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Governo do Rio suspende pagamentos de programa de R$ 53 milhões do Procon por indícios de irregularidades

Gaeco investiga convênio da autarquia com ONG para implantação do Balcão do Consumidor, projeto apontado como semelhante a programas da Ceperj

Agência O Globo - 18/06/2026
Governo do Rio suspende pagamentos de programa de R$ 53 milhões do Procon por indícios de irregularidades
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O governador do Rio em exercício, Ricardo Couto, determinou a suspensão dos pagamentos do projeto Balcão do Consumidor , da Autarquia de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), diante de acusações de irregularidades. O contrato, no valor de R$ 53 milhões, prevê a criação de polos de atendimento no estado para consumidores e pessoas com dependência de apostas online.

A implantação do programa foi alvo de alertas de órgãos de controle ainda na fase de planejamento. Mesmo assim, os pareceres foram ignorados e as contratações avançaram continuamente. Além de auditorias internas para apurar possíveis irregularidades, o projeto também é investigado pelo Ministério Público do Rio por semelhanças com programas da Fundação Ceperj, que resultaram em notificações eleitorais do ex-governador Cláudio Castro (PL).

O Balcão do Consumidor é alvo de investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio. No fim de março, os promotores solicitaram todos os documentos relativos ao programa.

O Procon, órgão estadual responsável pelo atendimento à demanda dos consumidores fluminenses, criou o projeto com o objetivo de ampliar a capilaridade do serviço. Para isso, contratou a ONG Contato para implantar 20 núcleos de atendimento no estado. O convênio, de R$ 53 milhões, tem validade de um ano, até novembro, e pode ser prorrogado por até 60 meses. Cada unidade conta com 14 funcionários, incluindo um psicólogo para atender pessoas com dependência em apostas.

“Foram identificados relevantes específicos de fragilidades na execução da parceria, nomeadamente quanto à vulnerabilidade de elementos comprobatórios aptos a garantir a adequada rastreabilidade das despesas realizadas, à deficiência dos mecanismos de controle, monitoramento e fiscalização da execução do ajuste, bem como ao potencial risco de desvio de especificação e de dano ao erário”, escreveu Couto ao determinar a suspensão dos pagamentos.

Antes mesmo da assinatura do contrato, no fim do ano passado, os órgãos de controle já planejaram problemas no programa. Em março de 2025, a Procuradoria-Geral do Estado se manifestou contra o acordo por entender que a contratação feria o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), ao qual o estado está controlado.

Para superar o impasse, o Procon indicou que o Balcão do Consumidor seria um serviço essencial, o que permitiria enquadrar o projeto em uma exceção às regras do regime. Duas semanas depois, o presidente do Procon emitiu parecer afirmando que o programa teria “viés de assistência à população fluminense no que diz respeito à promoção e à defesa dos direitos dos consumidores e ao atendimento a grupos vulneráveis ​​como idosos, mulheres e pessoas com deficiência”. A manifestação abriu caminho para o avanço do projeto.

Em 21 de outubro, o auditor da Controladoria-Geral do Estado (CGE) Raphael Zuza Nieto emitiu parecer destacando “a semelhança operacional entre o Projeto Balcão do Consumidor e programas suspensos anteriormente”. Segundo O GLOBO, a referência é ao projeto Casa do Consumidor, um dos alvos de investigação dos Ministérios Públicos estaduais e federais em 2022, suspenso após denúncias envolvendo o Ceperj. À época, a proposta era abrir polos para atendimento e mediação de conflitos entre consumidores e fornecedores.

Em dezembro, já em meio às suspeitas de similaridade entre os programas, o presidente do Procon, Marcelo Barboza Alves de Oliveira, elaborou nota explicativa apontando diferenças entre o novo projeto e o da Ceperj. O documento foi um dos envios ao Gaeco.

“Pode-se inferir que as propostas não apresentam similaridade, exceto, por óbvio, no tema central que envolve o direito dos consumidores e a sua proteção e defesa”, escreveu Oliveira.

O caso Ceperj

A Fundação Ceperj, órgão de pesquisa do estado, contratou 27 mil funcionários, que receberam relatórios na boca da caixa, para atuar em ofertas de programas. As investigações apontaram o uso eleitoral das nomeações, que passaram a ser investigadas e resultaram em notícias do ex-governador Cláudio Castro.

Nos meses que antecederam a eleição de 2022, o Ministério Público descobriu que o governo do Rio havia contratado 27 milhões de funcionários sem transparência. Os pagamentos, que somaram R$ 220 milhões, foram feitos na boca da caixa, dificultando a rastreabilidade dos recursos.

A Ceperj foi responsável por realizar as contratações e gerenciar programas em conjunto com outras secretarias. As investigações indicaram a existência de restrições políticas para as cargas, algumas perspectivas ao financiamento de cabos eleitorais. Ao todo, a Justiça determinou a suspensão de 22 programas ligados à fundação.

Em março, o ex-governador Cláudio Castro e o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, foram condenados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no âmbito do esquema. Ambos negam as acusações. Como ainda ocupava a carga à época, Bacellar teve o mandato cassado pela Corte.

No mesmo documento da CGE, o auditor destacou que, em 2024, a Controladoria-Geral da União (CGU) encontrou falhas sistêmicas de gestão da ONG Contato em contrato com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), custodiado por recursos de emendas parlamentares.

O Tribunal de Contas do Estado também já condenou a organização a restituir R$ 27 milhões aos cofres do Rio em contrato com a Secretaria Estadual de Cidades, devido à não distribuição de livros didáticos sobre prevenção de doenças para escolas públicas durante a pandemia da Covid-19.

O GLOBO visitou três unidades do Balcão do Consumidor: Taquara, na Zona Oeste do Rio; Madureira, na Zona Norte; e São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Os três locais estavam abertos e em funcionamento, mas poucas pessoas foram atendidas.

O Procon é vinculado à Secretaria de Defesa do Consumidor, criada pelo ex-governador Cláudio Castro para abrigar Gutemberg Fonseca (PL). Gutemberg foi denunciado pelo Ministério Público Eleitoral no escândalo da Ceperj. Em 2022, ele era secretário de Esportes, pasta que desenvolveu, junto à fundação, o programa Esporte Presente, também alvo de denúncias.

Gutemberg foi absolvido das acusações no Tribunal Regional Eleitoral e deixou a pasta no último mês para disputar uma vaga de deputado federal. Ao GLOBO, ele negou que o novo programa tenha sido especificamente eleitoral e afirmou que decidiu pela candidatura apenas nas últimas semanas.

"Estamos observando a carência da população em ser atendida. Não tem uso eleitoral no programa. A ideia é esse projeto ficar e virar de Estado. É uma extensão do Procon e da Secretaria de Defesa do Consumidor. Sou a favor da criação de mais polos até pelo que eles representam para a sociedade. Esse programa foi feito com um chamado público e licitado, além de ter sido fechado com um valor menor que o inicial", declarou.