretora-presidente até data recente recebia Bolsa Família. Essa é a realidade, uma diretora-presidente advogada, sem nenhuma formação na área, que celebrava contratos com essas empresas.

Orla carioca:

Nas redes sociais, o Instituto Bio é apresentado como escola de BioCulinária que atua na formação de biochefs — o que causou “perplexidade” nos integrantes do MPRJ.

— Não faz sentido, e a perplexidade é de todos, que um instituto de desenvolvimento metropolitano tenha contrato com uma ONG desse tipo, os objetos não casam. O que chama ainda mais a atenção para a necessidade de revisão desses contratos. Foi um descortinar constante de surpresas para a gente — explicou Delcio Alonso, coordenador do Gaesf/MPRJ.

O MPRJ requereu e obteve a prisão preventiva dos agentes públicos identificados como integrantes do esquema. Segundo a denúncia, Davi Perini Vermelho, o Didê, que é ex-presidente da Câmara de São João de Meriti, chefiava o núcleo de servidores investigado, autorizando contratações, firmando contratos e controlando pagamentos. Fontes ouvidas pelo GLOBO atribuem sua indicação ao deputado federal Julio Lopes (PP).

Esposas 'laranjas':

Quem são os denunciados presos

Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do IRM e ex-presidente da Câmara de São João de Meriti, que chefiava o núcleo de servidores investigado, autorizando contratações, firmando contratos e controlando pagamentos.

Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos do IRM e integrante da Comissão Técnica de Licitação, apontado como articulador do direcionamento das licitações em favor das empresas contratadas.

Franquis Dias Nepomuceno, diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM e delegado da Polícia Civil, que atuava como ordenador de despesas e exercia o controle de fato do grupo RioForte, responsável pela escolta armada do dinheiro.

Marcelo Lopes da Silva, procurador do Estado então à frente da Procuradoria-Geral do IRM, acusado de emitir os pareceres que deram cobertura jurídica às contratações e ao reajuste irregular do contrato. Ele é ex-procurador-geral do Estado e ex-secretário estadual de Desenvolvimento Econômico na gestão Wilson Witzel.

Caroline Soares Barros, que acumulava as funções de fiscal de contratos do IRM e presidente do Instituto BIO — a entidade de fachada por onde os recursos passavam antes de serem sacados em espécie.

Amanda Íthala Santos da Paschoa, que a sucedeu na fiscalização e atestou a execução dos contratos, respaldando os pagamentos. Ela é nora de Maurício Knoploch e cunhada de Alexandre Knoploch.

Em relação aos demais denunciados, a Justiça aplicou medidas cautelares diversas da prisão, entre elas, o monitoramento eletrônico, o comparecimento periódico em juízo e a proibição de se ausentarem do país. Também está vetado o contato com testemunhas. São eles: Leilson de Souza Nepomuceno, Gerson Luís de Araújo Rodrigues, Hélio Augusto Machado Pessôa, Roberto Accioly Peotta e Roberto Peotta.

Caso Jeff Machado: