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Calçadão de Copacabana tem comércio irregular e aglomerações até a madrugada

Prefeitura ignora placas e anuncia operação para combater desordem, sem data definida.

Agência O Globo - 05/07/2026
Calçadão de Copacabana tem comércio irregular e aglomerações até a madrugada
- Foto: © ANSA/AFP

Os versos de “Billie Jean”, hit de Michael Jackson, animavam uma multidão na noite da última terça-feira no calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana. Na “pista” — o piso icônico de pedras portuguesas —, o cover do Rei do Pop dançava para uma galera que comprava drinques em um carrinho com caixa de som de alta potência. Placas instaladas pela prefeitura informando sobre a proibição desses equipamentos eletrônicos são ignoradas de um lado a outro, para o pesadelo de quem ainda sonha ouvir o barulho do mar durante um passeio pela orla e de moradores que só querem uma noite de sono.

Faz um ano:

Apac Bossa Nova:

A confusão sonora se espraia. A 20 passos dali, num corredor formado por carrinhos de ambulantes com bandeiras de diferentes países sul-americanos, principalmente as de Chile, Argentina e Colômbia, além das do Brasil, sobressaem repertórios com gêneros musicais como reggaeton, clássicos em castelhano e cúmbia. Amigos e famílias se divertem, gravam vídeos da michelada chilena feita por brasileiros e da caipirinha feita por estrangeiros. De olho no grande público, vendedores de drogas circulam livremente no calçadão. A Secretaria estadual de Polícia Militar informou que um homem foi preso na última terça no bairro com drogas, dois celulares e uma quantia em dinheiro vivo. Na quarta, a algazarra seguia do mesmo jeito.

Na Costa Verde:

Pela orla, assim como os vendedores de drogas, ciclomotores circulam nas calçadas e na ciclovia, locais onde, segundo regras da Prefeitura, não deveriam estar. Na quarta-feira, enquanto o vaivém distraía quem observava os turistas e moradores se divertindo, um idoso que pilotava, sem domínio, uma moto elétrica perdeu o controle e quase bateu com as rodas do veículo numa pessoa que se exercitava na faixa para bicicletas e atletas.

Quem pratica esportes à beira-mar diz que algumas placas instaladas em setembro do ano passado direcionando o cidadão, via QR Code, para uma lista de regras em que constam proibições de caixa de som e de venda irregular de bebida, não inibem os ambulantes.

Fama além das fronteiras

O boca a boca que repercute a facilidade de chegar e ocupar um espaço rentável no calçadão mais famoso do Brasil corre e ultrapassa fronteiras. Uma família colombiana conta que veio para o Rio trabalhar vendendo comidas típicas nas redondezas depois que um dos irmãos, instalado na cidade há nove anos, comentou sobre as possibilidades. O rapaz vende camisas e, no outro lado da calçada, mais perto da pista, mãe e irmã comercializam lanches. Elas começaram a trabalhar na Atlântica antes de buscar a regularização.

— Ainda vamos entender como fazemos para ter os documentos — diz a cozinheira, que do trabalho na orla obtém renda para pagar o aluguel da quitinete dividida com duas pessoas.

Interessados em obter alguma renda recorrem cada vez mais ao aluguel de carrocinhas para vender seus produtos e aproveitar a alta de turistas latino-americanos, inclusive na baixa temporada. Nesse contexto, é possível observar a oferta de alimentos sem controle de qualidade e de bebidas sem procedência comprovada.

— Na orla, tem muitas carrocinhas de drinques. Ninguém tem licença para vender aquilo, e chega cada vez mais gente. Estrangeiros e brasileiros alugam os carrinhos, colocam as bandeiras e vão para a rua — disse um homem que pratica esporte na areia e mora na quadra da praia.

Na semana passada, a equipe do GLOBO foi à orla por duas noites e constatou a falta de fiscalização. Em duas horas, após 22h, nenhuma equipe da prefeitura passou pelo trecho entre os postos 3 e 5 da Atlântica, um dos mais movimentados. Em seu site, a prefeitura informou que a ronda foi feita em ruas internas: Francisco Sá, Duvivier, Nossa Senhora de Copacabana, Siqueira Campos e Barata Ribeiro, da madrugada de quarta para quinta-feira. Trinta quilos de alimentos impróprios para consumo foram recolhidos.

