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Demolição do 'resort' do Peixão: veja a cronologia da interferência política que adiou a operação por mais de um ano
Em razão do vazamento de informações, a operação, que ocorreria em dezembro de 2023, foi cancelada. A ação só foi concretizada cerca de um ano e dois meses depois
A demolição do “resort” de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), ocorreu em março do ano passado. No entanto, a operação que colocou abaixo o símbolo dos luxos desfrutados por um dos crimes mais procurados do estado deveria ter acontecido cerca de um ano e dois meses antes. A ação prevista para dezembro de 2023 foi cancelada em razão de interferências políticas. Nesta quinta-feira, o Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrou uma operação de busca e apreensão contra os suspeitos de articular esse cancelamento. O deputado estadual Val Ceasa (PRD), o ex-vereador Ulisses Marins e um ex-assessor foram alvos da ação. Entenda como foi a cronologia do caso.
Flagrante:
terrenos interceptados:
29 de novembro de 2023 — A primeira reunião sobre os imóveis de Peixão aconteceu na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro. O encontro teve como objetivo planejar e planejar a demolição de construções ilegais erguidas na localidade de Parada de Lucas e identificadas pelos órgãos envolvidos. Participaram representantes do MPRJ e servidores da prefeitura. Durante a reunião, eles discutiram um relatório elaborado pela Polícia Militar que apontava a utilização de imóveis por membros da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP).
Val Ceasa:
6 de dezembro de 2023 — No dia 6, foi realizada uma nova reunião, desta vez com a participação de membros da Polícia Militar. Foi nesse encontro que ficou homologado a parceria da PM para prestar apoio operacional às equipes responsáveis pela demolição. Na ocasião, também ficou acordado que a operação aconteceu no dia 14 de dezembro.
11 de dezembro de 2023 — De acordo com o MPRJ, foi nesse dia que o deputado estadual Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins foram ao 16º BPM (Olaria) para solicitar ao comandante do batalhão informações sobre a ação, que até então era sigilosa. Em depoimento, o comandante afirmou que Val Ceasa defendeu a manutenção do local, alegando que ele era utilizado para “ações sociais”, e que teria sido informado sobre a operação por membros da associação de moradores.
Naquele mesmo dia, uma promotora de Justiça foi designada para o então secretário municipal de Ordem Pública, Brenno Carnevale, e informou que a operação não poderia ser executada nos dados previstos porque havia sido vazada. Segundo o relato, parlamentares procuraram o comando da PM para afirmar que os imóveis eram usados para a realização de atividades de assistência a idosos e crianças.
Monte de operação, câmera espiã e saída para fugas:
12 de dezembro de 2023 — Em depoimento ao MPRJ, Brenno Carnevale afirmou que, um dia após o cancelamento da operação, foi procurado pelo ex-vereador Ulisses Marins para tratar do assunto. De acordo com ele, Marins defendeu a manutenção do espaço, alegando que todos funcionariam em projetos sociais. Em seu depoimento, Carnevale também afirmou que Marins relatou que o deputado estadual Val Ceasa havia procurado o comandante do 16º BPM para questioná-lo sobre a operação prevista para Parada de Lucas.
15 de dezembro de 2023 — A Polícia Militar realizou uma nova operação na região do Complexo de Israel e constatou diversas mudanças nos imóveis que já haviam sido mapeados. Os agentes encontraram faixas instaladas fazendo alusão a projetos sociais que, segundo o Ministério Público, nunca foram identificados no local.
De acordo com o órgão, as alterações tinham como objetivo “disfarçar” a utilização do espaço por membros do Terceiro Comando Puro (TCP). Além da instalação de uma faixa fazendo referência a supostas atividades sociais, uma academia de ginástica foi desmontada e uma pintura alusiva à facção criminosa foi desligada.
Novas tratativas
Os órgãos envolvidos só retomaram as tratativas para a demolição do imóvel em 16 de outubro de 2024, em uma nova reunião entre o MPRJ e a prefeitura do Rio. A operação, que contaria com o apoio da PM, foi agendada para 29 de outubro. Entretanto, na semana anterior, uma ação policial na região terminou com três pessoas mortas por balas perdidas. Na época, as forças de segurança declararam que encontraram uma resistência acima do esperado. Por conta disso, a operação foi novamente cancelada. Após os dois cancelamentos, a demolição do resort foi concretizada
Operação por conexão com o TCP
O deputado estadual Val Ceasa, um ex-assessor e o ex-vereador Ulisses Marins foram alvos de uma operação do Ministério Público do Rio de Janeiro nesta quinta-feira. Em endereços reunidos ao parlamentar, foram apreendidos aproximadamente R$ 320 mil em dinheiro em espécie, segundo a Polícia Civil. Além disso, os agentes instalaram os celulares dos três alvos da ação. O ex-assessor e a companheira também foram presos em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
Nas vísceras da Alerj:
A investigação do caso foi aberta pela Procuradoria-Geral de Justiça depois de surgirem acusados de que parlamentares foram procurados pela Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa que previa a demolição de imóveis ligados ao TCP na Parada de Lucas.
No documento em que pedia a busca e apreensão dos alvos da operação desta quinta-feira, o procurador-geral de Justiça Antonio José Campos Moreira afirmou que, assim como o caso do então deputado TH Joias revelou uma infiltração da facção criminosa Comando Vermelho na Alerj, uma investigação sobre Val Ceasa e Ulisses Marins está a “desvendar” que o Terceiro Comando Puro também “se entrou nas vísceras da Casa Legislativa”.
Em nota, a Alerj afirma que “acompanha a operação” realizada pelo MPRJ, reiterando que “atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense”. A Casa legislativa "reforça seu compromisso com a transparência e coloca-se à disposição para prestar toda a necessidade ao andamento das investigações".
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