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Dona Marta é estratégico para o Comando Vermelho e concentra alta venda de drogas

Durante operação policial, tiros atingiram carros, residências e a fachada de uma igreja Metodista na Rua São Clemente, em Botafogo

Agência O Globo - 24/06/2026
Dona Marta é estratégico para o Comando Vermelho e concentra alta venda de drogas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Antes do sol nascer, o silêncio da madrugada foi interrompido por um tiroteio intenso ouvido em diferentes pontos da Zona Sul do Rio de Janeiro. Deflagrada nesta terça-feira no Morro Dona Marta, em Botafogo, uma operação da Polícia Civil contra a facção criminosa Comando Vermelho (CV) transformou a comunidade e o ambiente em cenário de guerra.

Logo na subida da favela, a partir da Rua São Clemente, agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) enfrentam forte resistência. Segundo a polícia, o confronto durou cerca de 20 minutos.

Por volta das 5h30, moradores de bairros vizinhos, como Humaitá, Laranjeiras e Copacabana, relatando nas redes sociais filhos de tiros e explosões de granadas. Em Botafogo, bairro conhecido pela grande concentração de instituições de ensino, alunos e responsáveis ​​tentavam saber se teriam aula pela manhã — e se seria possível chegar às escolas com segurança.

Baleado a caminho do trabalho

No morro e no asfalto, quem poderia guardar um momento mais seguro para sair de casa. Paulo Márcio do Nascimento, de 41 anos, não teve tempo. Morador da Lapa, ele seguiu para o restaurante onde trabalha, na Lagoa, quando foi atingido por uma bala perdida dentro de um ônibus da linha 410, no momento em que o coletivo passava em frente ao acesso à Dona Marta. O tiro atravessou sua perna direita.

— A gente vinha normal. Passamos por várias viaturas e, quando chegamos em frente ao morro, começou o tiroteio. Foi muito rápido. Todo mundo começou a gritar para abaixar. Eu também me abaixei, mas, mesmo assim, fui atingido — contorno Paulo, que foi atendido no Hospital Municipal Miguel Couto e recebeu alta no mesmo dia.

O confronto entre policiais e criminosos ultrapassou os limites da comunidade. Tiros atingiram carros, residências e a fachada de uma igreja Metodista, na Rua São Clemente, em frente à entrada da favela.

No segundo andar de um dos imóveis alvejados, uma bala atravessou o vidro da janela de um quarto usado pelos três netos de um aposentado de 79 anos. O quarto, chamado pela família de “quarto da bagunça”, reúne brinquedos, roupas, desenhos e lembranças das crianças. Ao lado de um quadro pintado por um dos netos, o projeto abriu um buraco na parede.

— A maior parte dos objetos é dos meus netos. Tem brinquedos, roupas, quadros. Também tem um guarda-roupa da minha esposa. Se fosse no fim da semana, eles estariam aqui — a data do morador.

No apartamento vizinho, uma moradora de 74 anos viveu situação semelhante. Uma bala atingiu a janela do quarto dos hóspedes, onde ela costumava dormir. O projeto perfurou o vidro e forneceu estiletes pela cama e pelo chão.

— Faz 20 anos que não tinha esse problema. Eu me mudei recentemente para o Rio de novo. Estava morando no Vale do Cuiabá, em Petrópolis, na Região Serrana, mas voltei por causa do nascimento do meu neto. Meu Deus, lá eu acordei com passarinho. Aqui acordamos assim, com barulho de bomba e tiro — lamentou.

Escolas suspendem aulas e turistas ficam ilhados

O Colégio Santo Inácio e a Escola Sá Pereira, em Botafogo, orientaram, por meio de comunicados, que os estudantes não fossem às aulas. Já o Colégio Cruzeiro, também no bairro, e o Andrews, no Humaitá, mantiveram o funcionamento.

No topo do morro, fora da favela, o Mirante Dona Marta, ponto turístico bastante visitado na cidade, estava ocupado por um grupo de turistas que aguardava o nascer do sol. Com a troca de tiros, os visitantes ficaram impedidos de deixar o local durante parte da manhã.

Na comunidade, a equipe do GLOBO entrou no imóvel de uma aposentada e encontrou cômodos completamente revirados. Após a ação policial, objetos foram encontrados fora do lugar na cozinha, no banheiro e nos quartos. Abalada, a moradora afirmou que a família passou horas sob tensão.

Ao RJ2, a Polícia Civil informou que “todos os 98 imóveis acessados ​​pelas equipes que atuaram na operação eram alvos de mandatos de busca e apreensão expedidos pelo Poder Judiciário”.

operação mirou 44s

A operação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes teve como alvo 44 suspeitos investigados por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Segundo a Polícia Civil, a forte ocorrência dos fracassos indica a importância estratégica do Dona Marta para o Comando Vermelho.

Foram cumpridos mandatos de prisão contra seis suspeitos. O delegado Paulo Saback, da DRE, afirmou que o confronto provocado pelos criminosos tinha o objetivo de atrasar a entrada dos agentes na comunidade e permitir a fuga de chefes do tráfico.

— Nossas equipes ficaram cercadas por cerca de 20 minutos tentando acessar o início da comunidade. Não foi possível avançar graças à ação bélica por parte desses narcoterroristas, que atuam sem nenhum compromisso. Atiram em populares, em transeuntes e em transporte público que passa na região — disse o delegado.

Placas que proíbem fotos em pontos de venda

De acordo com o delegado, a favela tem importância econômica para a facção por ser um reduto de alta comercialização de entorpecentes. Traficantes espalharam avisos orientando os visitantes a não registrar imagens das bocas de fumo locais. Na comunidade, é possível encontrar placas com mensagens como “Telefone no bolso” e “É proibido o uso de celular”, algumas também escritas em inglês.

Uma placa com a inscrição “No photos” — “Sem fotos”, em inglês — estava ao lado de um mural que anunciava promoções de diferentes tipos de maconha. O ICE, forma equipamento da droga, era vendido por R$ 65 a grama, com compra mínima de três gramas. O skank custa R$ 10 o grama, com aquisição mínima de dez gramas. Já o PAC, espécie de haxixe paquistanês extraída da planta da maconha, era comercializada por R$ 75 a grama.

Maior poder bélico

Francisco Rafael Dias da Silva, conhecido como Mexicano, um dos principais alvos da operação no Dona Marta, teria conseguido escapar do cerco policial fugindo em direção a uma área de mata. Segundo o delegado Paulo Saback, Mexicano foi responsável por ampliar o poder bélico da facção na comunidade.

De acordo com as investigações, o grupo passou de três ou quatro fuzis, registrado há alguns anos, para pelo menos 30 armas desse tipo contabilizadas pelos investigadores.

Quem é Ronaldinho Tabajara

As investigações, iniciadas há 22 meses, apontam que Mexicano atua sob as ordens de Ronaldo Pinto Lima e Silva, conhecido como Ronaldinho Tabajara ou R9. Ele está preso em Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Mesmo custodiado em uma unidade federal desde 2016, a Polícia Civil afirma que Ronaldinho Tabajara continua exercendo influência sobre a facção e repassando ordens a membros do grupo criminoso. A operação desta terça-feira contou com a participação de cerca de 500 policiais.