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Encerramento das atividades do restaurante Didier: um alerta sobre a exploração de outros bairros

Aluguel elevado leva chef a fechar as portas e provoca debate sobre a concentração de cozinhas na Zona Sul.

Agência O Globo - 05/07/2026
Encerramento das atividades do restaurante Didier: um alerta sobre a exploração de outros bairros

Depois de uma semana com filas na porta, o restaurante Didier se despediu no último domingo (28) do endereço que ocupava na Rua Vinicius de Moraes. O estabelecimento havia se mudado para lá em setembro de 2022, vindo do Jardim Botânico, mas sucumbiu ao alto custo do aluguel numa área nobre e cobiçada. O chef Didier Labbé, responsável pela casa, reconhecida pela qualidade da cozinha francesa, ainda não decidiu para onde irá.

O fechamento do espaço motivou uma publicação nas redes sociais da chef Kátia Barbosa, que questionou o que faz com que poucos bairros da Zona Sul — Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico — sejam os favoritos da alta gastronomia carioca. “O Rio é muito maior do que o nosso mapa costuma mostrar”, escreveu, alimentando uma discussão sobre o custo-benefício desses endereços, onde os aluguéis podem chegar a R$ 70 mil.

A proximidade com uma clientela de alto poder aquisitivo, que inclui turistas hospedados em grandes hotéis, é apontada como a principal vantagem de estar nesses endereços. Outros acreditam que a razão é o prestígio de estar numa região da cidade para a qual todas as atenções estão voltadas — inclusive as dos importantes guias gastronômicos, cuja validação funciona como um carimbo de qualidade. “Jornalistas, guias, chefs, donos de bar: quando foi a última vez que vocês cruzaram o túnel pra comer?” provoca Kátia Barbosa, para quem existe vida gastronômica fora do circuito da Zona Sul.

“A vida fora desse eixo pulsa. Basta a gente ter coragem”, assegura a chef, que está “por opção” há 24 anos na Praça da Bandeira, onde mantém duas casas: Aconchego Carioca e Sofia.

Kátia aponta Flamengo, Laranjeiras, Glória, Catete e regiões de Botafogo como redutos de grande potencial gastronômico. Para demonstrar a mobilidade da clientela, diz que em suas casas recebe gente de bairros como Ipanema e Leblon. A chef lembra ainda que já teve outros estabelecimentos na Barra da Tijuca, em Copacabana e no Norte Shopping, mas preferiu fechá-los para se manter no atual endereço, que é estratégico, por estar perto do Centro, da Zona Sul e da Avenida Brasil.

“Foi uma opção difícil porque não é fácil trazer o cliente, o crítico e o influenciador para cá”, contou Kátia, que deixou o Aconchego Carioca aos cuidados da sócia para cuidar mais de perto do Sofia, aberto em 2023 na Rua Barão de Iguatemi, e especializado em comida brasileira.

O chef francês Didier Labbé, que escolheu o Rio para viver há 18 anos e é casado com uma brasileira, entregou as chaves na semana passada. Pagando um aluguel de R$ 25 mil por um espaço de 70 metros quadrados, onde cabiam 60 mesas, ele comentou que a conta não estava fechando no final do mês. Antes de desistir, afirma que tentou negociar com o proprietário, mas não obteve sucesso.

Bem-humorado, ele revelou que a postagem de Kátia Barbosa, de quem é amigo, gerou um alvoroço que ajudou a alavancar o movimento de despedida do seu restaurante. Sobre a provocação dela acerca da existência de vida gastronômica fora da Zona Sul, ele disse concordar.

“Tem sim. Eu adoro ir à Tijuca e a outros lugares da Zona Norte onde há bons restaurantes. É muito divertido e diferente da Zona Sul. O que falta é um pouco de valorização desses espaços”, avaliou.

Ainda sobre a provocação da amiga, Didier não descarta a possibilidade de sair da Zona Sul, desde que encontre um local que o agrade. Ele citou o Centro, a Lapa e a Glória como suas preferências.

