RJ em Foco
Dona do quintal no subúrbio onde a batucada ecoa há quase 50 anos, Tia Gessy comanda roda de samba que revelou Xande de Pilares e outros talentos
Neste domingo (5), o público será recebido com festa no Cachambi, a partir das 14h, para comemorar o aniversário da dona do lugar, que não revela a idade
Na longa tradição de festejos em sobrados, quadras, terreiros e afins, o título costuma vir mais tarde. Gessy Soares Machado tinha apenas 25 anos quando virou Tia Gessy. Na época, comandava a gafieira no Clube Maxwell, em Vila Isabel, bairro onde vive até hoje. A farra era boa, mas não exatamente do jeito que imaginava. Incomodada com a clientela arrumadinha, sempre de acordo com o estatuto, passou a sonhar com um lugar mais à vontade, mais “pé no chão”, como definia. A casa com quintal no Cachambi, também na Zona Norte, antes endereço de um ponto de apuração do jogo do bicho, parecia a solução. Lá, nasceu em outubro de 1977 o Pagode da Tia Gessy, que no ano que vem completará 50 anos.
Rio Solidário:
'Procuro relacionamento sério':
A roda de samba — uma das mais antigas da cidade e seguramente a que é comandada pela mesma pessoa há mais tempo — está entre as melhores do Rio escolhidas pelo júri do GLOBO. Hoje, o público será recebido com festa na Rua São Gabriel, a partir das 14h, para comemorar o aniversário da dona do lugar. Ela não revela a idade: façam vocês as contas e, por gentileza, não toquem no assunto ao encontrá-la. O almoço é por conta da anfitriã, que também não cobra entrada nessas ocasiões. No cardápio, arroz à camponesa, com linguiça, carne-seca, repolho, ervilha e cenoura. O pagode está garantido, e os frequentadores pagam apenas o que beberem (cerveja a partir de R$ 10).
Uma outra data festiva já está marcada: no dia 11 de outubro a roda comemora 49 anos, com rua fechada e caravanas vindas de outros estados, como São Paulo. A festa de Oxóssi, em 20 de janeiro, também faz parte do calendário fixo: na tradição religiosa, o orixá é sincretizado com São Sebastião, padroeiro do Rio. A cada encontro, não é raro esbarrar com artistas que já batiam ponto por lá antes de ganharem fama. Xande de Pilares, cria local, só deixou de tocar nas rodas da Tia Gessy quando entrou no Grupo Revelação.
— O Pagode da Tia Gessy foi uma grande vitrine, foi ali que descobri a possibilidade de realizar o sonho de garoto: ser músico e compositor — lembra Xande, que nunca esqueceu as raízes, e, na abertura da recente turnê de reencontro com os integrantes do antigo grupo, que estreou no Rio, faz questão de relembrar sua passagem pelo quintal do Cachambi.
Cria do lugar
Xande foi o responsável pela sonorização da roda: ele lembra que pediu à dona do lugar para comprar caixas de som e microfones. Até então, o samba era no gogó, como manda a tradição. E recorda com carinho da vitrola e dos discos dados por Tia Gessy para ajudar a enriquecer seu repertório.
Relato:
— Ela é uma das minhas maiores referências, tive a oportunidade de homenageá-la em vida com os meus lançamentos “Pagode da Tia Gessy” (2020) e “Pagode da Tia Gessy — Que samba bom” (2022).
As gravações feitas no quintal do Cachambi correram o mundo e, graças a essa divulgação, não é raro aparecer na plateia gente até do Japão. Antes de Xande, já marcavam presença por lá personagens importantes como Almir Guineto (1946-2007), Beth Carvalho (1946-2019), Jovelina Pérola Negra (1944-1998) e Arlindo Cruz (1958-2025). Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Seu Jorge, Diogo Nogueira, Marquinhos Sathan e Toninho Geraes, entre outros, também fazem parte do elenco estrelado que já pisou naquele terreiro. Alguns estão eternizados no imenso painel e nas fotos que decoram as paredes. Dudu Nobre, outra cria local, se refere com carinho a Tia Gessy.
— É uma pessoa muito bacana, representante legítima da tradição de mulheres que promovem rodas de samba. Ela sempre foi muito receptiva — testemunha o sambista, lembrando que a batucada do Cachambi fazia parte do seu circuito dos domingos, que incluía ainda os pagodes da Tia Doca, em Madureira, e do River, em Piedade, entre outros.
Começo com gafieira
Nascida em Macaé, no Norte Fluminense, Gessy Soares deixou a cidade natal aos 12 anos para trabalhar como babá em Niterói. Dois anos depois se casou, já no Rio. Da união nasceram duas filhas: Janaína e Fátima, que deram a ela três netos, entre eles Amanda Amado, com carreira musical em ascensão. A matriarca, que diz não saber cantar, tocar instrumentos e sequer sambar, no segundo casamento encontrou o parceiro perfeito que a incentivou a explorar o talento para organizar eventos. Não faltou também o estímulo de amigos:
— Roberto Reis, que fazia uma gafieira às segundas-feiras, sugeriu que eu também fizesse a minha. Eu não entendia nada do assunto, mas ele e o Zeno Bandeira (radialista e produtor musical) prometeram ajudar. Fomos no Clube Maxwell, e o responsável pelo lugar estranhou porque eu era muito nova. Como tinha de escolher um nome ficou Gafieira da Tia Gessy — contou, acrescentando que o arrasta-pé durou três anos.
Desde o início, seu sonho era criar um ambiente para as pessoas frequentarem mais à vontade, de bermuda e chinelo, sem vestido de festa, salto alto e outros itens exigidos em uma gafieira típica. Ela fazia questão também de um espaço com quintal. Foi quando, por indicação do marido, apareceu a casa da Rua São Gabriel, com um terreno imenso, repleto de árvores frutíferas — hoje restam apenas duas delas. A vizinhança, no tempo da inauguração, tinha uma unidade de uma antiga rede de supermercados de um lado e, do outro, um espaço vazio, onde depois subiu um prédio alto.
O surgimento da roda
A casa velha e muito malconservada dava conta de seu uso anterior, que era abrigar um ponto de apuração da fezinha no jogo do bicho. Mesmo assim, a visitante enxergou potencial no endereço. E assim nascia no Cachambi o Pagode da Tia Gessy. Inicialmente, as rodas aconteciam nas noites de sexta-feira. Depois, migraram para as tardes de domingo, para não perturbar a vizinhança que crescia. Com o tempo, o imóvel também se modificou. As paredes internas foram derrubadas, dando lugar a um imenso salão. A reinauguração teve samba com Almir Guineto.
Em quase cinco décadas, o Pagode da Tia Gessy enfrentou diversos modismos — começou em plena onda das discotecas —, mas sempre se manteve fiel ao gênero musical que fez a sua fama. Uma das piores fases, segundo Tia Gessy, foi no começo dos anos 2000, quando o funk viveu momento de grande popularidade e acabou afastando boa parte do público, em especial os mais jovens, que migraram pra os bailes. Mas, interrupção mesmo, só na pandemia, quando a roda ficou suspensa por um ano.
Ponto turístico:
Entre muitas homenagens recebidas, ela destaca a do 1º Seminário Nacional das Rodas de Samba, realizada no Rio, em junho, quando foi reconhecida por sua contribuição ao setor. Sobre a relevância de sua roda quase cinco décadas depois, ela não faz mistério:
— Fui melhorando ao longo dos anos, mas não deixo nunca que se perca a essência do pagode de fundo de quintal.
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