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Entre conforto e lotação: qualidade das viagens de ônibus no Rio muda conforme a região

Em meio ao risco de nova greve dos rodoviários, passageiros ainda sofrem para andar de ônibus pela cidade

Agência O Globo - 07/07/2026
Entre conforto e lotação: qualidade das viagens de ônibus no Rio muda conforme a região
- Foto: Reprodução

As negociações entre os sindicatos dos Rodoviários e das Empresas de Ônibus (Rio Ônibus) podem deixar a população sem transporte pela segunda vez em menos de uma semana. Seis dias após a suspensão temporária da greve dos motoristas do município, o impasse persiste. Em resposta às reivindicações como aumento de 17% e piso salarial a partir de R$ 4 mil , representantes dos patrões sugeriram, ontem, na terceira audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), elevar a proposta inicial de reajuste de 4,39% para 4,5% , além da manutenção da cesta básica.

Estão previstas para hoje assembleias nos dois sindicatos. O Rio Ônibus vai discutir com seus associados se é possível apresentar nova proposta, atendendo a pedido feito pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo TRT para que o reajuste seja de, pelo menos, 5% — esse foi o índice concedido a motoristas nos municípios de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O Sindicato dos Rodoviários, por sua vez, discutirá a possibilidade de nova paralisação, caso não seja apresentada oferta superior a 4,5% .

— É importante mencionar que as coisas têm causa e efeito. Hoje estamos aceitando menos do que em 2023, entre receitas e subsídios — diz João Gouveia, presidente do Rio Ônibus.

O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirma que a proposta apresentada após a categoria suspendeu temporariamente a greve, na última quinta-feira, não lhe parece ser de boa-fé. E diz que não defenderá a nova oferta da Rio Ônibus na assembleia da categoria, marcada para hoje, às 16h .

— Como não houve avanço significativo em relação à proposta apresentada na audiência anterior, ela pode ser recusada. E aí, o que vai acontecer? Vamos reformular a proposta inicial, de 17% de reajuste? Vamos aceitar um prazo maior para negociar? Até o horário da nossa assembleia, eles podem enviar outra proposta. Se não chegar, provavelmente vamos rejeitar os 4,5% . A possibilidade de uma greve dependerá da decisão dos trabalhadores — observa Sebastião José.

No meio dessa disputa, a população que viaja em ônibus comuns (não articulados) sempre pode ter uma surpresa — boa ou ruim. Em abril de 2026, entraram em circulação mais 102 novos coletivos climatizados. Por outro lado, somente em 2026, duas companhias encerraram suas atividades em razão de dificuldades financeiras. Dados da prefeitura mostram ainda que 4,74% das viagens realizadas na cidade ainda são feitas por veículos sem ar condicionado.

Equipes do GLOBO foram às ruas ontem e constataram que, dependendo da trajetória do ser percorrido, o passageiro ainda corre o risco de ter que encarar um veículo em mais condições de limpeza e conservação, superlotação e climatização insuficientes, entre outros problemas.

De 1º de janeiro a 15 de maio de 2026 , o município pagou R$ 261,6 milhões em subsídios aos consórcios de ônibus.

Centro e Zona Sul

Pontos cobertos, segurança e frota nova

Para quem sai do Centro rumo a Copacabana, na Zona Sul da cidade, uma opção é a linha 455 (Méier - Copacabana), que faz parada em uma das pistas centrais da Avenida Presidente Vargas. O ponto é coberto e tem banco, mas não há placas de informação sobre linhas que passam por ali. Quando o coletivo chega, a esperança é recompensada: o veículo está limpo e tem ar condicionado eficiente, que não pinga nos assentos.

A partir de Copacabana, quem espera um veículo da linha 415 (Usina-Leblon) no ponto da esquina das ruas Tonelero e Siqueira Campos conta com a companhia de duas viaturas do programa Segurança Presença, estacionadas diante da estação de metrô Siqueira Campos e da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro, ambos perto dali. O transporte passa a cada cinco minutos.

Em outro ponto do bairro, um painel exibe o QR Code que, escaneado pelo celular, dá acesso ao portal Mobilidade Rio, onde o passageiro consulta as linhas que param ali, além de seus respectivos itinerários. O conforto também marca a viagem da linha LEDC150 (Vila Isabel–Siqueira Campos), antiga 433. Os veículos fazem parte da nova frota de ônibus da cidade e seguem padrões visuais adotados pela prefeitura: o amarelo como cor predominante e uma faixa cinza (referente às áreas da Grande Tijuca, do Centro e da Zona Sul). O ar condicionado é potente, e o interior ainda tem cheiro de novo.

