RJ em Foco
Estudo aponta 15 projetos prioritários de mobilidade para a Região Metropolitana do Rio, que somam R$ 68 bilhões; conheça
Soluções aumentam rede de média e alta capacidade de 500 para quase 700 quilômetros
Que tal embarcar no metrô na Gávea, na Zona Sul, atravessar o Maciço da Tijuca e chegar à estação Uruguai (Linha 1), na Tijuca, prosseguindo até Del Castilho (Linha 2), na Zona Norte? E, quem sabe, poder seguir no BRT Transbrasil, de Deodoro, na Zona Oeste, rumo a Santa Cruz, o bairro mais distante do Rio? Já para facilitar deslocamentos na Zona Sul, a proposta é ter um VLT circulando por Botafogo, Gávea e Leblon. Uma promessa de décadas é a ligação metroviária entre Estácio e Praça Quinze — ponto de partida da idealizada Linha 3, que passaria sob a Baía de Guanabara em direção a Niterói e São Gonçalo. Quanto aos trens, a ideia é contar com um sistema totalmente requalificado.
Tudo isso e muito mais consta do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), feito pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, que mapeou 15 projetos prioritários para o Rio de Janeiro, entre 187 de 21 Regiões Metropolitanas do país. Com um investimento estimado de R$ 68,4 bilhões, se os 15 projetos forem executados em 23 anos, está previsto o aumento da rede de transporte de alta e média capacidade (metrô, VLT e BRT) de cerca de 500 para quase 700 quilômetros e ampliar o número de passageiros de 1,6 milhão para 5,9 milhões por dia útil.
O nó no trânsito da Zona Sul e do Centro do Rio, na manhã da última quinta-feira — depois que um caminhão tombou em Botafogo e os trens da Linha 1 do metrô (Ipanema-Tijuca) estavam com intervalos irregulares por causa de problemas na sinalização — são um sinal de que há muito o que mudar para facilitar os deslocamentos por transporte público. A diarista e cuidadora de idosos Elza Dias Alves, de 59 anos, saiu de casa no Pantanal, em Caxias, às 6h20 da manhã, e só conseguiu chegar no trabalho, em Copacabana, às 10h.
— Em Gramacho, perdi um trem, e o seguinte demorou 25 minutos. Estava lotado, e viajei em pé. Saltei na Central e encontrei uma multidão na escada rolante e na plataforma. Depois de muito esperar, fui jogada para dentro de um vagão do metrô para Botafogo. Em Botafogo, fui jogada para fora e tive que esperar bastante para conseguir pegar o metrô para Copacabana — conta ela. — Mas, mesmo em dias sem acidentes, tenho viajado em trem e metrô muito mais cheios do que há tempos atrás.
Igreja Luciferiana:
Projetos detalhados
Do sonho para a realidade, dois dos projetos considerados prioritários pelo BNDES — a transformação dos BRTs Transcarioca e Transoeste em VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) ou VLP (Veículo Leve sobre Pneus — estão sendo detalhados pelo banco, contratado pela Prefeitura do Rio.
— No início de 2027, entregaremos os estudos de viabilidade desses projetos. Poderemos propor uma concessão (intervenções pagas pela tarifa) ou uma Parceria Público-Privada (com parte das obras e veículos pagos pelo setor público). Caberá à prefeitura decidir se fará a licitação — explica Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES.
Uma terceira proposta também começa a andar. A licitação para elaborar o projeto do prologamento do BRT Transbrasil, de Deodoro a Santa Cruz, foi licitado, informa a Secretaria municipal de Infraestrutura do Rio. Para iniciar o seu desenvolvimento, a pasta diz que aguarda a conclusão de “trâmites administrativos, junto ao governo federal. Por sua vez, o corredor Campo Grande - Margarça encontra-se em fase inicial de estudos.
Segundo Nelson Barbosa, os 15 projetos não precisam ser executados ao mesmo tempo, devendo seguir a ordem de prioridade do governo estadual e da Prefeitura do Rio. Os recursos para obras e veículos, acrescenta, poderão ser públicos — inclusive da União — e privados.
