RJ em Foco

Vivi para contar: 'Subir virou uma promessa', conta alpinista que resgatou o corpo de Juliana Marins do vulcão da Indonésia há um ano

Socorrista voluntário indonésio Agam Rinjani relembra a noite pendurado em um penhasco de quase 600 metros no Monte Rinjani, na Indonésia, segurando o corpo da brasileira

Agência O Globo - 20/06/2026
Vivi para contar: 'Subir virou uma promessa', conta alpinista que resgatou o corpo de Juliana Marins do vulcão da Indonésia há um ano
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Agam Rinjani, montanhista e socorrista voluntário indonésio, passou a noite pendurado em um penhasco de quase 600 metros no Monte Rinjani, na Indonésia, segurando o corpo da brasileira Juliana Marins, de 26 anos, de Niterói. Para evitar que ela escorregue ainda mais após a queda durante uma trilha de boatos de chuva, ele arriscou a própria vida para garantir um enterro digno a brasileiro. Agam voltou a conversar com O GLOBO e relembrou uma noite de frio, neblina, pedras caindo e decisões extremas — além das marcas físicas e emocionais deixadas por uma missão que, segundo ele, mudou sua forma de enxergar risco, montanhismo e solidariedade. Confira o depoimento dele:

'Você poderia entrar pela porta agora e fazer a minha vida voltar a ser o que era há um ano':

Crime organizado:

"Toda vez que eu me lembrei daquela noite, eu sinto o frio de novo, e não era só o frio da montanha. Eu queria ter conseguido subir junto com o corpo dela. Isso me dói muito. Tenho muito arrependimento de não ter alcançado.

Quando penso na Juliana Marins, a primeira coisa que volta é o frio que eu senti e a escuridão. A neblina caiu de uma vez. A gente não consegue mais enxergar nada. Não tinha ponto de vista, não dava para ver mais longe. E as pedras caíram a cair em cima da gente. Eu e minha equipe ficamos muito machucados. Foi muito difícil. Até hoje eu não sei como consegui.

Nas vísceras da Alerj:

Assim que eu descobri que a Juliana tinha caído, fui direto para o Monte Rinjani, em Lombok. Mas aconteceu uma grande fake news na região dizendo que ela já tinha sido salva. Eu estava em Jacarta antes disso e, quando soube dessa informação, consegui que o resgate tinha terminado. Voltei. Um dia depois, descobri que era mentira. Era tudo falso. A Juliana ainda estava lá. Voltei correndo para o monte para começar os trabalhos de forma voluntária. Perdi esse tempo por causa da comunicação.

Quando vi o post sobre a Juliana nas redes sociais, não pensei duas vezes. Falei: “Eu consigo”. Liguei para meus amigos montanhistas e falei: “Vamos lá?”. Todos concordaram. Ninguém perguntou quem ia pagar, quem tinha autorização ou quanto tempo ia durar. A gente só foi.

Os donos do crime:

Eu conheço bem o Monte Rinjani. Trabalho há anos. Já vi muitas coisas acontecerem na montanha. Mas o caso da Juliana foi diferente de todos os outros. Foi o mais profundo. Ninguém nunca tinha chegado a um lugar como aquele antes. A gente nunca tinha feito um resgate daquela forma. Nunca.

Quando chegamos até ela, já sabíamos que Juliana estava morrida. Mesmo assim, o corpo dela estava ali, naquele penhasco. E ele não poderia descer mais. Se escorregasse, cairia mais 300 metros. Então estou com dúvidas. Uma noite inteira. A gente ficou ali, à beira do penhasco, sob chuva, neblina, queda de pedras. Não dormimos. Não vamos. Não fomos ao hospital.

As potências das rodas de samba serão debatidas em seminário que reunirá diferentes gerações de sambistas;

Machuquei a perna. Meus colegas também se feriram. Só consegui comer por volta de uma da manhã. Mas ninguém queria sair dali. A gente só falava entre nós que o corpo precisava subir. Que a Juliana precise ter um enterro digno. Aquilo virou uma promessa. Era como se a gente tivesse que cumprir aquilo, custasse o que custasse.

Foi ali que percebeu o risco real. Quando a neblina fechou tudo e as pedras caíram no cair. Foi ali que pensei que poderia morrer também. Mas naquele momento isso já não importava mais.

Thiago Gomide:

Depois do resgate, não consegui dormir. Fiquei muito triste. Até hoje existe um grupo nosso tentando entender exatamente o que aconteceu com a Juliana. A gente se preocupa muito com a verdade. A família sabia muito pouco do que estava acontecendo lá em cima. A comunicação falhou demais. Isso também foi feito.

Depois de tudo isso, passei a pensar muito sobre equipamentos, sobre preparação. Eu mesmo não pensei em como eu suportaria aquele penhasco. precise de equipamentos mais modernos. Isso ficou muito claro para mim. Como guia, eu vi vários erros no caso da Juliana. Não se é tão jeito. Falta equipamento, falta comunicação, falta gente que fala vários idiomas. O risco não é brincadeira.

Entenda a disputa territorial:

Hoje, se você me perguntar o que eu faço, eu digo: segurança. Esse é o meu trabalho. Tudo o que a gente faz precisa ser feito com segurança.

