RJ em Foco
Clínica transforma jogos da Copa em ferramenta terapêutica para pacientes em recuperação
Programação combina transmissão das partidas com rodas de conversa e atividades voltadas ao autocontrole, manejo das emoções e reconstrução de vínculos
Enquanto milhões de brasileiros acompanham a Copa do Mundo movidos pela paixão pelo futebol, uma instituição psiquiátrica do Rio de Janeiro decidiu transformar o torneio em parte do processo terapêutico de seus pacientes. Na Clínica Jorge Jaber , referência no atendimento a dependentes químicos, os jogos passaram a ser utilizados como ponto de partida para reflexões sobre saúde mental, recuperação e convivência coletiva.
Ao longo do campeonato, as atualizações das partidas foram incorporadas à rotina terapêutica do Hospital Tarde Noite, modalidade de atendimento oferecida pela instituição. A proposta vai além do entretenimento: temas como ansiedade, impulsividade, tolerância à frustração, disciplina, pressão emocional, trabalho em equipe e superação são planejados em grupos terapêuticos antes e depois dos jogos.
Segundo o psiquiatra Jorge Jaber, diretor da clínica, o futebol oferece uma linguagem comum, capaz de mobilizar emoções e estimular reflexões importantes para pessoas em processo de recuperação. A expectativa é que a programação contribua para fortalecer laços entre os pacientes e ofereça uma oportunidade adicional de desenvolver habilidades emocionais fundamentais ao tratamento.
— A Copa do Mundo produz sentimentos intensos e compartilhados. Existe expectativa, alegria, frustração, esperança, medo da derrota e celebração das conquistas. São emoções muito parecidas com aquelas vividas diariamente por quem enfrenta um processo de recuperação. A utilização desse contexto como ferramenta terapêutica permite trabalhar questões importantes de uma forma mais próxima da realidade dos pacientes — afirma.
A programação foi estruturada para preservar a rotina de tratamento da clínica e também envolver familiares dos pacientes. A busca por iniciativa estreitar vínculos muitas vezes fragilizados pelas dificuldades provocadas pela dependência. As transferências ocorrem prioritariamente durante a tarde e são acompanhadas por atividades supervisionadas pela equipe técnica.
Além dos jogos, os pacientes participam de rodas de conversa, bolões recreativos e debates sobre situações observadas dentro e fora de campo. Entre os temas previstos para os encontros estão a relação entre vitória e recuperação, disciplina e rotina, manejo da ansiedade, espírito de equipe, autocontrole, motivação e intimidade de vínculos familiares e sociais.
A iniciativa começou já na abertura do torneio, com a transmissão da partida entre México e África do Sul. Na estreia da Seleção Brasileira contra o Marrocos, a clínica preparou uma festa com decoração temática, referências juninas e um cardápio especial inspirado nas tradições brasileiras e no país adversário, reunindo pratos como baião de dois, cuscuz marroquino, aipim frito, churrasco, milho, canjica e outras comidas típicas.
A ideia foi unir a paixão pelo futebol à memória afetiva das festas de São João, criando um ambiente de acolhimento, pertencimento e celebração coletiva. Para Jaber, grandes eventos esportivos podem funcionar como espaços de integração social, especialmente em ambientes terapêuticos.
— O tratamento não acontece apenas dentro do consultório ou dos grupos formais. Ele também se construiu nas experiências coletivas, no sentimento de pertencimento e na capacidade de compartilhar emoções de forma saudável. A Copa cria uma oportunidade rara de reunir pessoas em torno de um objetivo comum, e isso tem um valor terapêutico importante — diz o psiquiatra.
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