RJ em Foco
CV, TCP, milícia e agora jogo do bicho: as organizações criminosas que cruzam o caminho de deputados da Alerj
Desde o ano passado, uma sequência de operações policiais passou a atingir integrantes do Legislativo fluminense por suspeitas de envolvimento com o crime organizado
O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, foi alvo de mais uma operação da Polícia Federal nesta quinta-feira. É a quarta vez que ele entra na mira dos investigadores em cerca de oito meses, desta vez por supostas ligações com o jogo do bicho. Na primeira operação, em dezembro do ano passado, Bacellar chegou a ser preso por integrar uma investigação que apurava o vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho (CV). Desde o ano passado, uma sequência de operações policiais passou a atingir integrantes do Legislativo fluminense por suspeitas de envolvimento com o crime organizado. As investigações já apontaram possíveis ligações de parlamentares com o jogo do bicho, o Terceiro Comando Puro (TCP), o CV e milícias. Entenda.
Demolição do 'resort' do Peixão:
A operação desta quinta-feira é a quinta fase da Operação Unha e Carne, deflagrada para investigar um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à nova cúpula do jogo do bicho e possíveis repasses a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Estado do Rio. As suspeitas surgiram após a apreensão de listas encontradas na cabeceira da cama do contraventor durante a operação que resultou em sua prisão, em fevereiro.
Prisão:
Nos documentos, foram identificados nomes de políticos de diferentes partidos e espectros ideológicos. Segundo os investigadores, as anotações indicariam registros de supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações contábeis relacionadas à lavagem de dinheiro.
Não é a primeira vez que Bacellar é investigado por suspeitas de ligação com o crime organizado. Em dezembro do ano passado, ele foi preso após uma investigação da Polícia Federal apontar que teria repassado informações sigilosas de uma operação ao traficante TH Joias, investigado por envolvimento com o Comando Vermelho. Segundo a PF, Bacellar teria avisado o criminoso sobre a ação policial e orientado a retirada de objetos do imóvel antes do cumprimento dos mandados de busca.
A Polícia Federal também afirma que Bacellar era o principal contato da lista de "comunicação urgente" de TH Joias. Na mesma operação, realizada em 16 de dezembro, foi preso o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. A suspeita é de que informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun tenham sido vazadas antes do cumprimento dos mandados.
TH Jóias:
Em setembro do ano passado, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que levou à prisão do então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho (CV), mantendo contatos com traficantes, policiais e agentes públicos. Os investigadores afirmaram que o parlamentar teria usado a estrutura do mandato para beneficiar integrantes da facção, incluindo negociações envolvendo armas, drogas e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.
Segundo a investigação, TH Joias tinha uma relação com o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, que ia além de contatos ocasionais e envolvia apoio político e operacional ao crime organizado. O político teria intermediado negociações de drogas, fuzis e até equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.
O ex-parlamentar também é apontado como responsável por indicar a esposa de Índio do Lixão para um cargo parlamentar. As investigações também apontam que havia um plano para lançar Índio do Lixão como candidato a vereador em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, reduto de atuação do grupo.
Val Ceasa:
O deputado estadual Val Ceasa (PRD) foi um dos alvos de uma operação do mês passado. Enquanto investigava a ligação do deputado com o grupo criminoso, o Ministério Público do Rio (MPRJ) mapeou os vínculos entre ex-assessores e funcionários lotados no gabinete do parlamentar com integrantes da facção. O principal nome levantado foi o de Michael Johnny Vianna de Azevedo, que foi indiciado em uma investigação da Polícia Civil sobre um homicídio encomendado por Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, um dos chefes do TCP.
A suposta ligação do parlamentar com facções criminosas já havia sido exposta na série, em que o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, enviou ao chefe do CV no Complexo da Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma foto de Val Ceasa durante uma reunião no Palácio Guanabara, em janeiro de 2025. Ao encaminhar a imagem, Gardenal escreveu: "Te falei, Val é o contato dele", sem explicar a quem se referia. Em seguida, Doca respondeu: "É, mano, esse cara tem que vir para nós".
Segundo a Polícia Federal, a troca de mensagens demonstra o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar sua influência, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. A investigação apontou ainda que a aproximação com políticos teria como objetivo influenciar ações sociais e evitar interferências do Estado em áreas dominadas pelo grupo criminoso.
Monte de oração, câmera espiã e saída para fugas:
Embora a conversa não esclareça quem seria o "dele" mencionado por Gardenal, uma fonte da PF afirmou que o diálogo remete a uma suposta aliança de Val Ceasa com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como chefe do TCP, facção rival do Comando Vermelho.
Val e o ex-vereador Ulisses Marins são apontados como suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes da facção, em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, Zona Norte do Rio.
Nas vísceras da Alerj:
Lucinha
Em 2023, a Polícia Federal e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro deflagraram uma operação contra a deputada Lucinha. Ela foi denunciada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ), assim como sua assessora Ariane Afonso Lima, como integrantes do núcleo político da maior milícia do Rio, comandada por Luis Antonio da Silva Braga, o Zinho. A deputada, que é ré por envolvimento com a milícia, sempre negou ter cometido qualquer crime.
Na época da operação, a PF afirmou que encontrou indícios que apontavam para uma participação ativa da deputada e de sua assessora na organização criminosa, especialmente na articulação política junto aos órgãos públicos visando atender os interesses do grupo miliciano.
O chefe do grupo paramilitar se entregou à Polícia Federal na véspera do natal de 2023, uma semana após documentos e telefones terem sido apreendidos na casa da parlamentar, momento considerado como um revés para a quadrilha.
A denúncia do MP menciona que foram realizados ao menos 17 reuniões — uma média de duas por mês, entre junho e dezembro de 2021 — entre Lucinha, Ariane e integrantes da milícia de Zinho, incluindo a presença do chefe do grupo. Alguns desses encontros foram realizados na Alerj. O assunto seria a Zona Oeste do Rio, reduto eleitoral da deputada e área de controle da milícia de Zinho.
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