RJ em Foco

Val Ceasa e Ulisses Marins tinham nomes em faixa na entrada de resort atribuído a Peixão

Deputado estadual e ex-vereador são investigados por suspeita de tentar impedir a demolição de imóvel de luxo ligado ao chefe do TCP, em Parada de Lucas

Agência O Globo - 18/06/2026
Val Ceasa e Ulisses Marins tinham nomes em faixa na entrada de resort atribuído a Peixão
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um banner de fundo azul, com letras brancas e amarelas, anunciava um suposto projeto social voltado para atendimento de crianças, adultos e idosos. Ao lado da descrição da iniciativa, apareciam, entre os nomes dos realizadores, o deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa (PRD), e o ex-vereador Ulisses Marins . Ambos foram alvos de uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), deflagrada na manhã desta quinta-feira, por suspeitas de envolvimento com o Terceiro Comando Puro (TCP) .

A faixa, divulgada por meio de imagem da polícia, ficou na entrada de um resort que, segundo as investigações, chegou ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa , o Peixão, apontado como um dos chefes da facção. O imóvel estava localizado na Parada de Lucas, no chamado Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Símbolo de ostentação do crime, o imóvel foi demolido pela polícia em março do ano passado. De acordo com as investigações, no entanto, o resort de luxo — vizinho a casas simples da comunidade — poderia ter sido derrubado 15 meses antes, não fosse a suposta política de interferência e o vazamento de informações sigilosas. Os investigadores apontam que existem ao menos duas tentativas anteriores de acabar com o espaço de lazer montado pelo tráfego.

Em reportagem publicada uma semana depois da demolição, O GLOBO informou que fontes de diferentes órgãos envolvidos no planejamento da ação afirmaram que os parlamentares autorizados ligados ao cancelamento da operação marcada para dezembro de 2023 eram Val Ceasa e Ulisses Marins.

Relatos indicam que ambos chegaram a visitar o 16º BPM, em Olaria, para pedir que o imóvel não fosse tombado. A justificativa apresentada seria de que no local funcionava um suposto projeto social, identificado pela faixa azul. Procurado à época, Marins não quis se pronunciar. Val Ceasa negou ter ido ao batalhão com esse pedido. Em nota, porém, o deputado afirmou ser contra a demolição do resort. “Quando o vagabundo coloca armamento ou droga dentro da escola, não pode ir lá e derrubar a escola”, escreveu na ocasião.

A primeira operação teria sido marcada para 14 de dezembro daquele ano. Entretanto, um relatório interno da Secretaria Municipal de Ordem Pública do Rio (Seop) revelou vazamento dos planos e questões supostas intervenções de parlamentares que utilizariam os imóveis para atividades de assistência a idosos e crianças. A ação acabou cancelada.

Em 2024, o Ministério Público expediu ofício à Polícia Militar solicitando diligências para verificar a real destinação do imóvel. Ainda em dezembro, um PM esteve no local e encontrou uma faixa que indicava o funcionamento do projeto, exibindo os nomes dos dois alvos políticos da operação desta quinta-feira e da deputada federal Dani Cunha (União).

Durante as diligências, os agentes identificaram ainda outro espaço atribuído à facção, denominado Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids. Consulta feita à Secretaria Municipal de Assistência Social, na época, mostrou que nenhum dos dois projetos foi cadastrado junto à prefeitura.

A informação sobre a placa com os nomes dos parlamentares só se tornou pública em outubro de 2024, quando suspeitas de que Peixão teria passado a noite no imóvel levaram as polícias Civil e Militar a retornarem ao local. Os agentes filmaram a faixa no muro, o que indicava que o projeto seria realizado realizado pelos três políticos.

Embora o nome de Dani Cunha estivesse estampado na placa, ela não foi mencionada pelas fontes como envolvida no pedido para suspender a demolição. A deputada afirmou ao GLOBO, na época, que não mantinha qualquer parceria política com os outros parlamentares.