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Batidão tipo exportação: funk carioca ganha pistas de dança e ruas em Berlim

Projeto Baile Cria, fundado por produtores do Rio que vivem na Alemanha, transforma festas na capital alemã em vitrines da cultura funkeira

Agência O Globo - 14/06/2026
Batidão tipo exportação: funk carioca ganha pistas de dança e ruas em Berlim
Batidão tipo exportação: funk carioca ganha pistas de dança e ruas em Berlim - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Com sol a pino, na tarde de um sábado recente, os termômetros marcavam 28°C. Pouco para quem está acostumado ao calor do Rio de Janeiro, mas quente o suficiente para fazer o público suar em Berlim. Na área externa da cervejaria Berliner Berg, em Neukölln, na capital alemã, pessoas de diferentes nacionalidades — algumas vestindo a camisa do Brasil — dançavam, cada uma a seu modo, em uma pista de areia.

No cenário com clima praiano, entre os gêneros musicais ouvidos, destacou-se um batidão carioca inconfundível, de Bonde do Tigrão a 150 BPM. Os responsáveis pela façanha são DJs formados nas ruas do Rio que, por meio do projeto Baile Cria, se dedicam a espalhar a cultura funkeira em Berlim.

O coletivo foi fundado pelo designer e produtor cultural Ricardo Cortês, de 41 anos. Cria da Ilha do Governador, ele reuniu outros DJs cariocas para tocar em festas temáticas de funk e afrofunk na cidade alemã. Há pelo menos quatro anos, Ricardo coloca o público para ouvir música brasileira em eventos como o Samba de Sarjeta, em 2022, e o projeto Maloca, em 2023, de repertório mais amplo. Em abril deste ano, nasceu oficialmente o Baile Cria.

— A ideia é disseminar a cultura do funk em outros contextos. Nossa música não é mero produto de exportação, mas uma potência da nossa cultura. Para os brasileiros, é comunidade e pertencimento. A gente quer dar dignidade a quem criou essa música, ao território de onde ela veio, e contar essa história para as pessoas na Europa — afirma Ricardo, mais conhecido como DJ MDZN, sigla para Maloca da Zona Norte.

Naquele sábado calorento para os padrões locais, a trilha sonora variava: havia amapiano, eletrônico sul-africano, afrohouse e pop. Na hora do funk, no entanto, a atmosfera mudava. O público balançava os braços e mexia os quadris, tentando entender como o ritmo funcionava. Pelo menos uma pessoa rebolava até o chão, de bermuda verde-bandeira. A surpresa logo se desfez: era o niteroiense Douglas Oliveira, de 30 anos, que mora na Alemanha e estava a passeio por Berlim.

— É muito louco ver festa de funk aqui, mas é isso: eles também apreciam o que a gente tem. Já vi vários com a camisa do Brasil, e a maioria era gringa — contou o dançarino, que caprichou no passinho.

Em outro ponto da pista, as amigas Calli Müller, de 26 anos, e Yenne Strauss, de 25, dançavam sorrindo.

— A gente estava procurando alguma coisa diferente de techno, que Berlim já tem muito. Eu gosto, mas nem sempre é a vibe. O funk é muito divertido de curtir, a energia é totalmente diferente, acho mais amigável. Dá para dançar e curtir com outras pessoas, é ótimo — opinou Calli.

A amiga reforçou o argumento:

— Em boates techno, as pessoas geralmente estão mais focadas em si, a energia é mais introspectiva e talvez mais séria. O funk é uma expressão mais alegre — disse Yenne.

Uma missão

Ricardo Cortês pisou em Berlim pela primeira vez em 2012, durante uma viagem de mochilão pela Europa, e se encantou. A porta de entrada foi a carreira como desenvolvedor de TI, área de formação em que atuou até 2022, quando começou a despontar o desejo de levar o gingado da musicalidade brasileira à cidade.

— Foram muitos anos trabalhando em áreas diferentes e muita luta para hoje conseguir viver fazendo cultura brasileira por aqui — conta ele, que foi reunindo, aos poucos, outros cariocas para integrar o grupo.

Foi o caso de Angélica Xavier, de 35 anos, conhecida como DJ Yandra Furiosa. Cria do bairro de Santa Teresa, ela mora na Alemanha há quatro anos. Para a DJ, tocar funk em Berlim é uma espécie de missão diplomática.

— O funk do Rio nasceu em um lugar onde as pessoas tinham poucos recursos, mas com uma potência cultural muito forte. É muito mais que música. É identidade, sobrevivência, criatividade — afirma.

Reportagem produzida durante o programa Internationale Journalisten-Programme (IJP), apoiado pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.