RJ em Foco
Especialistas cobram que Rio deixe de ignorar a Cultura como um de seus maiores ativos
Debate fez parte da última roda de conversas do RioAgora.org, que vai entregar propostas aos candidatos das próximas eleições
Apesar de o Rio de Janeiro possuir um dos maiores patrimônios culturais do país, a cultura continua sendo tratada como uma política pública secundária no estado, na visão de especialistas que participaram do último debate temático do RioAgora.org. O encontro, realizado neste sábado, reuniu gestores públicos, produtores culturais, pesquisadores e economistas para formular propostas concretas externas ao próximo ciclo de governo estadual. O caderno de proposições, com sugestões para o desenvolvimento do Rio, será entregue aos candidatos nas próximas eleições.
Seropédica:
Acidente fatal em Botafogo:
A ex-secretária de Estado de Cultura Adriana Rattes explica que, na sua visão, o problema do setor no Rio não é a ausência de ideias, e sim a ausência de prioridade política. Ela lembrou que o Estado já produziu planos, estudos e diagnósticos mais do que suficientes para orientar políticas públicas robustas — mas essas iniciativas sobreviveram às trocas de governo. Um dos exemplos que ela usou foi o Plano Estadual de Cultura, transformado em lei em 2015 após amplo processo de participação social. Adriana defendeu que o próximo governo assuma a cultura como prioridade explícita, com recursos permanentes para fortalecer o setor, ampliar a infraestrutura, preservar o patrimônio histórico e integrar as políticas de cultura, educação, turismo, ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico.
— O Estado precisa assumir a vanguarda dessa discussão. Primeiro vem a decisão política. Depois vêm os recursos. Temos patrimônio, universidades, profissionais especializados e uma potência criativa reconhecida internacionalmente. Falta transformar isso em projeto de Estado — disse ela.
Para Ricardo Piquet, diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), o maior obstáculo da cultura é político. Ele conta que o setor já gera riqueza, movimenta cadeias produtivas e emprega milhares de pessoas no estado — mas até agora não conseguiu traduzir esse peso econômico em força orçamentária. Ele propõe a criação de centros de referência cultural em todos os municípios fluminenses — espaços permanentes dedicados à preservação da memória e da identidade local, como forma de enraizar o valor do patrimônio junto à sociedade e, consequentemente, ao poder público.
— A cultura faz barulho, mobiliza multidões, mas esse movimento não chega ao orçamento. Nós conversamos de cultura para quem já é da cultura. Precisamos convencer quem decide o orçamento — disse Piquet.
Oruam:
Compositor e produtor cultural, Marquinhos de Oswaldo Cruz levou ao debate uma perspectiva que a gestão pública muitas vezes ignora: a de quem constrói cultura a partir de dois territórios. Criador do Trem do Samba e da Feira das Yabás, ele mostrou como iniciativas nascidas da periferia podem gerar desenvolvimento econômico real — desde que haja suporte institucional. Segundo Marquinhos, cada real investido no Trem do Samba gera aproximadamente R$ 1,70 em retorno tributário, além de movimentar milhares de empregos temporários e atividades econômicas nos bairros do entorno.
A coordenadora da área de Cultura do Instituto Futuros, Luciana Adão, ampliou o debate para o plano estrutural: a legislação, os mecanismos de financiamento e a estrutura institucional do setor cultural no Brasil ainda estão em descompasso com a realidade da economia criativa contemporânea. Ela destacou, por exemplo, que a economia da cultura já representa parcela significativa do PIB brasileiro, com peso ainda maior no Estado e no município do Rio de Janeiro, mas que a reforma tributária em curso no país exigiu soluções novas para garantir o fluxo permanente de recursos ao setor.
Entre as propostas que Luciana defendeu estão a criação de fundos permanentes protegidos por lei, programas de formação para gestores culturais e iniciativas de fortalecimento para os empreendedores da economia criativa.
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