RJ em Foco
Rio das Pedras vira foco da guerra entre CV e milícia, com uso de drones e explosivos
Berço das milícias no Rio, segunda maior favela do país está na mira do Comando Vermelho, que tenta ampliar domínio na região
Segunda maior favela do país em número de domicílios, com 23.846 residências, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rio das Pedras, no Itanhangá, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, tornou-se conhecida como o berço da milícia no estado. Foi naquela região que, na década de 1980, uma atuação organizada de grupos de extermínio começou a chamar a atenção.
Nos anos 2000, o movimento, criado sob a justificativa de oferecer segurança ao comércio e aos moradores, ganhou uma forma de grupos paramilitares que, hoje, atuam de modo semelhante às quadrilhas criminosas que queriam combater. A milícia moderna a cobrança de taxas de segurança e a exploração de negócios irregulares, como a venda clandestina de sinal de internet e TV a cabo — práticas que inspiraram outros grupos no estado e passaram a ser empregados também por facções rivais.
Há quase duas semanas, milicianos lutam para impedir que o território onde o grupo nasceu caia nas mãos de inimigos.
Bomba com drone
Desde 18 de junho, criminosos ligados ao Comando Vermelho (CV) intensificaram as tentativas de invasão em áreas dominadas pela milícia em Rio das Pedras. Naquele dia, Kauan de Oliveira Teles e outros oito paramilitares deixaram a milícia e passaram para o lado da facção. O impacto foi imediato: a violência aumentou e os moradores passaram a conviver com uma rotina de tiroteios.
Uma semana depois, em 24 de junho, um drone foi usado para lançar um artefato explosivo sobre a comunidade. Uma casa foi atingida. "Às 3h13 da madrugada jogaram uma granada sobre a minha casa, no Areal, em Rio das Pedras. Graças a Deus ninguém se feriu. Até quando moradores inocentes vão sofrer com essa violência?", questionou uma moradora nas redes sociais.
Segundo as investigações, os traficantes do CV escondidos na localidade conhecida como Caranguejo, já dentro do Rio das Pedras, receberiam apoio de ataques vindos da Gardênia Azul e da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, além do Morro do Banco e da Muzema, no Itanhangá. A ofensiva contra áreas da milícia teria sido ordenada por membros da cúpula da facção, entre eles Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca.
Dois fatores explicam o interesse do CV pela favela. A primeira é uma tentativa de formar uma espécie de cinturão de domínio na região, onde Rio das Pedras permanece como uma das áreas sob controle de milicianos. A comunidade fica entre a Barra da Tijuca e a Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
O segundo motivo é financeiro. Estimativas da polícia apontam que, no berço da milícia, os paramilitares arrecadem cerca de R$ 2 milhões por mês com atividades como venda clandestina de sinais de TV a cabo e internet, além da cobrança de taxas de segurança.
No mesmo dia 24, uma operação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) revelou que milicianos de Rio das Pedras, do Catonho e da Taquara, em Jacarepaguá, além do Catiri, em Bangu, buscaram apoio de criminosos do Terceiro Comando Puro (TCP) para ampliar o poder bélico e conter as invasões do CV.
— Em algumas localidades, o TCP recebeu aval para vender drogas. Em outras, para explorar a cobrança de impostos em conjunto com a milícia — explicou o delegado Jefferson Ferreira, da Draco.
Durante a operação, os policiais encontraram uma tabela com valores cobrados semanalmente por milicianos em Jacarepaguá. Uma casa de material de construção, por exemplo, pagava R$ 100. A polícia também afirma ter encontrado provas de aliança entre a milícia e o TCP.
Uma dessas evidências é um fuzil apreendido no Catiri. A arma, encontrada com um miliciano em fevereiro, tinha na coronha a inscrição “Tropa do Montanha 5.3”. Montanha é o apelido de um paramilitar oriundo de Rio das Pedras. Segundo a polícia, a numeração indicaria a aliança entre os grupos: o “5” faria referência à milícia, enquanto o “3” referiria ao TCP.
Rotina de guerra
Morador de Rio das Pedras há mais de 20 anos, uma testemunha relata que, por causa dos tiroteios, moradores do Areal, da Areinha e do Caranguejo tiveram rostos mais cedo para casa. Segundo ele, bares que antes permaneciam abertos até a madrugada passaram a fechar por volta das 21h.
— Essa área é brava. É onde acontecem os tiroteios. É uma região que quase não tem asfalto. E, agora, ainda tem essa violência toda. Se as pessoas tivessem condições de morar em outro lugar, sairiam de lá — afirmou.
Ainda de acordo com o morador, por causa da guerra, os milicianos interromperam temporariamente a cobrança de taxas e deixaram de circular ostentando fuzis.
— Mas não tenho dúvidas de que, se uma guerra acabar e uma milícia vencer, eles vão voltar a fazer o que fizeram antes. E cobrar os atrasados — desabafou.
O professor e pesquisador José Cláudio Souza Alves, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, afirma que o enfraquecimento das milícias na região, assim como em outras áreas do Rio, tem relação com o avanço do CV.
— Primeiro, o CV acumulou dinheiro com o objetivo de retomar territórios. A facção foi percebendo que, principalmente a partir da política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), as milícias estavam em um processo de tomada de territórios muito avançado e rápido, sempre com base na estrutura de segurança pública estatal — analisada.
Segundo Alves, o CV também se aproveitou de disputas internacionais entre milicianos.
— Após a expansão, as milícias entraram em uma fase de fragmentação, mesmo aquelas enormes com estruturas, baseadas em acordos. Esses acordos deixaram de se sustentar a partir do assassinato dos chefes — explicou o pesquisador.
Rio das Pedras era o nome de um córrego que cortava a região de Jacarepaguá, vizinha à Lagoa da Tijuca. A ocupação desordenada começou no final da década de 1960, com a chegada de migrantes nordestinos em busca de trabalho na Barra da Tijuca, então em fase de expansão. Os próprios moradores fizeram aterros e construíram suas moradias.
Nos anos 1980, um grupo paramilitar conhecido como polícia mineira passou a controlar o local, sustentado inicialmente por comerciantes, sob o argumento de impedir a ação de ladrões e o tráfico de drogas.
Poder político
Com o passar dos anos, o grupo ganhou poder territorial, bélico, financeiro e político. Em 2007, Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, então presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, foi eleito vereador. Ligado à milícia, então chefiado pelo policial civil Félix Tostes, assassinado a tiros em julho de 2007, Nadinho também acabou morto. O crime ocorreu em junho de 2009, na Barra da Tijuca. Segundo a polícia, os dois assassinatos estiveram relacionados à disputa pelo controle da milícia local.
Rio das Pedras é uma das três primeiras comunidades — ao lado da Gardênia Azul e da Muzema — incluída no plano de reocupação territorial elaborado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, em atendimento a uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.
O plano foi entregue ao STF em dezembro e aguarda homologação. A região foi escolhida para reunir os três principais grupos criminosos do Rio — CV, milícia e TCP —, por sua localização estratégica e por concentrar áreas de expansão urbana e econômica com alta densidade populacional.
Mais lidas
-
1LOTERIAS
Horário da Quina de São João: veja como acompanhar o resultado
-
2ALARME FALSO
'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em várias cidades
-
3INFRAESTRUTURA
Governo inaugura duplicação da AL-110 entre Arapiraca e São Sebastião
-
4ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
5EVENTO
Arapiraca sediará evento internacional que reúne pesquisadores do Brasil e do exterior