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Alunos aprendem no IMS técnica do século XIX que usa ovos, prata e ouro para revelar fotos

Processo usado por mestres da fotografia, como Marc Ferrez, foi ensinado no projeto Escola Escuta, que já recebeu 410 alunos e chega à terceira edição

Agência O Globo - 14/06/2026
Alunos aprendem no IMS técnica do século XIX que usa ovos, prata e ouro para revelar fotos
Alunos aprendem no IMS técnica do século XIX que usa ovos, prata e ouro para revelar fotos - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Cento e oitenta ovos para quatro imagens. A fórmula inusitada resume, de modo simplificado, um antigo e lento processo de produção fotográfica que remonta a meados do século XIX e foi amplamente utilizado em registros históricos de mestres como Marc Ferrez (1843-1923). A técnica centenária envolve a produção de albumina a partir das claras dos ovos, usada para fixar partículas de prata ao papel, que depois é sensibilizado pela luz ao receber a imagem do negativo. No Rio de Janeiro, ainda há um lugar onde esse conhecimento é preservado.

Artistas visuais oriundos de territórios periféricos do Rio entraram no laboratório do Instituto Moreira Salles (IMS), na Glória, e saíram semanas depois levando consigo esse saber raro e cópias de suas fotografias impressas com qualidade e textura que nenhum celular, por mais filtros e recursos que ofereça, consegue reproduzir. A oportunidade surgiu por meio da Escola Escuta, projeto desenvolvido pela área de Educação do IMS, que chega este ano à terceira edição.

A iniciativa nasceu de uma provocação durante um debate realizado por ocasião da exposição “Letizia Battaglia: Palermo”, dedicada à obra da fotógrafa italiana. Primeiro, transformou-se em festival; depois, em escola.

— Durante um seminário, fomos confrontados com a percepção de que tínhamos muito a dizer, mas pouco a ouvir. Houve um momento em que alguém afirmou: “A gente vem aqui, fala, mas não está aqui”. Aquilo nos fez refletir — diz Jorge Freire, supervisor de Educação e Territórios do instituto.

Curiosidade analógica

Voltada prioritariamente a moradores de áreas populares da Região Metropolitana do Rio, pessoas negras, LGBTQIA+, integrantes de povos originários e quilombolas, a Escola Escuta já abriu as portas do instituto para 410 alunos em 13 atividades, entre cursos, residências e aulas avulsas. As 15 dúzias de ovos citadas no início do texto fizeram parte do curso “Laboratório de impressões — Albuminas contemporâneas”, conduzido no ano passado por Ailton Alexandre da Silva, supervisor do Laboratório de Processos Fotográficos Históricos do IMS.

— As aulas aconteceram uma vez por semana porque o processo exige intervalos. A gente quebrou 180 ovos, né? Mas isso é só o início. Depois é preciso preparar a mistura, tratar e deixar o material decantando na geladeira por cerca de duas semanas para retirar impurezas — conta Ailton Silva, fotógrafo e impressor especializado em processos analógicos históricos e contemporâneos. — Também precisávamos de tempo para produzir os negativos. Levamos cerca de uma semana trabalhando nos arquivos escolhidos pelos participantes do curso. Além disso, houve todo o preparo do papel antes de chegarmos à impressão das imagens.

Basta observar os perfis de jovens mais atentos às tendências nas redes sociais para perceber que antigas câmeras analógicas — e também as primeiras digitais — voltaram a ser objeto de desejo. Nada tão radical quanto as técnicas ensinadas por Ailton, mas o interesse pelo universo analógico é crescente.

— O interesse aumentou muito, sim. A gente percebe isso com clareza, especialmente depois da pandemia. Nossa maior clientela é a garotada jovem, adolescentes em geral. Acho que é um cansaço de tantas telas e também a curiosidade de conhecer algo novo — explica o fotógrafo e professor de química aposentado Victor Hugo de Oliveira Cabral, de 86 anos, dono da Centro Foto Copa, loja especializada no ramo desde 1958.

A curiosidade, porém, tem preço. Victor Hugo conta que um filme padrão, com 36 poses, custa em média R$ 100. Uma câmera simples, automática, com flash, sai a partir de R$ 400. A revelação custa mais R$ 68. Pode parecer caro, mas ainda está distante dos custos envolvidos na técnica ensinada por Ailton no IMS — e não por causa do preço da dúzia de ovos.

Parte do processo utilizado por Marc Ferrez em seus trabalhos inclui elementos como prata e ouro. Por isso, no curso, os alunos são estimulados a se organizar coletivamente para dar continuidade à prática: mais pessoas, menor custo individual. Além disso, a Escola Escuta incentiva que os participantes multipliquem o conhecimento adquirido.

— O trabalho com albumina hoje no Brasil é feito basicamente por duas pessoas. É algo muito raro mesmo. Quando pensamos o curso, uma preocupação foi selecionar pessoas que tivessem potencial para multiplicar esse conhecimento — explica Ailton Silva.

A turma do laboratório em 2025 foi formada pelos artistas visuais Urucuia Moura, de 31 anos; Gabe Ferreira, de 29; e Marcelo Rocha, de 56, com o reforço de Thamires Brito, de 27 anos, assistente de Ailton no IMS.

Buracos nas memórias

Nascido em São João de Meriti, Gabe Ferreira, que hoje vive em Vila Isabel, aproximou-se da fotografia a partir de uma inquietação pessoal. Ao revisitar álbuns de família, percebeu que havia “buracos” nas memórias, provocados tanto pelo acesso limitado à fotografia quanto por perdas causadas por enchentes recorrentes no bairro.

— Quando vi a chamada da Escola Escuta, fiquei interessado justamente em entender aquilo que antecede o negativo fotográfico, que é o suporte com o qual mais trabalho — afirma o artista, formado em Letras pela UFRJ, enquanto mostra sua foto impressa à maneira de Ferrez, parte de uma série sobre a Feirinha da Pavuna.

A fotografia, no entanto, não é o único foco da Escola Escuta. Este ano, como nas edições anteriores, haverá formações variadas até novembro. A programação inclui os cursos “Preparação de Obras de Arte”, ministrado por João Gabriel Reis Lemos, e “Impressão Digital”, com Daniel Sias Veloso. Na área de fotografia, a formação será voltada à ampliação analógica em preto e branco. Em outro eixo, estão previstas atividades sobre histórias das artes, incluindo a produção de artes visuais e cinema na Baixada Fluminense.

— O desafio é desencastelar as instituições para que seus saberes sejam compartilhados. Queremos que o IMS abra suas portas e divida seus conhecimentos com pessoas que normalmente não têm acesso a eles. Quando alguém participa de uma oficina e entra em contato com técnicas utilizadas por nomes importantes do nosso acervo, como Marc Ferrez, percebemos um encantamento genuíno. E isso tem muito a ver com a democratização do acesso ao conhecimento — reflete Jorge Freire.