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Imóveis ligados a Peixão tinham ‘monte de oração’, câmera espiã e rota de fuga, diz MP

Deputado estadual Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins foram alvos de operação por suspeita de ligação com o TCP

Agência O Globo - 19/06/2026
Imóveis ligados a Peixão tinham ‘monte de oração’, câmera espiã e rota de fuga, diz MP
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O deputado estadual Val Ceasa (PRD) e o ex-vereador do Rio Ulisses Marins foram alvos de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira, em uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Eles e o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna Azevedo são investigados por suspeita de ligação com a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP).

A investigação apura a atuação dos parlamentares contra a demolição de imóveis atribuídos ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, apontado como chefe do chamado Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. Um dos locais ficou conhecido como “resort” de Peixão, no bairro de Parada de Lucas.

Na representação do MPRJ, os imóveis são descritos como construções que se destacavam em meio às casas do entorno pela “suntuosidade”. Os espaços teriam academia completa, piscina, lago artificial e outras estruturas incompatíveis, segundo o órgão, com a realidade da comunidade ao redor.

Elo com o TCP

O detalhamento sobre os imóveis foi enviado pela polícia ao Ministério Público. De acordo com relatório da Polícia Militar citado na representação, um dos endereços era protegido por uma “câmera espiã”, escondida em uma tomada. Os locais, segundo a investigação, serviriam como base para eventos e reuniões de criminosos ligados ao TCP.

No chamado “resort”, além do lago artificial com carpas, cercado por areia de praia, e da área de lazer com piscina, campo de futebol e chuveirão, o Ministério Público aponta outro uso para o espaço: uma área terraplanada anexada ao imóvel, formando um monte possivelmente usado para orações.

Val Ceasa

Um dos imóveis, equipado com academia e piscina, tinha ainda uma saída pelos fundos, que permitiria a fuga de criminosos por becos e vielas pouco movimentados durante operações policiais, conforme relatou a PM.

A investigação também cita a presença da Estrela de Davi — símbolo usado por Peixão, que se declara evangélico, como forma de demarcação territorial — em equipamentos de academia e na cascata de uma piscina localizada em um dos imóveis.

Segundo o Ministério Público, “os imóveis são providos de mobiliário e benfeitorias absolutamente incompatíveis com atividades sociais destinadas à população carente que vive nos seus arredores”. Nos fundos de uma das academias havia uma sala ampla, com sofás brancos, integrada a uma cozinha americana. Acima do cômodo, foi identificado ainda um “quarto de luxo”.

Imóveis foram modificados após ida de parlamentares a batalhão

A representação do MPRJ relata que, em 11 de dezembro de 2023, Val Ceasa e Ulisses Marins teriam ido ao 16º BPM (Olaria) “com o objetivo de verificar com o comandante daquela organização policial militar se haveria o planejamento de uma grande operação policial para demolição do imóvel em questão”: o “resort” de Peixão.

Três dias depois, durante uma operação no Complexo de Israel, policiais militares “notaram modificações nos imóveis objetos daquela investigação”.

O “resort”, por exemplo, passou a exibir uma faixa que mencionava uma colônia de férias. Em outro imóvel, a academia de ginástica foi desmontada. Já os grafites ao redor da piscina, com “alusão aos símbolos religiosos utilizados pelo tráfico de drogas”, foram apagados, e a parede foi pintada de branco em um terceiro endereço.

“Afigura-se de todo evidente que, após a indevida divulgação da informação de que o Poder Público concebia a demolição dos imóveis, os malfeitores agiram para camuflar sua real destinação e colocaram faixas para fazer crer que eram empregados em atividades voltadas ao bem-estar da comunidade, tentativa de fraude que foi desmascarada pela ação policial corporificada em sua atividade de inteligência, que viabilizou a obtenção e análise de conhecimentos voltados à prevenção do crime”, afirma a representação do MPRJ.

Investigação

O Ministério Público sustenta que a tentativa de induzir autoridades ao erro — ao apresentar os espaços como centros sociais — e a suposta tentativa de interceder junto à PM para impedir a demolição dos imóveis “consubstancia indício suficiente do comprometimento de ambos com os integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro, que atuam no local e utilizam os imóveis”.

Após a operação, a polícia apontou que os imóveis voltaram a ser ocupados por criminosos em 2024, embora nenhum suspeito tenha sido encontrado nos locais durante as ações policiais.