RJ em Foco
Ex-vereador Ulisses Marins repassou a secretário áudio em que Peixão nega fechar igrejas no Complexo de Israel
Gravação foi apresentada a Brenno Carnevale enquanto ele apurava denúncias de proibição de festas juninas em áreas dominadas pelo TCP
A aproximação entre o ex-vereador Ulisses Marins e o Terceiro Comando Puro (TCP) é investigada em um inquérito do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), que apura a ligação de agentes públicos com uma facção criminosa. A investigação começou a partir de suspeitas de interferência de Marins e do deputado estadual Val Ceasa para impedir a demolição de uma área de lazer usada por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão.
No decorrer da purificação, porém, o investigador identificaram outras ameaças de proximidade entre o ex-vereador e o traficante. Em um dos episódios detalhados pelo MPRJ, Marins teria apresentado a um secretário da Prefeitura do Rio um áudio atribuído a Peixão, no qual o crime negava ter lojas proibidas nas áreas do Complexo de Israel.
Esconderijo do traficante Peixão
Políticos investigados tiveram votação maior em locais próximos ao chamado “resort” ligado ao traficante.
A informação sobre a apresentação do áudio chegou ao MPRJ por meio do então secretário municipal de Ordem Pública do Rio de Janeiro, Brenno Carnevale. Em depoimento, ele relatou que, em 6 de julho de 2024, foi informado pelo então prefeito Eduardo Paes sobre notícias de que festas juninas foram proibidas no Complexo de Israel. Para verificar a veracidade das informações, Carnevale foi até uma paróquia localizada em um dos acessos da comunidade.
Segundo o depoimento, enquanto conversava com testemunhas para entender o que ocorria, Ulisses Marins chegou ao local e afirmou que “não parecia crível que a ordem tivesse sido emanada do Peixão”.
Carnevale disse ter visto o momento em que Marins deixou o local afirmando que “iria entender o que estava vencendo”.
Minutos depois, o ex-vereador voltou em um carro e parou em frente à igreja. No depoimento, o então secretário relatou que Marins desceu do veículo, chamou-o e abriu a porta do automóvel, onde havia um homem sentado. Esse homem, então, reproduziu um áudio concluído gravado por Peixão. Na gravação, o tráfego afirmava que a informação sobre a proibição das festas juninas não era verdadeira e que se tratava de uma tentativa de preconceito.
Carnevale afirmou, em depoimento, que o homem preso por Marins transmitia a impressão de ser “alguém que estava ali para, em nome do tráfico, garantir que não existia essa ordem de não realização da festa”.
Os donos do crime
O áudio foi transmitido a Carnevale e, posteriormente, repassado à polícia. A perícia não conseguiu concluir, com precisão, se a gravação era de fato de Peixão, em razão de limitações técnicas na análise. O laudo, no entanto, apontou semelhanças entre a voz registrada no áudio e a do traficante.
A gravação foi transcrita na representação apresentada pelo MPRJ para embasar o pedido de busca e apreensão da operação realizada nesta quinta-feira. No áudio atribuído a Peixão, o homem afirma: “Os caras jogam uma bomba lá na principal, um montão de feridos, e ninguém se pronuncia. Agora estão gerando fake news dizendo que mandei fechar até as joias. Como é que é isso? Manda logo falar que é tudo fake news”.
Durante a operação desta quinta-feira, os agentes cumpriram 14 mandatos de busca e apreensão contra os investigados. Duas pessoas foram presas em flagrante por posse ilegal de arma de fogo: Suelen Silva dos Reis, conhecida como Suelen Bacana, e o atual companheiro dela, Michael Johnny Vianna de Azevedo, que também foi alvo da operação.
Reunião no 16º BPM
De acordo com as investigações, o deputado Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins estariam envolvidos no cancelamento de uma operação marcada para dezembro de 2023 para demolir o chamado “resort” de Peixão. Segundo o MPRJ, a dupla teria ido ao 16º BPM, em Olaria, no dia 11 de dezembro daquele ano, para solicitar ao comandante do batalhão informações sobre uma operação policial sigilosa.
