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Propag: policiais e peritos indicam onde contrapartida do Estado deve ser aplicada

Investimentos em inteligência, perícia técnica, condições de trabalho e equipamentos estão entre as prioridades apontadas para a segurança pública

Agência O Globo - 25/06/2026
Propag: policiais e peritos indicam onde contrapartida do Estado deve ser aplicada
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A possibilidade de o governo do Estado ampliar investimentos a partir da adesão do Rio ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) reacende o debate sobre uma das áreas mais estratégicas da administração pública: a segurança. Policiais, peritos e especialistas ouvidos apontam como prioridades o fortalecimento das ações de inteligência, a modernização da perícia técnica, a melhoria das condições de trabalho dos agentes e a ampliação da estrutura das forças policiais.

O Propag determina que os estados participantes invistam, como contrapartida, um percentual do saldo devedor em áreas específicas da administração. No caso do Rio, o valor previsto para 2026 e 2027 é de R$ 3,1 bilhões. Desse total, 60% devem ser destinados à educação profissional técnica de nível médio. Os 40% restantes, equivalentes a R$ 1,24 bilhão, poderão ser aplicados em outras áreas da educação, infraestrutura e segurança pública. A Secretaria estadual de Fazenda ainda trabalha na formatação do plano de investimentos do governo.

Foco nas provas

A perícia técnica é uma das áreas com maior número de reivindicações. Os problemas apontados incluem escassez de viaturas, computadores defasados, estrutura física precária e descentralizada, falta de equipamentos e quadro reduzido de servidores. Das viaturas disponíveis na Secretaria de Polícia Civil, por exemplo, apenas 6,7% estão lotadas na Subsecretaria de Polícia Técnico-Científica.

— A população reclama que a gente demora a atender; imagina se a viatura quebrar. Eu já atrasei vários atendimentos porque precisei trocar pneu. Toda semana uma estraga, são velhas — afirma Filipe Guimarães Teixeira, presidente da Associação dos Peritos do Estado do Rio de Janeiro (Aperj).

Um dos investimentos considerados mais estratégicos seria tirar do papel o projeto de construção de um complexo integrado para reunir os principais órgãos da perícia do Estado. A proposta prevê a concentração do Instituto Médico-Legal (IML), do Instituto de Identificação Félix Pacheco, do Instituto de Pesquisa e Perícia em Genética Forense (IPPGF) e do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), o que permitiria maior integração entre equipes, otimização de recursos e mais agilidade na produção de laudos.

O complexo também daria uma sede definitiva ao principal laboratório de DNA do Estado, o IPPGF, que funciona há mais de dez anos em instalações improvisadas nos fundos da Academia de Polícia Civil (Acadepol).

— Seria algo novo, um investimento alto, mais voltado para o médio prazo. Essa integração faria as perícias acontecerem de forma mais rápida e reduziria custos de transporte de materiais e servidores — avalia Teixeira.

Outro problema apontado é a falta de equipamentos para análises especializadas. Um deles é o microscópio eletrônico de varredura (MEV), utilizado para examinar resíduos de disparo de arma de fogo que ficam nas mãos do atirador ou no corpo da vítima. Segundo um perito ouvido sob condição de anonimato, a Polícia Civil do Rio utilizava um equipamento emprestado pelo Inmetro, que apresentou defeito há mais de um ano. A mesma fonte informou que já existe um processo para compra de um novo MEV, estimado em cerca de R$ 3 milhões, mas que o ideal seria ter pelo menos dois em funcionamento.

Levantamento do Instituto Sou da Paz, divulgado no ano passado, apontou que, no Rio de Janeiro, apenas um em cada quatro assassinatos é esclarecido. O Estado registrou índice de esclarecimento de 25%, considerado de baixo desempenho pela pesquisa Onde Mora a Impunidade.

Análise de projéteis

Peritos também defendem a compra de um microcomparador balístico, equipamento usado para confrontar projéteis e estojos de munição encontrados em cenas de crime com materiais obtidos a partir de uma arma suspeita. Outra demanda é a aquisição de uma câmara de recuperação de projéteis, estrutura utilizada para disparos controlados e coleta de projéteis intactos. Atualmente, profissionais do ICCE utilizam uma solução improvisada: um cilindro cheio de algodão.

Os peritos afirmam ainda que é necessário informatizar e agilizar a análise dos locais de crime. Hoje, as imagens são registradas pelos próprios celulares dos profissionais e, depois, inseridas manualmente em documentos produzidos em computadores que, muitas vezes, não têm capacidade adequada para o tratamento das fotografias.

Agentes da Polícia Civil ouvidos indicam que uma das primeiras medidas deveria ser o reforço das ferramentas utilizadas pela área de inteligência da corporação. Além da capacitação para formar programadores e analistas, os policiais destacam a falta de sistemas já disponíveis no mercado que poderiam tornar as operações mais precisas e eficientes.

— Já existe no mercado uma ferramenta de inteligência que permite localizar alvos a partir de dados de celulares. Atualmente, tentamos fazer isso com outras tecnologias, mas de forma limitada. Com esse sistema, teríamos muito mais precisão — relata um agente que pediu para não ser identificado. Segundo ele, o equipamento custa cerca de R$ 6 milhões.

Um policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), também sob anonimato, afirma que a Polícia Militar precisa de investimentos em tecnologia para qualificar as operações. Além da compra de blindados e armamentos, os agentes defendem a aquisição de ferramentas capazes de tornar as incursões em áreas dominadas pelo crime organizado mais seguras e eficientes.

Em um cenário em que traficantes utilizam drones para monitorar a movimentação das forças de segurança, a compra de um equipamento conhecido como Sentinel é considerada urgente.

— O Sentinel é um sistema de detecção de drones extremamente preciso. Com ele, conseguiríamos identificar, dentro de determinado perímetro, tanto a localização do drone quanto a do operador. Isso ajudaria a combater a estratégia dos criminosos de acompanhar nossas ações e reagir de forma violenta. Além disso, precisamos investir em bloqueadores de sinal, porque já é de conhecimento geral que os bandidos utilizam drones até para lançar granadas. Precisamos estar preparados para enfrentar esse tipo de ameaça durante as operações — afirma.

Não basta comprar

Para o antropólogo e pesquisador Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado-Maior da PM do Rio, a prioridade na segurança pública deve ser a qualificação da gestão.

— O recurso é limitado e valioso. Se o Estado começar a comprar equipamentos sem planejamento, corre o risco de repetir erros do passado. Antes de pensar em compras ou em novas operações, é preciso qualificar a gestão. O Estado do Rio é apontado por estudos como um dos menos eficientes no gasto com segurança. Considerando a complexidade da situação fluminense, isso torna ainda mais necessária uma aplicação eficiente dos recursos. O gestor precisa ser capaz de agir de forma cirúrgica e estratégica — avalia Rodrigues.