RJ em Foco
Conversas indicam passe livre de cigarros de Márcio Poncio em áreas dominadas pela quadrilha de Adilsinho
O pastor foi um dos presos pela Polícia Federal, nesta quinta-feira, na nova fase da Operação Unha e Carne
Conversas obtidas pela Polícia Civil do Rio, por meio de quebras de sigilo de membros da Máfia do Cigarro, citam a atuação de Márcio Poncio no mercado clandestino de cigarros no Rio. Preso nesta quinta-feira pela Polícia Federal na quinta fase da Operação Unha e Carne, o pastor é investigado por ligação com a quadrilha do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho , o Adilsinho , que explora o monopólio da venda de cigarros ilegais em praticamente todo o estado. Os diálogos indicam que, apesar de Adilsinho não tolerar a presença de outras marcas nas regiões que domina, os cigarros ligados ao pastor deveriam passar livres nas suas áreas.
PF mira
Num áudio enviado a uma comparação em outubro de 2022, o sargento Daniel Figueiredo Maia , apontou como um dos operadores de Adilsinho, contorno que a quadrilha havia decidido tabelar o preço dos cigarros. Em seguida, Maia citou o pastor como a concorrência dos cigarros de Adilsinho nas ruas: “Só que o que tá ruim pra gente na rua é o pastor pô. Mas o cara tem a fábrica dele. Na verdade, quem atrapalha ele é a gente né, que o nosso é 'ruim', porque não tem nota.
Segundo policiais que investigam a quadrilha, marcas que não fazem parte do esquema são roubadas das lojas pelos operadores de Adilsinho, e seus donos são retaliados. Com os produtos ligados a Poncicio, no entanto, a livre concorrência parece ser respeitada.
Um dos momentos mais difíceis:
Outra conversa em que o pastor é relatado mostra como a Máfia do Cigarro trata empresários que não integram a quadrilha e tentam se instalar nas lojas da cidade. Em março de 2023, o sargento Maia estava preocupado com a expansão de uma nova marca de cigarros pela Zona Oeste do Rio, a R8 . "Quanto 'tá' custando o R8?", perguntou outro comparsa, que atuava nas ruas fazendo entrega de cigarros em pontos de venda.
O interlocutor tentou tranquilizar o PM: "Eles vão parar pô, eles vão parar pô. Tô desenrolando isso já há quase um mês. Se eles continuarem com R8, eu vou baixar e vou botar aquele amarelo... Aquele G maço amarelo , para tomar deles". Sua estratégia consiste em passar a fornecer cigarros de Adilsinho a preços mais baixos para evitar que os comerciantes comprem o concorrente.
Mas a menção aos cigarros "amarelos" acendeu o alerta do sargento, afinal a quadrilha não vende cigarros desse tipo. "O cara não faz o amarelo, irmão! O amarelo é do pastor", explicou, em referência aos produtos ligados a Poncio.
Pesquisa de campo
No mês seguinte, como persistia a queda no faturamento, o sargento determinou que o subordinado fizesse uma pesquisa de campo: ele deveria comprar cigarros em diferentes pontos de venda e enviar fotos dos maços. “Tem uma desconfiança de que tem coisa de fora lá”, justificou. Em junho, Cristiano de Souza , principal distribuidor no Rio da marca R8 — justamente a referência pelo policial —, acabaria executado com mais de 30 tiros de fuzil por homens encapuzados. Com base no diálogo, o PM Daniel Maia foi denunciado por assassinato.
Apac Bossa Nova:
O pastor Márcio Poncio foi preso na manhã desta quinta-feira em um apartamento do Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Como O GLOBO mostrou, um elo societário conecta Adilsinho e o pastor. Charles Guilherme Costa de Vasconcellos , apontado como laranja de Poncio, também é acusado de ser operador de Adilsinho e integrar sua quadrilha, que explora o monopólio da venda de cigarros ilegais no Rio.
Vasconcellos foi um dos presos na Operação Libertatis 2, em março de 2025, contra integrantes da Máfia do Cigarro, chefiada por Adilsinho. Segundo a PF, ele é sócio da empresa Comercial 8 , apontado como responsável pela distribuição dos cigarros ilegais do bando. Antes de sua ligação com Adilsinho para o público, no entanto, Vasconcellos já era conhecido da Justiça por sua relação com o pastor Márcio Poncio. Num processo movido pela União contra uma série de empresas do grupo empresarial do pastor por dívidas fiscais, o empresário é apontado como "laranja" de Poncio.
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