Agora, por exemplo, estou em Aceh Tamiang, na Indonésia. Em 2004, aqui teve um tsunami. Agora, de novo, a região foi destruída por enchentes e penetração. Mais de 900 pessoas morreram. Estou aqui há mais de oito dias ajudando moradores a limpar as casas, recuperar o que sobrou. Tentamos reativar hospitais, encontrar água potável, reconstruir infraestrutura, apoiar cozinhas comunitárias.

Atrás de mim (ele estava dentro do carro), tem roupa, comida e equipamento para açucar água e lama. O lugar está feito por lama. Parece uma zona de guerra. Falta tudo. Estou muito triste com o que estou vendendo.

Produtos anunciados em plataformas de venda:

Acabei virando uma representação de embaixador informal entre o povo indonésio e o governo. Reativei a torre de comunicação da região. Falei diretamente com um general do Exército da Indonésia para tentar movimentar ajuda. O assessor do presidente pediu para eu voltar à capital para ajudar na cooperativa, mas eu preciso terminar o trabalho aqui no centro de saúde antes. Eu não paro. Mas confesso que estou chocado. É preciso levar um pouco de uísque para não entrar em colapso e conseguir continuar ajudando.

Eu espero, de verdade, uma mudança severa no sistema. A Indonésia é um país onde desastres naturais acontecem com muita facilidade. A gente nunca está preparada. E isso é um erro grave. Se estivéssemos mais preparados, não seria tudo tão difícil quando acontecesse, como foi com Juliana.

Alto índice:

Sobre a família de Juliana Marins, eu não sei se seria bom encontrá-los. Se eles me vissem, talvez lembrassem da filha e chorassem. Não quero trazer mais lembranças. Estou com a dor deles. Eu tenho certeza de conhecê-los, mas acho que isso pode ajudar muito a eles.

Fui à COP-30, em Belém, e conheci muitos brasileiros. São muito calorosos, muito parecidos com os indonésios. O único problema é a língua. Se falassem mais inglês ou indonésio, a experiência seria ainda maior.

Às vezes fico confuso com os brasileiros entrando em contato comigo só para dizer “obrigado”. Eu não entendo de onde vem tanta gratidão. Eu fiz o que pude. Só isso. A luta não termina aqui. Estamos apenas começando".

Em entrevista à repórter Anna Bustamante*.

Fora da herança, pais de Oliver Tree falam após tragédia no RJ e recebem apoio nas redes:

Relembre o caso

Rinjani, na ilha de Lombok, na Indonésia. Juliana Marins caiu em uma ribanceira durante uma trilha rumo ao topo da montanha e passou quatro dias presa em uma encosta de difícil acesso, sem água, comida ou abrigo, enquanto aguardava o resgate. Neste período, ela teria sofrido, pelo menos, mais duas quedas depois da primeira. Um jovem não resistiu a condições extremas e à demora no socorro. Laudo preliminar divulgado pelas autoridades da Indonésia aponta que a causa da morte foi trauma no trecho alguns minutos após uma das quedas. O caso mobilizou equipes de resgate, voluntários e autoridades locais, além de gerar grande comoção no Brasil. O corpo da jovem foi retirado do penhasco por socorristas e montanhistas voluntários que participaram da operação. A seguir, veja a cronologia do caso e os detalhes da trajetória da jovem até o trágico desfecho:

Sexta-feira, 20 de junho

19h no Rio (6h de sábado na Indonésia) - Juliana Marins sofre a primeira queda durante trilha no Monte Rinjani. Ela é vista em um ponto a cerca de 300 metros abaixo da trilha. Três horas depois, turistas fazem imagens da brasileira com um drone. É possível ver que ela está viva e com movimentos.

23h40 no Rio (10h40 de sábado na Indonésia) - A Agência Nacional de Busca e Resgate (Basamar) do país asiático informa ter recebido alerta do acidente.

Sábado, 21 de junho

17h10 no Rio (4h10 de domingo na Indonésia) - Juliana é avistada, mas devido às condições climáticas não foi possível resgatá-la. A família chegou a ser informada de que os socorristas tinham realizado a juventude e levado comida e água para ela, mas essa informação foi desmentida.

Domingo, 22 de junho

Fim da manhã no Rio (noite na Indonésia) - familiares da publicitária informaram que as buscas pela brasileira foram oficialmente suspensas por conta de condições climáticas adversas do local.

Segunda-feira, 23 de junho

5h no Rio (16h na Indonésia) - Com uso de drone térmico as equipes buscam localizar Juliana, aparentemente deitada e imóvel, a uma distância entre 400 e 500 metros abaixo do ponto da queda. As buscas são interrompidas às dadas devido às condições climáticas.

Terça-feira, 24 de junho

6h no Rio (17h na Indonésia) - O Parque Nacional de Rinjani suspende o acesso de turistas às trilhas do monte para concentrar os esforços no resgate da brasileira.

8h no Rio (19h na Indonésia) - Juliana é encontrada pelos socorristas, sem vida, em um ponto 600 metros abaixo do local original da queda na trilha que leva ao cume dos meteoros.

11h no Rio (22h na Indonésia) - a família publica nota informando a morte de Juliana Marins.