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Paquetá sonha com título da Unesco e aposta na tranquilidade da ilha

Bairro cercado pela Baía de Guanabara, onde nasceu e cresceu Lucas Paquetá, busca reconhecimento como Patrimônio Mundial da Humanidade

Agência O Globo - 13/06/2026
Paquetá sonha com título da Unesco e aposta na tranquilidade da ilha
- Foto: Foto: Gilvan de Souza / CRF

Entre os mais de 200 milhões de brasileiros que torcem pelo hexa, há 3,5 mil moradores de um pequeno bairro do Rio de Janeiro que também se preparam para outra disputa de alcance mundial. Na Ilha de Paquetá, onde o meia Lucas Paquetá nasceu e foi criado, a mobilização vai além das quatro linhas: a comunidade sonha em conquistar o título de Patrimônio Mundial da Humanidade da Unesco, concedido a locais de “valor universal excepcional”.

Banhada pelas águas da Baía de Guanabara, Paquetá é um recanto carioca que parece ter parado no tempo. Em 1,2 quilômetro quadrado, a rotina segue no ritmo das bicicletas. O legado do pintor e paisagista Pedro Bruno (1888–1949) pode ser visto na praça da ilha e em sua antiga casa, hoje transformada em centro cultural. O bairro também preserva parte da história do país no Solar Del Rey, que serviu de residência de verão de Dom João VI e pertenceu ao negociante de escravizados Francisco Gonçalves da Fonseca.

Mesmo reconhecida como Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) desde 1999, Paquetá ainda enfrenta obstáculos para avançar na candidatura à Unesco. A casa de Dom João, que deveria funcionar como biblioteca pública, está fechada desde 2009. