RJ em Foco
Lojas do Rio apostam em brunch durante aulas de pintura e cerâmica, regadas a uma boa conversa
Durante o processo, há liberdade total de criação. O salão funciona como um ateliê aberto
Espaços que misturam café, cerâmica, pintura e encontros afetivos estão redesenhando a ideia de lazer na cidade. Em vez do bar lotado ou do restaurante tradicional, cariocas têm buscado programas que unem experiência manual, conversa sem pressa e uma pausa das telas. Entre pincéis e taças de vinho ou um cafezinho com pão de queijo, surgem novas formas de convivência — em família, entre amigos ou até em encontros românticos.
No Tinta La Vida, empresa mineira que abriu uma filial há pouco menos de um mês na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, a demanda surpreendeu até a proprietária Tatiana Moraes Alves. O espaço, praticamente ao lado do metrô Jardim Oceânico, abre às 10h, mas a fila começa a se formar antes. A marca já se consolidou em Minas e em São Paulo, mas a proposta ainda é relativamente nova no Rio: um brunch de inspiração mineira combinado à experiência de pintar peças de cerâmica. A dinâmica é simples: o cliente escolhe entre peças pequenas (R$ 108) e grandes (R$ 208), recebe orientação da equipe sobre a preparação, a pintura e a mudança das cores após a queima e, 15 dias depois, busca — ou recebe em casa — o objeto finalizado.
Criatividade sem limite
Durante o processo, há liberdade total de criação. O salão funciona como um ateliê aberto: o cliente circula para escolher as cores, utiliza fitas adesivas e moldes disponibilizados pela casa e encontra inspiração nas prateleiras e nas peças ao redor para criar sua própria obra-prima. O que mais chama atenção não é apenas a possibilidade de levar para casa uma peça única, personalizada, mas o perfil diverso do público: pai e filha, mãe e filhas, grupos de amigos, encontros românticos, amigos e até reuniões que ficaram conhecidas ali como “terapia das mães”. A publicitária Monique Caiazza decidiu aproveitar o último dia de férias ao lado da filha, Olivia, de 8 anos, para fazer um programa diferente.
— Trouxe ela aqui e já estou pensando em marcar um encontro com minhas amigas para fazer uma “terapia das mães”. Até enviei a sugestão para a psicóloga dela. É um momento mãe e filha. Além da boa comida, aproveitei e a tirei das telas — conta Monique, que ainda sugeriu à proprietária a criação de um workshop de pintura em cerâmica voltado para crianças nas férias.
Igreja Luciferiana:
O empresário Thiago Souza, de 45 anos, também viu na proposta uma oportunidade de aproximação. Ele fez surpresa para a filha, Marcela Fernandes, de 13 anos, que há dias pedia para conhecer o espaço. No aniversário dela, levou a adolescente sem avisá-la. Ele escolheu uma peça para pintar e escreveu, em tom de brincadeira, “não mexe no meu copo”, além de uma frase que faz referência ao time do coração — para que ninguém na família ouse usar o utensílio depois de pronto.
— Nunca fiz isso (pintar). Ela estava comentando há um tempo sobre esse lugar. Entrei na dela e fiz a surpresa. A experiência também me surpreendeu — diz Thiago, que saiu da Taquara para comemorar a data de forma diferente.
Oruam:
De vento em popa
Publicitária de formação, Tatiana Alves diz que a maioria dos clientes chega sem nunca ter tocado em uma peça e que já pensa em expandir o negócio.
— Não podíamos abrir a filial em shopping. É um espaço que precisa ser em casa, um lugar aconchegante. Não temos nem um mês aqui e já estamos planejando abrir outra filial, desta vez na Zona Sul — revela.
O cardápio acompanha a proposta afetiva. O carro-chefe é o pão de queijo com costela desfiada. Há ainda dadinho de tapioca com bacon e goiabada. Em breve, segundo Tatiana, o menu deve ganhar mate e uma versão mais gourmet de pão na chapa, adaptando-se ao paladar da cidade. O local funciona de terça-feira a domingo e fecha às 22h.