Na volta para o Centro, a linha Troncal 01 (General Osório–Central), dependendo do horário, exige alguma paciência. Com apenas uma das catracas funcionando — como foi selecionada na LEDC 150 —, filas se formam no embarque. No interior, o ônibus é limpo e tem ar condicionado eficiente. A sensação de conforto, no entanto, diminui à medida que o coletivo lota o caminho da Central do Brasil.

No “test drive” da Zona Norte, a rota começou pela Ilha do Governador, no ponto final da linha 634, que, em maio, passou a ser operada pela Mobi-Rio e recebeu 25 ônibus novos. O longo trajeto até a Praça Saens Peña, na Tijuca, durou 1h50 .

O ônibus, limpo, silencioso e com ar-condicionado potente, partiu às 12h da localidade conhecida como Bananal, com apenas um passageiro. Cinco minutos depois, porém, já estava cheio, principalmente de estudantes, e com muita gente em pé. Assim foi até a estação do BRT da Maré. Uma passageira desabafou ao passar na roleta: “Estou há meia hora esperando” . Com 25 minutos de viagem, ainda na Ilha, o validador do Jaé parou de ler os bilhetes. O motorista parou o ônibus e reiniciou a máquina, que voltou a funcionar após cinco minutos.

Da Saens Peña, uma viagem contínua até a Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel. O trajeto foi feito de 638, o pior do dia: janelas fechadas, ar condicionado inadequado, interiores sujos, bancos danificados, barulho excessivo e entradas USB com defeito.

Dali, o próximo destino foi o Norte Shopping, no Cachambi, a bordo do 623. Com ar-condicionado funcionando, o veículo deixou a desejar em outros aspectos: também barulhento, com lixo no chão e sete das dez alavancas das saídas de emergência perigosas. O penúltimo trajeto, nº 298, da Viação Pavunense, foi fazer compras em Madureira, perto das 16h . O coletivo estampava a nova identidade visual dos Ônibus do Rio e tinha climatização a conteúdo, mas estava lotado e, na parte traseira, já exibia assentos pichados e sujeira.

Por fim, da frente do Império Serrano, em Madureira, no ponto sem abrigo e com grande aglomeração, uma reportagem especial para Honório Gurgel. Na linha 650, nenhum problema aparente. A questão é que o ônibus “é quase uma mansão” , como define uma passageira: a espera foi de mais de 40 minutos .

A diarista Rogéria de Souza, de 45 anos, sai de casa cedo para chegar ao trabalho no horário. Moradora de Inhoaíba, depende da linha 830 (Pedregoso-Campo Grande): no ponto final, a espera muitas vezes supera uma hora, sem bancos ou qualquer conforto. Apenas uma placa indica o local. Enquanto os minutos passam, uma fila cresce. Quando o veículo aparece, a expectativa dá lugar à frustração: é um micro-ônibus, incapaz de atender a quantidade de passageiros acumulados.

— Essa luta é diária. Ônibus velho, sujo e sem ar nem horário para sair — currículo a diarista.

Ao longo da Rua Campo Grande, paralelamente ao muro da linha férrea, também na Zona Oeste, ficam os pontos finais de diversas linhas com destino ao Castelo, no Centro. Por tudo isso, o tormento da longa espera e a falta de estrutura se repete.

Em Bangu, mais demora, agora para a chegada da linha 393 (Bangu-Candelária) na Avenida Francisco Real, em frente ao Bangu Shopping. Após 27 minutos , a intimidade do coletivo impressionou, mas não pelas razões certas: interior tomado por sujeira e pichações, como “Bonde CV” . O ar condicionado, mesmo com janelas trancadas, não funcionava.

Mais adiante, na Zona Sudoeste, a precariedade persiste. No entorno do Riocentro, os ônibus das linhas 348 (Riocentro-Candelária), 352 e 368 circulam em condições precárias: portas fechadas, bancos soltos, janelas emperradas, pichações com nomes de facções criminosas e até baratas fazem parte da rotina. Em Curicica, no ponto final da linha 861 (Rio das Pedras- Curicica), o mato alto avança sobre uma área, e o lixo se acumula em cima da cobertura de concreto.

A chegada ao Terminal Alvorada traz algum problema. Os ônibus usados ​​nas linhas alimentadas eram limpos e com ar condicionado funcionando, embora não fossem veículos novos.

*Estagiária sob a supervisão de Cláudia Meneses