RJ em Foco
Batidão tipo exportação: funk carioca ganha pistas e ruas de Berlim
Projeto fundado por produtores do Rio que vivem na Alemanha transforma festas na capital alemã em vitrines da cultura funkeira
Com o sol a pino, na tarde de um sábado recente, os termômetros marcavam 28°C. Pouco para quem está acostumado ao calor do Rio de Janeiro, mas quente o suficiente para fazer suar em bicas em Berlim. Na área externa da cervejaria Berliner Berg, em Neukölln, na zona sul da capital alemã, pessoas de diferentes nacionalidades — algumas vestindo a camisa do Brasil — dançavam, cada uma a seu modo, na pista de areia. No cenário de clima praiano, entre os gêneros musicais que embalavam o público, destacou-se o batidão carioca inconfundível, de Bonde do Tigrão ao funk 150 BPM.
Os responsáveis pela façanha são DJs formados nas ruas do Rio que, por meio do projeto Baile Cria, se dedicam a espalhar a cultura funkeira na capital alemã.
O coletivo foi fundado pelo designer e produtor cultural Ricardo Cortês, de 41 anos. Cria da Ilha do Governador, ele reuniu outros DJs cariocas para tocar em festas temáticas de funk e afrofunk na cidade alemã. Há pelo menos quatro anos, coloca o público para ouvir música brasileira em eventos como o Samba de Sarjeta, em 2022, e o projeto Maloca, em 2023, de repertório mais amplo. Em abril deste ano, nasceu oficialmente o Baile Cria.
— A ideia é disseminar a cultura do funk em outros contextos. Nossa música não é mero produto de exportação, mas uma potência da nossa cultura. Para os brasileiros, é comunidade e pertencimento. A gente quer dar dignidade a quem criou essa música, ao território de onde ela veio, e contar essa história para as pessoas na Europa — afirma Ricardo, mais conhecido como DJ MDZN, sigla para Maloca da Zona Norte.
Naquele sábado calorento para os padrões locais, o repertório variava entre amapiano — vertente eletrônica sul-africana —, afrohouse e pop. Na hora do funk, no entanto, a pista mudava de figura. As pessoas balançavam os braços e mexiam os quadris, tentando entender como o ritmo funcionava. Pelo menos uma delas rebolava até o chão, de bermuda verde-bandeira. A surpresa logo se desfez: era o niteroiense Douglas Oliveira, de 30 anos, que mora na Alemanha e estava a passeio por Berlim.
— É muito louco ver festa de funk aqui, mas é isso: eles também apreciam o que a gente tem. Já vi várias pessoas com a camisa do Brasil, e a maioria era gringa — contou o dançarino, que caprichou no passinho.
Em outro ponto da pista, as amigas Calli Müller, de 26 anos, e Yenne Strauss, de 25, dançavam sorrindo.
— A gente estava procurando alguma coisa diferente de techno, que Berlim já tem muito. Eu gosto, mas nem sempre é a vibe. O funk é muito divertido de curtir, a energia é totalmente diferente, acho mais amigável. Dá para dançar e curtir com outras pessoas, é ótimo — opinou Calli.
A amiga acompanhou o argumento:
— Em boates techno, as pessoas geralmente estão mais focadas em si. A energia é mais introspectiva e talvez mais séria. O funk é uma expressão mais alegre — disse Yenne.
Uma missão
Ricardo Cortês pisou em Berlim pela primeira vez em 2012, durante uma viagem de mochilão pela Europa, e se encantou. A porta de entrada foi a carreira como desenvolvedor de TI, área de formação em que atuou até 2022, quando começou a despontar o desejo de levar o gingado da musicalidade brasileira para a cidade.
— Foram muitos anos trabalhando em áreas diferentes e muita luta para hoje conseguir viver fazendo cultura brasileira por aqui — conta ele, que foi reunindo, aos poucos, outros cariocas para integrar o coletivo.
Foi o caso de Angélica Xavier, de 35 anos, ou DJ Yandra Furiosa. Cria do bairro de Santa Teresa, ela mora na Alemanha há quatro anos. Tocar funk em Berlim, para a DJ, é uma espécie de missão diplomática.
— O funk do Rio nasceu em um lugar onde as pessoas tinham poucos recursos, mas com uma potência cultural muito forte. É muito mais que música. É identidade, sobrevivência, criatividade — afirma.
Reportagem produzida durante o programa Internationale Journalisten-Programme (IJP), apoiado pelo Ministério de Relações Exteriores da Alemanha.
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