RJ em Foco
Greve de ônibus: trens e metrô do Rio terão operação reforçada no terceiro dia de paralisação dos rodoviários
Movimento dos rodoviários chega ao terceiro dia com nova rodada de negociação
Como consequência da manutenção da greve dos rodoviários, a Trens RJ afirmou, na noite de ontem, que vai disponibilizar hoje “30 viagens além da grade convencional, com redução dos intervalos nos horários de maior demanda”. Já o MetrôRio avisa que vai reforçar a oferta de composições no sistema “em caso de aumento no número de passageiros”. A concessionária acrescentou que ontem o fluxo de passageiros “registrou uma redução de 10% até as 16h, em comparação com terça-feira da semana passada”.
Na terça-feira, terminou sem acordo a audiência de conciliação realizada ontem para tentar colocar fim à greve dos motoristas de ônibus da cidade do Rio. Do lado dos rodoviários, a reivindicação é de aumento de 17% para funções gerais e fixação dos pisos salariais em R$ 5 mil, para motoristas do BRT, e R$ 4 mil, para os condutores das demais linhas, além de reajuste no vale-alimentação. O Sindicato das Empresas de Ônibus (Rio Ônibus), no entanto, manteve a proposta de reajuste inicial de 4,39%.
Diante do impasse, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-RJ), onde aconteceu a reunião, e o Ministério Público do Trabalho propuseram ao Sindicato dos Rodoviários (Sintrucad-Rio) que levasse à categoria a alternativa de suspender a greve até a realização de nova audiência, inicialmente marcada apenas para a próxima segunda-feira. Em contrapartida, não haveria descontos pelos dias parados e a prefeitura se comprometia a não multar as empresas por não oferecer o serviço.
Reunidos em assembleia diante do tribunal após a audiência, os rodoviários rejeitaram a medida e decidiram manter a paralisação. Após a nova manifestação da categoria, o TRT-RJ antecipou para hoje, às 11h, a realização de nova rodada de negociações sobre a greve.
Indignação
Enquanto o consenso não chega, a expectativa é que hoje, terceiro dia da greve, se repitam as cenas da manhã e da tarde de ontem. Ônibus superlotados, filas enormes, longa espera nos pontos e correria para não perder o transporte — e o emprego. No rosto de cada passageiro o que se via era um misto de desânimo e indignação diante do sufoco para se deslocar pela cidade. Em vídeo registrado pela equipe do GLOBO é possível ver pessoas espremidas na entrada de um ônibus em São Cristóvão. Do lado de fora, esperando em vão uma oportunidade para embarcar, um passageiro resume a situação:
— O ruim é isso aí... A pessoa vai humilhada e amassada desse jeito?
Disponibilizados pela prefeitura, dados do aplicativo GPS dos Ônibus dão uma ideia da redução do número de veículos circulando pela cidade. Às 8h de ontem, havia 1.460 veículos nas ruas, apenas 39,3% da frota disponível na terça-feira da semana passada, no mesmo horário (3.712). A maior quantidade de ônibus rodando ontem foi registrada às 14h, quando o app contabilizou 1.695, o equivalente a 48,1% dos 3.521 monitorados sete dias antes.
Cenas de ônibus e pontos lotados se multiplicaram pela manhã. No Terminal Gentileza, coletivos chegavam e saíam lotados. Na Avenida Brasil, idem. Na região da Central, filas tomavam conta dos pontos e havia correria para embarcar. Na volta para casa o panorama não mudou: houve queixas de aumento de até três vezes no tempo de espera por transporte.
Às 18h20 de ontem, Shirlaine Marçal, auxiliar de serviços gerais, era uma das centenas de pessoas que aguardavam a vez nas filas do Terminal Gentileza. Depois de ter acordado às 3h30 para tentar, às 5h30, pegar condução até o trabalho, no centro do Rio, ela estimava a volta para casa, em Jardim Bangu, para algo próximo das 21h.
— E ainda vou cuidar dos filhos, do marido, da casa. Tenho que fazer jantar, ver se tem roupa para lavar, lixo para jogar fora. É uma jornada que continua, só é mais cansativa devido à peregrinação até lá — concluiu.
Ontem à noite, a pedido da prefeitura, o Tribunal Superior do Trabalho determinou que as empresas de ônibus coloquem nas ruas, no mínimo, 80% da frota por linha e itinerário, durante toda a greve.
A assembleia dos rodoviários que rejeitou a suspensão provisória da greve foi marcada por confusão. Em meio a bate-boca e ânimos exaltados, ovos foram atirados contra carros do sindicato. Os grevistas ainda abordaram veículos que estavam circulando e passageiros chegaram a ser retirados dos coletivos. Segundo o Rio Ônibus, 15 foram vandalizados, e rodoviários que estavam trabalhando, hostilizados.
Pouco antes das 15h, cerca de cem rodoviários realizaram uma manifestação na região central da cidade. Carregando faixas, eles seguiram em caminhada pela pista lateral da Avenida Presidente Vargas até o Terminal Gentileza. No caminho, retiraram as chaves de alguns ônibus, que tiveram que ser rebocados. Houve tentativa dos manifestantes de entrar no terminal, impedida por guardas municipais.
— Se não vier uma proposta decente, a greve continua. O pessoal está muito mobilizado. O Rio Ônibus não apresentou nenhuma melhora na proposta até agora — disse Sebastião José, presidente do Sindicato dos Rodoviários.
Infiltrados
O entidade já anunciou que fará nova assembleia hoje após a audiência de conciliação marcada pelo TRT-RJ. O presidente do sindicato, no entanto, disse que a categoria dessa vez vai se reunir em lugar fechado, na sede social da entidade, em Rocha Miranda, na Zona Norte, e que será feita verificação dos participantes para garantir que apenas rodoviários participem da decisão:
— Não faremos mais a assembleia na porta do tribunal, como aconteceu hoje (ontem), porque houve infiltração de pessoas que não têm relação com a categoria. Quem deve decidir o destino da categoria são os próprios trabalhadores, e não terceiros. Por isso, a assembleia será realizada em um local fechado, onde será possível identificar quem realmente tem direito a deliberar.
Expectativa
Em nota, o Rio Ônibus disse que esperava a “retomada imediata da operação e da consequente redução dos impactos à população” após a proposta de suspensão do movimento grevista apresentada pelo TRT-RJ na audiência de ontem. O sindicato criticou a ação do que chamou de “grevistas mais exaltados”.
Como consequência da manutenção da greve, a Trens RJ afirmou, na noite de ontem, que vai disponibilizar hoje “30 viagens além da grade convencional, com redução dos intervalos nos horários de maior demanda”. Já o MetrôRio avisa que vai reforçar a oferta de composições no sistema “em caso de aumento no número de passageiros”. A concessionária acrescentou que ontem o fluxo de passageiros “registrou uma redução de 10% até as 16h, em comparação com terça-feira da semana passada”.
A Mobi-Rio informou que o sistema BRT havia registrado aumento de 26% da frota em operação na comparação com a véspera, primeiro dia da greve. Segundo a companhia, dos 541 articulados que costumam circular às 6h, 361 estavam nas ruas.
* Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef
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