Metrô: cinco projetos
Da lista, cinco são propostas de metrô, incluindo a idealizada Linha 6, que começa no terminal Alvorada (Barra), segue por Jacarepaguá e vai até o Cocotá, na Ilha do Governador, com parte do percurso já coberto pela Transcarioca. Outro prevê uma ligação metroviária entre o Centro e Deodoro, por onde passa um ramal ferroviário.
Quanto ao bonde elétrico, há cinco projetos. O plano propõe a implantação do serviço, por exemplo, em Niterói e em São Cristóvão. O trajeto do VLT da Zona Sul ainda será detalhado, mas a previsão é que haja paradas próximas à Praça Antero de Quental, à Cobal do Leblon, à PUC, ao Hospital da Lagoa, ao Colégio Pedro II e ao longo de ruas como Voluntários da Pátria e São Clemente.
Há ainda uma proposta para a requalificação dos 270 quilômetros de ferrovias e quatro voltadas para o BRT. Entre elas, a criação de novos corredores — todos elétricos —, como o da Baixada Fluminense (Transbaixada) e o do Jardim Oceânico (Barra) até Freguesia e Taquara (Jacarepaguá).
Segundo Marcos Daniel Souza dos Santos, secretário nacional de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, a lista do ENMU foi selecionada levando em consideração a demanda de passageiros, e benefícios como a redução de emissão de gases e de acidentes:
— Os benefícios são tão grandes que justificam investimentos de R$ 68 milhões. Há uma série de vantagens que fundamentam tirar ônibus comum e carros das ruas. As obras de engenharia não são fáceis de executar, mas são possíveis. Temos engenharia e conhecimento no país para enfrentar os desafios dessas obras.
Febre de estúdios:
Para Glaydston Ribeiro, professor do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, numa região metropolitana como a do Rio, metrô e trem urbanos devem ser tratados como espinha dorsal do sistema de transportes:
— São os modos capazes de transportar grandes volumes de passageiros com regularidade, velocidade e menor ocupação de espaço viário. Isso é fundamental para reduzir tempos de deslocamento, ampliar o acesso da população a emprego, serviços, educação e saúde, e diminuir a dependência do transporte individual e de soluções mais fragmentadas.
Ao analisar a lista do Rio, o diretor da FGV Projetos, Marcus Quintella, destaca como as propostas mais urgentes a requalificação do sistema ferroviário, além a construção do trecho da Linha 2 entre Estácio e Praça Quinze e da Linha 3 até São Gonçalo:
— Esses dois projetos do metrô têm que estar interligados.
Quintella, no entanto, discorda da implantação do VLT da Zona Sul:
— Seriam criados gravíssimos problemas durante a construção desse VLT. Seriam paralisados dois corredores, São Clemente/Mena Barreto e Voluntários da Pátria, criando um impacto de vizinhança muito pesado.
Motos:
Também para Ricardo Lafaiette, diretor da Associação Fluminense de Preservação Ferroviária, as prioridades deveriam ser os projetos voltados para os trens, a conclusão da Linha 2 e a implantação da Linha 3. Ele considera ainda importante a criação do VLT de São Cristóvão.
— O metrô Alvorada-Cocotá tem um traçado parecido ao do Transcarioca. Não acho que seja fundamental implementar. Não priorizaria ainda levar o metrô da Gávea a Del Castilho. Transformar o ramal de trens de Deodoro em metrô de superfície é uma boa ideia, mas cara. Esse ramal é o que está em melhores condições, que recebe os trens mais novos — opina.
A Secretaria estadual Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) informa que, entre as expansões metroviárias prioritárias estudadas pelo órgão, estão a complementação de Linha 2 e a criação da Linha 3. Esta última tem disponíveis R$ 20 milhões do Ministério das Cidades, para a contratação de projeto. A pasta espera ainda que a chegada de um novo operador dos trens urbanos marque uma nova fase no sistema ferroviário.
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