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MPRJ aponta avanço do TCP sobre estruturas da Alerj; deputado e ex-vereador são presos

Operação prendeu o deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador Ulisses Marins, suspeitos de ligação com a facção criminosa

Agência O Globo - 19/06/2026
MPRJ aponta avanço do TCP sobre estruturas da Alerj; deputado e ex-vereador são presos
MPRJ

Uma operação deflagrada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) contra o deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador Ulisses Marins voltou a colocar a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) no centro de um escândalo sobre a influência de facções criminosas em estruturas do poder público. Depois das prisões do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e do deputado estadual TH Jóias, sob suspeita de ligação com o Comando Vermelho, as investigações apontam agora possíveis vínculos de políticos com o Terceiro Comando Puro (TCP).

“Resort” do tráfico

Os donos do crime

De acordo com o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, o inquérito “está a desvendar” que o TCP também se “entranhou nas vísceras da Casa Legislativa”. Outros dois casos ampliam o desgaste do parlamento estadual neste mandato: o deputado Thiago Rangel (Avante) foi preso em maio pela Polícia Federal, acusado de chefiar um esquema de fraudes em licitações; e a deputada Lucinha (PSD) é ré por suposto envolvimento com milícia.

Val Ceasa e Ulisses Marins são apontados como articuladores de ações para impedir a demolição do chamado “resort” do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, um dos principais chefes do TCP. O imóvel, em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, foi demolido em março de 2025. Segundo as investigações, porém, a estrutura poderia ter sido derrubada cerca de 15 meses antes, não fossem interferências políticas e o vazamento de informações sigilosas para a quadrilha.

Ex-assessor tinha armas

Na operação, os agentes apreenderam celulares, documentos e outros equipamentos em endereços ligados aos políticos e a Michael Johnny Vianna de Azevedo, ex-assessor parlamentar que também foi alvo da ação. Ele acabou preso em flagrante, junto com a companheira, Suelen Silva dos Reis, conhecida como Suelen Bacana, por posse ilegal de arma de fogo. Nos imóveis do deputado, a Polícia Civil apreendeu aproximadamente R$ 320 mil em espécie. Os agentes também vasculharam o gabinete de Val Ceasa na Alerj.

Nunca preso

Segundo o MPRJ, Val Ceasa e Marins foram ao 16º BPM, em Olaria, em 11 de dezembro de 2023, para pedir ao comandante do batalhão informações sobre a ação que tinha como alvo o “resort” de Peixão — uma área de lazer onde traficantes desfrutavam de um lago artificial com peixes, cercado por coqueiros e bangalô. O oficial teria afirmado que não tinha como informar se haveria operação. À época, as tratativas para a destruição do imóvel ocorriam em reuniões a portas fechadas entre a Polícia Militar, a Prefeitura do Rio e o MPRJ. A primeira reunião foi realizada em 29 de novembro de 2023, e a derrubada estava marcada para 14 de dezembro.

A Prefeitura do Rio também foi procurada pelos dois políticos em busca de informações sobre a demolição. Atual comandante da Força Municipal, Brenno Carnevale era secretário municipal de Ordem Pública (Seop) à época e relatou ao Ministério Público que Val Ceasa demonstrou interesse em saber se havia alguma ação prevista para a região, mas afirmou que nenhuma informação operacional ou detalhe do planejamento foi repassado. Marins também teria procurado Carnevale para saber o que ocorreria no local.

Em outubro de 2024, uma operação policial chegou ao “resort” de Peixão. No muro, havia uma faixa com a inscrição: “Projeto Social da Criança ao Idoso – Realização Val Ceasa, Ulisses Marins e Dani Cunha”. Segundo o Ministério Público, em diversas operações policiais, nunca foi constatada qualquer ação social no local. A Secretaria Municipal de Assistência Social informou não haver cadastro dos projetos mencionados nas faixas. O “resort” só foi demolido em março deste ano. A deputada federal Dani Cunha disse às autoridades que seu nome foi usado sem autorização.

Áudio de chefe do tráfico

Em outro episódio detalhado pelo MPRJ, Marins teria apresentado a Carnevale um áudio atribuído a Peixão, no qual o criminoso se defendia da acusação de proibir igrejas em áreas do Complexo de Israel. A informação chegou ao Ministério Público por meio do então secretário. Em depoimento, Carnevale contou que, em 6 de julho de 2024, foi a uma igreja nas proximidades das comunidades dominadas por Peixão para verificar a informação de que festas juninas estariam sendo proibidas pelo tráfico. Foi quando, segundo ele, Marins chegou ao local e afirmou que “não parecia crível que a ordem tivesse sido emanada do Peixão”. “Agora estão gerando fake news dizendo que mandei fechar até as igrejas”, diz um trecho do áudio atribuído ao criminoso.

No documento encaminhado à Justiça para embasar 14 pedidos de busca e apreensão, o MPRJ também relatou que Ulisses Marins é investigado em procedimento da Polícia Civil por suspeita de esconder armas e drogas do TCP em um imóvel que funcionava como seu comitê eleitoral em Brás de Pina.

Os donos do crime

Taxa na Ceasa

Além da possível relação com o TCP, o MPRJ aponta que Val Ceasa é suspeito de permitir que criminosos cobrassem taxas de comerciantes da Central de Abastecimento do Estado do Rio (Ceasa), em Irajá. Os investigadores também levantaram o patrimônio do deputado, que teria movimentado mais de R$ 13 milhões em transações imobiliárias recentes. De acordo com o órgão, os negócios indicam possível “incompatibilidade” com o valor declarado pelo parlamentar ao Tribunal Superior Eleitoral. Entre as transações identificadas estão a construção de um galpão no Espírito Santo e a aquisição de dois imóveis, um no Recreio dos Bandeirantes e outro na Barra da Tijuca.

Ao comentar a operação, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, afirmou que “não se pode aceitar que o parlamento seja ocupado por figuras dessa estirpe”. Segundo ele, os casos acendem um alerta sobre a influência de facções criminosas em espaços de representação política.

Após casos ligados ao CV, Alerj é alvo em ação sobre o TCP

Na porta da Alerj, Val Ceasa disse trabalhar para “os humildes”.

— Acho que todo servidor público tem que ser investigado. A Justiça tem o direito de investigar, isso é normal. Isso aí é perseguição política — afirmou o deputado à rádio CBN.

Em nota, a Alerj afirmou que está “à disposição para prestar toda a colaboração necessária ao andamento das investigações”. A reportagem não conseguiu contato com Marins.

Também em nota, a Prefeitura do Rio informou que a operação teve origem em denúncia apresentada pela Secretaria de Ordem Pública e que o caso foi tratado em diversas reuniões entre o órgão e o Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) desde 2023. Em depoimento prestado ao Ministério Público em novembro de 2024, o então secretário de Ordem Pública, Brenno Carnevale, relatou formalmente a tentativa de interferência para impedir a demolição da construção irregular localizada em Vigário Geral. A Prefeitura informou ainda que o servidor Michael Johnny Vianna de Azevedo será exonerado do cargo que ocupa na Companhia Municipal de Energia e Iluminação (Rioluz) na edição desta sexta-feira (19/06) do Diário Oficial.