RJ em Foco
Entenda por que Márcio Canella foi preso pela PF; ex-prefeito é pré-candidato ao Senado apoiado por Flávio Bolsonaro
Detenção ocorreu em mais uma etapa da Operação Unha e Carne, que apura a ligação de agentes públicos com organizações criminosas
Em mais uma etapa da Operação Unha e Carne , que apura a ligação de agentes públicos com organizações criminosas, a Polícia Federal prendeu, na quarta-feira, o ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil. O político foi flagrado com um fuzil na mala do carro. A sexta fase da investigação visa a desarticular uma quadrilha suspeita de usar postos de gasolina para lavar dinheiro. O delegado Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil do Rio, também é investigado.
Audiência na próxima segunda-feira:
não é Unha e Carne:
Abalo no palanque
A prisão de Canella provocou um novo abalo na montagem do palanque do senador e presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Rio. Apontado pela federação União Brasil-PP como candidato ao Senado com o aval de Flávio, Canella tornou-se o segundo nome da chapa atingido por uma investigação da PF em menos de dois meses. Nos bastidores, os dirigentes do PL afirmam que a federação deve recuperar a indicação e apresentar um substituto.
A avaliação entre aliados da presidência é que a permanência de Canella se tornou politicamente insustentável. Embora a decisão tenha caído à federação, interlocutores de Flávio afirmaram que insistir na candidatura significaria mais um desgaste a uma chapa que já passou por sucessivas mudanças.
Na Avenida Brasil:
Integrantes do PL, ouvidos sob reserva, acreditam que o ex-prefeito deve reavaliar os planos e disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Procurado, Canella não se manifestou.
A nova crise ocorre justamente quando Flávio ainda não conseguiu resolver a vaga deixada por Cláudio Castro (PL), que desistiu da candidatura. A presidência pretendia anunciar na última sexta-feira o novo candidato do partido ao Senado, mas adiou a decisão. Segundo interlocutores, a definição segue entre os nomes do senador Carlos Portinho (PL-RJ) e do deputado Carlos Jordy (PL-RJ), com vantagem, hoje, para Portinho.
Greve dos ônibus:
Movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões
A operação de ontem teve origem em um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que aponta uma movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos pela rede de postos. Inicialmente, Canella era apenas alvo de busca e apreensão. Na casa dele, os agentes federais apreenderam outras armas, munição e relógios de luxo.
Foram cumpridos mandatos de busca e apreensão, determinados pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em 19 endereços na capital e em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende, ligados aos investigados. Ao todo, foram apreendidos 11 carros de luxo — entre eles, uma Mercedes-Benz avaliada em R$ 1,5 milhão. Em uma empresa em Niterói, foram encontrados cerca de R$ 800 mil em espécie. Um PM também foi preso por porte de arma na casa de um dos investigados.
Ação repercute nas redes:
Condensação por arma
A Justiça determinou ainda o sequestro de bens envolvidos, além da suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo. Os valores e os nomes das firmas não foram divulgados pela Polícia Federal. Os investigados poderão responder por organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro.
Carta dominó:
A Unha e Carne está no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, iniciativa coordenada pela PF por determinação do Supremo Tribunal Federal dentro da ADPF das Favelas, a ADPF 365.
Principal alvo da ação de ontem, Canella é do União Brasil, mesmo partido de Bacellar, preso na primeira fase da Unha e Carne. Ele deixou a prefeitura de Belford Roxo este ano para concorrer ao Senado, com o apoio de Flávio Bolsonaro. Na disputa pela Prefeitura de Belford Roxo, em 2024, Canella foi flagrado com uma arma de fogo na cintura durante um evento de campanha. O registro foi feito em um vídeo que viralizou nas redes sociais. O mandato dele à frente da Prefeitura de Belford Roxo foi marcado por discurso voltado para segurança pública.
Já Marcus Amim ficou à frente da Polícia Civil entre 2023 e 2024. Nos bastidores, sua indicação ao cargo é atribuída a Bacellar e Canella. Para que ele pudesse assumir inicialmente a secretaria, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) precisou alterar uma lei, já que ele não possuía o ritmo de carreira exigido. Antes, Amim esteve na presidência do Detran-RJ e levou vários policiais para o órgão.
Pablo Jukiá Felix Ferreira, citado nessa fase da Unha e Carne, era um deles. Em setembro de 2024, o então governador Cláudio Castro exonerou Amim porque estaria “descontente” com o trabalho dele na Secretaria de Polícia Civil. Uma semana depois o delegado já esteve na Alerj, onde ficou como chefe de segurança até dezembro do ano passado. Segundo o Jornal Nacional, as investigações apontam que Amim seria dono de duas lojas de conveniência em postos de combustíveis.
Novo no Rio?
Bonde da milícia
Conhecido como Pablo Russo, Pablo Jukiá Felix Ferreira integrou a equipe de Marcus Amim em diversas delegações. Hoje ele está lotado na 81ª DP (Itaipu). O rendimento líquido de quase R$ 10 mil por mês da polícia chamou a atenção da PF porque um levantamento apontou o agente como proprietário oculto de uma rede de postos de gasolina, que envolvia 80 empresas em nome de laranjas.
Outro investigado é o ex-PM Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, acusado de chefiar um grupo de milicianos na Baixada Fluminense. Preso em 2009 pela associação criminosa e homicídio, ele foi condenado a mais de 20 anos de prisão. Acusado de chefiar o Bonde do Jura, citado no relatório da CPI das Milícias (2008), o ex-policial apareceu em fotos de campanha ao lado de Daniela Carneiro, a Daniela do Waguinho, e de Canella, no período eleitoral de 2018, quando estava em regime semiaberto. Jura foi excluído da Polícia Militar em 2011.
Procuradas, as defesas de Canella, Amim, Russo e Juracy não deram retorno ou não foram localizadas. A Corregedoria-Geral da Polícia Civil informou que instaurou uma investigação para apurar os factos.
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