— Aqui a gente vê de tudo: encontro de casal, criançada, evento de empresa. Fizemos um de médicos. As pessoas chegam e se divertem. Não é terapia, mas é terapêutico — resume a dona, que explica também que, a partir de 15 pessoas na mesa, o estabelecimento oferece um pacote, R$ 200 por pessoa e o brunch, com quitutes saindo a todo momento.
A penteadista Andréia Silva, de 29 anos, que foi a um encontro romântico no Tinta, conta que entrou apenas para comer algo doce e saiu encantada:
— É ideal para quem quer fazer um rolê sem pressa, algo como um chazinho da tarde. Você pode consumir, pode pintar cerâmicas. É um espaço muito interativo, bom para quebrar o gelo no primeiro encontro.
Ligação do Rio com São Paulo:
A locutora Mel Rodrigues, de 53 anos, participou da experiência a convite das filhas, Andrezza Melo, de 31, psicóloga, e Lizandra Laizza, de 22, publicitária. Juntas, elas pintaram pratos, bowls e um vaso. Entre pinceladas e risadas, Andrezza disse que a atividade foi além do lazer. “É terapêutico e uma ótima opção para fazer em família”, destacou a psicóloga. Mel adorou o resultado da própria obra.
— Achei sensacional. Escrevi até meu nome na minha peça. Agora todo mundo vai saber que é minha e que fui eu que pintei — brincou a locutora.
A arte também vai bem com uma taça de vinho. Bel Lessa, de 26 anos, formada em Letras, começou a pintar na pandemia, segundo ela, para “tratar as angústias da vida”. O que começou como um processo pessoal virou profissão. Em 2023, abriu o CapiChic, que fica no Arte Gávea, na Rua Marquês de São Vicente, com foco na confecção de peças de cerâmica. O que ela não previa era a transformação das aulas em encontros festivos.
— Recebi a proposta de um aniversário na oficina com aula de cerâmica. A aniversariante quis levar taças de vinho para umas seis pessoas e algumas comidinhas. Quando eu vi, já estava conversando e fazendo parte da festa também. Foi algo incrível, até eu me envolvi — conta Bel.
Megaoperação com 122 mortos:
‘Tempo próprio’
A experiência se multiplicou. Hoje, Bel reserva datas específicas para oficinas que combinam a modelagem de cerâmica e vinho. Para ela, o sucesso revela um traço do comportamento do carioca.
— Percebi que as pessoas estavam gostando dessa proposta. Logo depois vieram outros pedidos. A demanda é por um programa diferente aqui no Rio. No caso da cerâmica, por mais que não seja terapia ocupacional, acaba sendo relaxante.
As oficinas custam R$ 250 por pessoa e incluem aula, material e selagem da peça, que fica pronta cerca de 30 dias depois. O vinho é levado pelos próprios alunos, mas a artista já busca parcerias para incluí-lo no pacote. Em janeiro, a procura foi tão alta que houve oficinas em todos os fins de semana.
— As pessoas, entre uma conversa e outra, uma taça de vinho e outra, acabam entendendo melhor o tempo das coisas. A cerâmica tem um tempo próprio. Sempre faço uma analogia nas aulas: quando abrimos a massa, ela racha um pouco, e precisamos molhar, abrir de novo, com cuidado e paciência. É como tratamos nossos problemas, nossas feridas. Com tempo, permanência e delicadeza. Algo raro nos dias de hoje — conclui Bel.
Mais lidas
-
1ALARME FALSO
'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em várias cidades
-
2INFRAESTRUTURA
Governo inaugura duplicação da AL-110 entre Arapiraca e São Sebastião
-
3EVENTO
Arapiraca sediará evento internacional que reúne pesquisadores do Brasil e do exterior
-
4ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
5EDUCAÇÃO
Filho de Luciano Huck e Angélica relata principal dificuldade na preparação para o vestibular