Uma consulta ao Guia Michelin, referência mundial da boa gastronomia, ajuda a compreender a predileção dos chefs estrelados por determinados bairros. Dos seis estabelecimentos com uma estrela, nenhum está fora do circuito da Zona Sul. O mesmo ocorre com os dois que têm duas estrelas e os oito com o título Bib Gourmand (casas com maior custo-benefício), entre os quais se encontra o Didier. Dos 28 restaurantes recomendados, três estão fora da rota estrelada: dois em Santa Teresa e um no Centro.

Este último é o Lilia, que se instalou há nove anos na Rua do Senado, antes da badalação que a tornou a mais “cool” do planeta, segundo a revista inglesa Time Out. Mesmo sem querer entrar na polêmica sobre a exploração de áreas fora da Zona Sul, o chef e restaurateur Lucio Vieira reconhece que foi atraído pelo aluguel mais baixo.

“Já fechei restaurante no Centro. Não se pode colocar a culpa apenas no aluguel. É preciso olhar para questões internas, de maneira mais madura, administrativamente falando, e ver que de repente a gente errou. Mas escolhi este endereço pela possibilidade de pagar um aluguel infinitamente mais barato que no Leblon, por exemplo, e num local com fluxo de pessoas de grandes empresas ao redor, como a Petrobras. Isso ajudou no sucesso do Lilia, além da falta de concorrência”, disse, referindo-se ao seu cardápio que aposta numa cozinha autoral e contemporânea.

Por outro lado, Pedro Hermeto, dono do Aprazível — também listado como de boa cozinha e bom preço pelo Guia Michelin —, há quase 30 anos em Santa Teresa, não sentiu o peso do aluguel na época, pois o restaurante se instalou em imóvel próprio. Ele também defende a exploração de novas áreas.

“A cidade é muito vasta, geograficamente, com muitas possibilidades. Os espaços na Zona Sul estão acabando. Então, é natural que as pessoas busquem imóveis com preços mais acessíveis, que não onerem tanto o custo de operação, e que estejam em áreas novas. Vimos isso acontecer com Botafogo, que se tornou um polo gastronômico por conta dos preços mais acessíveis de imóveis”, argumentou.

Com vários estabelecimentos espalhados pela cidade, como o Giuseppe Grill, no Leblon, o Xian, no Centro, e o Nolita, na Barra da Tijuca, o restaurateur Marcelo Torres é um dos que defendem a exploração das diferentes regiões.

“Eu acho que, quando você faz um produto bacana, ele vira destino. Eu tenho um exemplo que é o Xian (no Bossa Nova Mall, no Santos Dumont). É um restaurante que fica no Centro, que está combalido, e mesmo assim vive cheio. As pessoas vão lá, mesmo estando fora dos circuitos”, destacou.

No entanto, Torres se queixa de uma certa invisibilidade à qual são relegados os estabelecimentos localizados fora do eixo gastronômico.

“Tenho muitas operações na Barra, que acaba ficando meio fora desse circuito, e quando você observa as premiações, ninguém dá atenção às casas de um lugar que se tornou uma opção bastante interessante”, lamentou, sem entender o porquê disso.

A comerciante Adriana Veloso, responsável pelo Pescados na Brasa, fez o caminho oposto ao sugerido por Kátia Barbosa. Após sete anos no Riachuelo, decidiu abrir uma filial no Leblon, mesmo pagando um aluguel três vezes mais caro. No entanto, a comerciante garante que não buscou um novo público, mas sim atender à demanda de clientes que já frequentavam a casa na Zona Norte, mas se queixavam da distância.

“Na verdade, eles querem muito vir para cá (para o Riachuelo), mas, por causa do engarrafamento, acabam optando por ficar por lá (na Zona Sul)”, esclareceu a maranhense, criada no Pará, que no Riachuelo oferece, além da gastronomia regional, uma experiência cultural, como a dança do carimbó, sempre no segundo domingo do mês.