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Apac Bossa Nova: decreto que tomba imóveis e limita construções em Ipanema e Leblon gera debate entre moradores e especialistas; entenda

Área de Proteção do Ambiente Cultural para Ipanema e Leblon abrange a parte dos bairros mais próxima da orla

Agência O Globo - 03/07/2026
Apac Bossa Nova: decreto que tomba imóveis e limita construções em Ipanema e Leblon gera debate entre moradores e especialistas; entenda
Prefeitura do Rio - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Após a Prefeitura do Rio divulgar no Diário Oficial, na quinta-feira, o decreto que institui a Apac Bossa Nova, moradores e especialistas consultados pela GLOBO manifestaram desconfiança em relação ao projeto, enquanto a comunidade se dividiu. A medida foi criada pelo decreto nº 58.245, de 1º de julho de 2026. O texto tomba em definitivo 17 imóveis, além do calçadão de pedras portuguesas da orla dos dois bairros. Também declara Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial da Cidade do Rio de Janeiro o Garota de Ipanema : trata-se do antigo Bar Veloso, onde Tom Jobim e Vinicius de Moraes se inspiraram para compor o clássico da bossa nova que hoje batiza a casa. E estabelece limite de 20 metros de altura , equivalente a prédios entre 6 e 7 andares, para novas construções em áreas específicas.

De acordo com o decreto, a Apac Bossa Nova busca “a proteção das edificações e espaços públicos que seja específica parte importante da paisagem e deva manter um conjunto harmônico sem comprometer o uso das praias, sem projeção de sombras sobre a orla, protegendo o uso público dos espaços, a paisagem urbana e o equilíbrio ambiental”.

Os imóveis tombados estão nas Avenidas Rainha Elizabeth e Henrique Dumont; e nas ruas Prudente de Morais, Maria Quitéria, Nascimento Silva, Joaquim Nabuco, Garcia d'Ávila, Farme de Amoedo, Barão da Torre e Almirante Saddock de Sá. Qualquer intervenção a ser realizada nestes bens deverá ser previamente aprovada pelo Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. O decreto restringe ainda a instalação de painéis publicitários e informados que cobrem total ou parcialmente suas fachadas.

A Apac Bossa Nova abrange cerca de 750 edificações, numa área que fica entre a orla e a segunda quadra para dentro dos bairros, incluindo vias como as avenidas Delfim Moreira e Vieira Souto e as ruas Francisco Otaviano, Joana Angélica, Paul Redfern e Aníbal de Mendonça.

As regras para novas construções na área de proteção incluem altura máxima de 20 metros, entre o piso do pavimento térreo e o ponto mais alto da edificação. Os imóveis também não poderão gerar empenas cegas, que sejam paredões nas laterais ou nos fundos sem abertura, como janelas, portas ou varandas.

Em casos de demolição de edificação, a execução deverá seguir as regras previstas no decreto. As normas valerão ainda para o imóvel que, embora esteja fora da Apac, tenha a sua área juntada a terreno dentro dos limites do setor protegido.

Outra determinação do decreto é a dispensa da criação de Área de Entorno de Bem Tombado . Essa medida, em especial, preocupa especialistas, que avaliam que ela “simplifica o licenciamento, prejudicando a proteção”.

— Quando se fala que tem que preservar o ambiente tombado, o que isso significa? Que, quando tenho um terreno próximo de um bem tombado, preciso tomar certos cuidados. Não posso, por exemplo, fazer uma torre com variedades de pavimentos, comprometendo a visibilidade de uma construção de valor excepcional. Quando dispensam essa proteção, facilitam o licenciamento porque libera o terreno do entorno — analisa Carlos Eduardo Nunes Ferreira , vice-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O professor Carlos Eduardo ultimamente a Apac Bossa Nova “mais liberal” do que as Apacs anteriores: a de Ipanema, criada pelo decreto 23.161, de 21 de julho de 2003, e a do Leblon, definida pelo decreto 28.223, de 26 de julho de 2007.

— A proteção de agora é mais liberal, inclusive na quantidade de imóveis, que é menor. No gabarito, também é menos restritivo. A Apac de Ipanema estabelecia limite de 12 metros de altura, e a Apac do Leblon determinava três escalas para as construções: 11, 16 e 26 metros — destacado.

Embora considere positivos os esforços para a proteção da região, ele enxerga o novo decreto com desconfiança:

— Por que fazer uma lei quando já existia outra que era mais rigorosa? — pergunta.

Arquiteto e urbanista , Sérgio Magalhães são importantes para o tombamento definitivo dos imóveis registrados. Ele afirma, porém, que se sente frustrado com a abrangência limitada da área de proteção.

— Anunciado o decreto, minha primeira impressão foi muito positiva. É muito relevante que a prefeitura reveja as decisões que têm permissão para uma “derruba geral” em Ipanema e no Leblon. Mas, ao ler o decreto, há um sentimento de frustração. A área abrangida não alcança os dois bairros, como sugerido pelo anúncio, mas apenas parte das quadras que têm frente para o mar. E a preservação da imagem ambiental não se dá apenas na orla da praia. É o conjunto de dois bairros que permite usufruir de um ambiente atualizado — informado o especialista. — Ficou faltando, para que o decreto correspondesse à intenção anunciada, impedir a transferência de potencial construtivo para esses bairros, o que tem aumentado os gabaritos e descaracterizado os ambientes que o decreto quer preservar.

A presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema, Maria Amélia Loureiro diz que a medida chegou “tarde demais”.

— Até agora não foi feito nada para impedir a construção de prédios altíssimos. Agora eles vêm com essa história. Muitos prédios já estão na metade construídos. Eu moro em Ipanema e tenho, do lado do meu prédio, um prédio de 19 andares sendo construído. Isso já foi autorizado. Na Rua Prudente de Morais, há várias construções também desse nível — reclamou.

Evelyn Rosenzweig , presidente da Associação de Moradores e Amigos do Leblon, enxerga a Apac com otimismo.

— Eu acho positivo. vendo como uma extensão da Apac estou anterior. Apesar da gritaria que ocorreu na época, ela foi muito positiva para o bairro. As construções não pararam, mas poderiam ter sido piores — opinou. — Com relação ao calçadão, há muitas queixas de má conservação. Com o tombamento, espero que haja um movimento para a manutenção.