Busca por espaço

O vereador William Siri (PSOL), que tem projetos de lei representando ambulantes, diz que parte da categoria busca se regularizar e não consegue:

— A falta de transparência na concessão das Taxas de Uso de Área Pública (TUAPs) é o ponto central dessa desorganização. Muitos trabalhadores tentam há anos e não obtêm qualquer resposta sobre a ordem de recebimento ou os critérios adotados, criando um cenário de insegurança que afasta o ambulante que quer trabalhar direito. É nesse vácuo de legalidade e na ausência de fiscalização responsável que surgem problemas como a venda de produtos adulterados ou a desordem sonora — diz o parlamentar.

O efeito da proliferação desse comércio ambulante ilegal vai além da perturbação do sossego de moradores. Corre risco quem consome bebidas e comida sem procedência nessas barracas. Em outra ponta estão os trabalhadores registrados, que perdem clientes com a concorrência.

Quem frequenta a orla diz, ainda, que a segurança não melhorou com o grande fluxo de pessoas. Na semana passada, o barraqueiro Washington Conceição procurou a polícia para denunciar o roubo de 60 cadeiras de praia de sua tenda, em Copacabana. Ao GLOBO, a Polícia Civil informou que a investigação está em andamento na 12ª DP (Copacabana) e que “agentes analisam imagens de câmeras de segurança” para apurar a autoria do crime.

Após deixar o comando da pasta da Saúde, Claudia Mello vai presidir o Iaserj.

Ano passado, a Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) anunciou que usaria pelo menos dois drones e 21 câmeras de longo alcance para acompanhar o fluxo de pessoas. O inverno chegou, e a estrutura não é vista.

Operação anunciada sábado

Ao falar sobre a desordem na orla, o prefeito Eduardo Cavaliere anunciou ontem uma operação de ordenamento, mas não disse quando ela terá início. Segundo ele, o foco inicial será Copacabana, Ipanema e Leblon. Disse ainda que o protocolo vai começar com o bloqueio do acesso, já nas ruas transversais, de vendedores sem autorização para trabalhar. E que também serão fiscalizadas a entrada de equipamentos utilizados no comércio irregular e a circulação de motos elétricas fora da faixa permitida pela legislação.

Desenha-se um desafio para o poder público: possibilitar regulamentação para que os vendedores não fiquem sem trabalho é um deles. Durante a semana, algumas caminhadas noturnas pelas calçadas da Praia de Copacabana permitiram ver, ouvir e comprovar que muitos dos vendedores são hábeis e se tornaram personalidades do calçadão; atraem uma multidão de clientes, muitos deles turistas. Um brasileiro com bandeiras do Chile fincadas na carrocinha e, claro, com as caixas de som em alto volume, transformou seu carrinho em atração e há pelo menos quatro anos faz sucesso na web. Em 2025, apareceu ao lado de uma influenciadora europeia com 17 milhões de seguidores no Instagram. Mas os verdadeiros fãs são mesmo as dezenas de visitantes latinos, que param para beber e vão para a internet mostrar a diversão. Macarena Rios, do Chile, escreveu no TikTok: “É a melhor barraca! Quando fui, eu e um grupo de chilenos nos encontramos lá, ficamos bebendo a noite toda, até 5h da manhã. Até foram buscá-lo depois”, disse ela, entregando até que horas a curtição com som alto pode ir.

Um frentista que trabalha num posto de gasolina perto de onde o fervo é mais intenso, entre os postos 3 e 5, diz:

— No inverno, tem dia que o pessoal sai meia-noite. Depende do clima. Se está calor, ficam — disse.

Governo do Rio tinha funcionários fantasmas em todos os órgãos públicos; conheça quem são os suspeitos.

Muitos dos entrevistados, trabalhadores e moradores do entorno, optaram por não expor seus nomes porque a orla também é monitorada pelo crime organizado.

— Copacabana está loteada, tanto a areia quanto o calçadão — diz um atleta de fim de semana, que observa a venda de drogas e diz que o tráfico também tomou conta do lugar.

A PM informou que “o policiamento ostensivo é realizado de forma contínua em toda a área de atuação do batalhão, com o emprego de viaturas, patrulhas de moto e efetivo a pé, atuando tanto nas vias públicas quanto na orla”. Sobre as investigações de crimes na areia e nas calçadas, a Polícia Civil disse que faz ações diárias para combater o tráfico, “com foco na identificação e responsabilização dos envolvidos”.

Colaborou: Jessica Marques