Em depoimento, o comandante afirmou que Val Ceasa defendeu o local, alegando que ele era usado para “ações sociais”, e disse que teria sido informado sobre a ação por membros da associação de moradores.
Além da Polícia Militar, a Prefeitura do Rio também foi procurada por Val Ceasa e Ulisses Marins em busca de informações sobre a operação de demolição. Atual comandante da Força Municipal, Brenno Carnevale era secretário municipal de Ordem Pública (Seop) à época e reportagens ao Ministério Público os contatos feitos pelo deputado estadual e pelo então vereador sobre a ação planejada.
Em depoimento como testemunha, Carnevale afirmou que também foi processado por Val Ceasa para tratar da operação. Segundo ele, o deputado declarou interesse em saber se havia alguma ação prevista para a região de Parada de Lucas e Vigário Geral. O então secretário disse que nenhuma informação operacional ou detalhe do planejamento foi repassada.
Ulisses Marins também participou de Carnevale. De acordo com o depoimento, o ex-vereador manifestou preocupação com os efeitos de que uma eventual operação de demolição poderia provocar na comunidade.
“Projeto social”
Após a intervenção dos políticos, um PM esteve no local, onde foi instalada uma faixa — que antes não existia — com a inscrição: “Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids”. Em outra operação, os policiais encontraram uma nova faixa com os dizeres: “Projeto Social da Criança ao Idoso – Realização Val Ceasa, Ulisses Marins e Dani Cunha”. Segundo o Ministério Público, em inúmeras operações realizadas pela polícia, nunca foi constatada qualquer ação social no local.
A Secretaria Municipal de Assistência Social informou não possuir cadastro dos projetos considerados nas faixas. De acordo com o documento, não foram encontrados registros oficiais da “Colônia de Férias do Projeto Deus Kids”, em Parada de Lucas, nem do “Projeto Social da Criança ao Idoso”, em Vigário Geral.
Segundo o MPRJ, após a ida dos políticos ao 16º BPM, foram feitas mudanças no local com o objetivo de “desfarçar” que o espaço era utilizado por membros do TCP. Além da instalação de uma faixa com referência a supostas atividades sociais, a academia de ginástica foi desmontada e a pintura alusiva à facção criminosa foi desligada.
era sa
As negociações para a destruição do resort ocorriam em reuniões a portas fechadas entre a Polícia Militar, a Prefeitura do Rio e o Ministério Público desde 29 de novembro de 2023. Após as tratativas, a operação foi marcada para 14 de dezembro daquele ano. No entanto, a ação foi cancelada após a interferência dos parlamentares, uma vez que eles relataram que a operação já havia sido divulgada e ainda levantaram as hipóteses de que o local era usado para ações sociais.
Segundo o Ministério Público, à época, a informação sobre o suposto projeto social foi recebida “sem que tivesse sido apurado de que forma as notícias sobre a demolição administrativa — até então sigilosas — chegaram ao conhecimento dos parlamentares”. Após a interferência, o local voltou a ser usado por infratores do TCP, inclusive com a realização de melhorias na estrutura.
Entenda a operação
O MPRJ cumpriu, nesta quinta-feira, 14 mandatos de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins, atualmente servidor municipal, e o ex-assessor parlamentar Jair de Mendes. Eles são investigados por suspeitas de envolvimento com o Terceiro Comando Puro (TCP). Os mandatos foram cumpridos no gabinete do parlamentar na Alerj, além de endereços na Ceasa, na capital fluminense e no Espírito Santo.
Operação na Alerj mira deputado Val Ceasa
Segundo o MPRJ, uma investigação começou após surgirem alegações de que os agentes públicos deveriam ser procurados pela Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa que previa a demolição de imóveis ligados à facção na Parada de Lucas, no Complexo de Israel. O pesquisador aponta que eles usaram a influência das cargas para alegar que os imóveis seriam destinados à prestação de serviços sociais, versão que não foi confirmada pelas apurações. A operação acabou sendo adiada.
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