RJ em Foco
Facções travam guerra pelo controle do tráfico e do comércio nas praias do Leme e Copacabana
Clima de tensão na Avenida Atlântica é registrado por câmeras de segurança
O visitante que caminha pela orla de Copacabana e do Leme, na Zona Sul, dificilmente imagina que, por trás da paisagem que atrai turistas do mundo inteiro, uma disputa vem mudando a rotina de moradores e comerciantes. No calçadão e na faixa de areia, o “pacto de não agressão” que vigorou por anos entre as duas maiores facções do Rio — Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) — vem desmoronando, reflexo de uma guerra do tráfico travada longe dali. Agora, o que se vê no cenário de cartão-postal são brigas com pedaços de pau, perseguições, revistas em celulares e até homens armados. Em jogo, o lucro com a venda de drogas e a exploração do comércio ambulante.
'CV busca ser PCC, e TCP busca ser CV':
Rio Solidário:
Esse clima de tensão na orla foi registrado pela câmera de segurança de um quiosque em Copacabana, no último dia 25. Passava das 20h30 quando um homem de boné e casaco entrou correndo no estabelecimento, seguido por outro. Nas imagens, ele parece tentar se explicar e chega a oferecer o celular para que o homem que o perseguia verificasse alguma informação. Pouco depois, um terceiro homem chega ao local, e os dois começam a agredir e empurrar a vítima para o lado de fora. Na confusão, uma quarta pessoa passa rapidamente em frente à câmera com uma pistola na mão. Em seguida, todos saem do campo de visão. Assustados, os clientes deixam o quiosque, que fica completamente vazio em poucos instantes.
Tiago (nome fictício) é comerciante na região e afirma que o episódio não foi um caso isolado. Segundo ele, entregadores que atuam na orla estão cada vez mais receosos de serem confundidos com integrantes de facções rivais e acabarem agredidos.
Morro da Babilônia:
— Aqui na orla, o tráfico sempre atuou de forma velada, mas, de uns meses para cá, as coisas mudaram muito. Eles estão proibindo entregadores de passar do Posto 2, no Leme, para o outro lado, perguntam de onde eles são, olham o celular. É igual ao que acontece nas comunidades dominadas pelo crime. Eu nunca imaginei ver isso acontecer aqui — relata.
Quiosques temem taxas
Há quatro anos trabalhando na orla, ele afirma temer que os grupos criminosos ampliem o controle sobre os serviços na praia, passando a cobrar taxas também de quiosques.
— A gente sabe que eles já cobram de alguns ambulantes. A praia atrai turistas e movimenta a economia. Temos medo de onde essa disputa vai parar.
A faixa de areia tem uma linha imaginária na altura do Posto 2, em frente à Avenida Princesa Isabel. O trecho do Leme é controlado pelo TCP, que também domina as favelas que ficam em frente: o Chapéu Mangueira e o Morro da Babilônia. Já a outra parte, muito mais extensa, está sob influência do CV, presente em comunidades como Tabajaras e Pavão-Pavãozinho.
Essa divisão tem uma lógica: é como se a praia fosse uma extensão das favelas. Cada traficante busca a droga na comunidade correspondente e desce até a orla para comercializá-la. Mas essa compartimentação não se restringe ao tráfico. Ela também alcança outras atividades exploradas pelas facções e oferecidas a moradores e turistas. O delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), explica que o interesse pela orla tem relação direta com o poder aquisitivo de quem frequenta a região.
— O tráfico em si já desperta interesse porque ali eles conseguem vender a droga por um preço muito acima do praticado nas comunidades. Mas há também a exploração de motos elétricas e a venda de produtos contrabandeados, cigarros, vapes e mercadorias falsificadas. São diversas as fontes de receita que garantem um retorno financeiro elevado para as facções — explica.
Sem chamar atenção
Toda a movimentação de integrantes do CV e do TCP na praia sempre seguiu uma regra: não chamar a atenção num lugar altamente policiado. A comercialização de drogas é feita por vendedores de balas e doces que circulam pela praia. Eles se aproximam oferecendo produtos legais e, em seguida, perguntam se o cliente tem interesse em comprar drogas. Em alguns casos, o grama de cocaína chega a ser vendido por até 20 euros (R$ 120).
— Isso acontece há muito tempo, e todo mundo sabe. O que mudou é que eles estão aparecendo mais porque começaram a disputar essas áreas. Às vezes, você está na praia e vê vários caras correndo em grupo para iniciar uma confusão com integrantes da facção rival. Eles andam em bando, com pedaços de madeira e pedras nas mãos, e, de repente, começa uma briga — relata um morador que preferiu não se identificar.
Por trás do aumento da tensão está uma guerra que acontece em Niterói. Desde novembro do ano passado, o TCP vem investindo contra comunidades dominadas pelo CV, quase hegemônico na cidade. Os confrontos alteraram a rotina principalmente nas favelas do bairro do Fonseca e no Morro do Estado, estendendo-se pelo Centro, Ingá e por Icaraí.
Informações de inteligência da Polícia Civil apontam que esse avanço do TCP do outro lado da Ponte Rio-Niterói conta com apoio financeiro e bélico do Chapéu Mangueira e do Morro da Babilônia. Em retaliação, criminosos da Ladeira dos Tabajaras, do CV, passaram a atacar redutos da facção rival na Zona Sul, em conflito que se estende para a faixa de areia.
Poucos registros
Apesar da confusão no quiosque e da crescente preocupação de comerciantes e moradores, esses casos raramente chegam ao conhecimento da Polícia Civil. O medo de registrar as ocorrências e de sofrer represálias do tráfico faz com que testemunhas e comerciantes evitem acionar as autoridades. A 12ª DP (Copacabana), delegacia responsável pela área, não tem investigações sobre a disputa por pontos na praia nem registros de ocorrências relacionadas a confrontos entre facções na orla.
De dezembro até agora, foram contabilizados quatro tiroteios na região do Leme, que deixaram dois mortos e dois feridos. Já em Copacabana, houve sete tiroteios, com um morto e dois feridos. Os dados foram consolidados pelo Instituto Fogo Cruzado. Em nota, a Polícia Militar informou que o policiamento ostensivo na região é realizado de forma contínua com viaturas, motopatrulhas e efetivo a pé, atuando tanto nas vias públicas quanto na orla.
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