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Deputado investigado por elo com o TCP movimentou mais de R$ 13 milhões em transações imobiliárias, diz MPRJ

Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins são suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo atribuído ao traficante Peixão

Agência O Globo - 18/06/2026
Deputado investigado por elo com o TCP movimentou mais de R$ 13 milhões em transações imobiliárias, diz MPRJ
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Alvo de uma operação que apura a ligação entre agentes públicos e o Terceiro Comando Puro (TCP), o deputado estadual do Rio de Janeiro Roosevelt Barreto Barcelos (PRD), conhecido como Val Ceasa, movimentou mais de R$ 13 milhões em transações imobiliárias, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).

Para o órgão, a ação é uma das acusações de possível incompatibilidade entre o patrimônio declarado pelo parlamentar à Justiça Eleitoral e os dados levantados durante a investigação. Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins são apontados como suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, um dos chefes da facção, na Parada de Lucas, no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio.

Esconderijo do traficante Peixão

De acordo com o MPRJ, Val Ceasa declarou à Justiça Eleitoral, em 2022, patrimônio de pouco mais de R$ 1 milhão. No entanto, no curso do inquérito que apura um possível elo com o TCP, o investigador identificou que o deputado e as empresas controladas por eles realizaram transações imobiliárias superiores a R$ 13 milhões.

Entre os negócios planejados na investigação estão a construção de um galpão em um imóvel comercial no Espírito Santo e a aquisição de dois imóveis, um no Recreio dos Bandeirantes e outro na Barra da Tijuca, no Rio.

Durante a operação deflagrada nesta quinta-feira, os agentes cumpriram 14 mandatos de busca e apreensão contra os investigados. Duas pessoas foram presas em flagrante por posse ilegal de arma de fogo: Suelen Silva dos Reis, conhecida como Suelen Bacana, e o atual companheiro dela, Michael Johnny Vianna de Azevedo, também alvo da operação.

Reunião no 16º BPM

Segundo as investigações, o deputado Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins estariam envolvidos no cancelamento de uma operação marcada para dezembro de 2023, que tinha como objetivo demolir o resort atribuído a Peixão.

De acordo com o MPRJ, os dois permaneceram ido ao 16º BPM, em Olaria, em 11 de dezembro daquele ano, para solicitar ao comandante do batalhão informações sobre uma operação policial sigilosa.

Em depoimento, o comandante afirmou que Val Ceasa defendeu o local, sob o argumento de que o espaço era utilizado para “ações sociais”, e disse ter sido informado sobre a ação por membros da associação de moradores.

Além da Polícia Militar, a Prefeitura do Rio também foi procurada por Val Ceasa e Ulisses Marins em busca de informações sobre a operação de demolição. Atual comandante da Força Municipal, Brenno Carnevale era secretário municipal de Ordem Pública (Seop) à época e reportagens ao Ministério Público os contatos feitos pelo deputado estadual e pelo então vereador sobre a ação planejada.

Em depoimento como testemunha, Carnevale afirmou que foi procurado por Val Ceasa para tratar da operação e que o deputado declarou interesse em saber se havia alguma ação prevista para a região de Parada de Lucas e Vigário Geral. Segundo o então secretário municipal de Ordem Pública, nenhuma informação operacional ou detalhe do planejamento foi repassada.

Ulisses Marins também participou de Carnevale. Conforme o depoimento, o ex-vereador manifestou preocupação com os efeitos de que uma eventual operação de demolição poderia provocar na comunidade.

'Projeto social'

Após a intervenção dos políticos, a Polícia Militar esteve no local, onde foi instalada uma faixa — que antes não existia — com a inscrição: "Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids". Em outra operação, os policiais encontraram uma nova faixa com os dizeres: "Projeto Social da Criança ao Idoso – Realização Val Ceasa, Ulisses Marins e Dani Cunha".

Segundo o Ministério Público, em inúmeras operações realizadas pela polícia, nunca foi constatada qualquer ação social no local.

A Secretaria Municipal de Assistência Social informou não possuir cadastro dos projetos considerados nas faixas. De acordo com o documento, não foram encontrados registros oficiais da "Colônia de Férias do Projeto Deus Kids", em Parada de Lucas, nem do "Projeto Social da Criança ao Idoso", em Vigário Geral.

Para o MPRJ, após a ida dos políticos ao 16º BPM, foram feitas alterações no local com o objetivo de “desfarçar” que o espaço era utilizado por membros do TCP. Além da instalação de uma faixa com referência a supostas atividades sociais, a academia de ginástica foi desmontada e a pintura alusiva à facção criminosa foi desligada.

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As negociações para a destruição do resort ocorriam em reuniões a portas fechadas entre a Polícia Militar, a Prefeitura do Rio e o Ministério Público desde 29 de novembro de 2023. Após as tratativas, a operação foi marcada para 14 de dezembro daquele ano.

No entanto, a acção foi cancelada depois da interferência dos parlamentares, uma vez que eles demonstraram que a operação já havia sido divulgada e levantaram as hipóteses de que o local era utilizado para acções sociais.

Segundo o Ministério Público, à época, a informação sobre o suposto projeto social foi recebida “sem que tivesse sido apurado de que forma as notícias sobre a demolição administrativa — até então sigilosas — chegaram ao conhecimento dos parlamentares”. Após a interferência, o local voltou a ser usado por infratores do TCP, inclusive com melhorias na estrutura.

Entenda a operação

O MPRJ cumpriu, nesta quinta-feira, 14 mandatos de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins, atualmente servidor municipal, e o ex-assessor parlamentar Jair de Mendes. Eles são investigados por suspeitas de envolvimento com o Terceiro Comando Puro.

Os mandatos foram cumpridos no gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), além de endereços no Ceasa, na capital fluminense e no Espírito Santo.

Segundo o MPRJ, uma investigação começou após surgirem acusações de que agentes públicos foram procurados pela Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa que previa a demolição de imóveis ligados à facção na Parada de Lucas, no Complexo de Israel.

O investigador aponta que os suspeitos usaram a influência das cargas para alegar que os imóveis seriam destinados à prestação de serviços sociais, versão que não foi confirmada pelas apurações. A operação acabou sendo adiada.