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Após casos ligados ao CV, Alerj volta à mira em investigação sobre o TCP; entenda

Deputado alvo de operação do MPRJ já havia sido citado em mensagens interceptadas entre integrantes da cúpula do Comando Vermelho e agora é investigado por suspeita de atuar em favor de interesses do Terceiro Comando Puro

Agência O Globo - 18/06/2026
Após casos ligados ao CV, Alerj volta à mira em investigação sobre o TCP; entenda
Alerj - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A operação deflagrada nesta quinta-feira pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) contra o deputado estadual Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins recolocou a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) no centro de uma investigação sobre a suposta influência de facções criminosas nas estruturas do poder público.

Desta vez, a apuração envolve suspeitas de atuação em favor de interesses do Terceiro Comando Puro (TCP). Não é, porém, a primeira vez que o Legislativo estadual aparece em investigações desse tipo.

Em 2025, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que levou à prisão o então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho (CV), mantendo contatos com traficantes, policiais e agentes públicos.

TH Joias e Bacellar

Em setembro de 2025, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que descobriu na prisão do então deputado estadual TH Joias. De acordo com a PF, ele atuou como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho, com interlocução junto a traficantes, policiais e agentes públicos.

O investigador afirma que o parlamentar teria usado a estrutura do mandato para beneficiários integrantes da facção, incluindo negociações envolvendo armas, drogas e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.

Em dezembro de 2025, a Operação Unha e Carne ganhou novo capítulo com a prisão do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Segundo a PF, Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun para TH Joias. O investigador sustenta que ele teria avisado o parlamentar sobre a ação policial e orientado a retirada de objetos de um imóvel antes do cumprimento dos mandatos.

A PF também afirma que Bacellar era o principal contato da lista de “comunicação urgente” de TH Joias. A mesma operação foi concluída, em 16 de dezembro, na prisão do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. A suspeita é de que informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun tenham sido repassadas antes do cumprimento dos mandatos.

Val Ceasa

A ligação de políticos com facções criminosas já havia sido exposta em série que mostrou, com exclusividade, mensagens interceptadas pela PF. Em uma delas, o traficante Carlos Costa Neves, conhecido como Gardenal, invejoso ao chefe do CV no Complexo da Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma foto de Val Ceasa durante uma reunião no Palácio Guanabara, em janeiro de 2025.

Ao encaminhar a imagem, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”, sem explicar a quem se referia. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”.

Segundo a Polícia Federal, a troca de mensagens demonstra o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar sua influência, buscar proteção institucional e interferir em decisões públicas. A investigação apontou ainda que a aproximação com políticas teria como objetivo influência em ações sociais e evitar interferências do Estado em áreas dominadas pelo crime de grupo.

Embora a conversa não tenha esclarecido quem seria o “dele” mencionado por Gardenal, uma fonte da PF afirmou que o diálogo remete a uma suposta aliança de Val Ceasa com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como chefe do TCP, facção rival do Comando Vermelho.

A relação entre o parlamentar e o entorno de Peixão já havia sido abordada em outra investigação. A reportagem anterior mostrou que a demolição de um resort atribuído ao tráfego, na Cidade Alta, foi adiada por cerca de 15 meses após uma suposta articulação política. O caso é investigado pela Procuradoria-Geral de Justiça em procedimento sigiloso.

Entenda a operação

O MPRJ cumpre, nesta quinta-feira, 14 mandatos de busca e apreensão contra o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador Ulisses Marins, atualmente servidor municipal, e o ex-assessor parlamentar Jair de Mendes. Eles são investigados por suspeitas de envolvimento com o Terceiro Comando Puro.

Os mandatos são cumpridos no gabinete do parlamentar na Alerj e em endereços no Ceasa, na capital fluminense, e no Espírito Santo.

Segundo o MPRJ, uma investigação começou após surgirem alegações de que os agentes públicos deveriam ser procurados pela Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa que previa a demolição de imóveis ligados à facção na Parada de Lucas, no Complexo de Israel.

O pesquisador aponta que os investigados tiveram influência das cargas para alegar que os imóveis seriam destinados à prestação de serviços sociais, versão que não foi confirmada pelas apurações. A operação acabou sendo adiada.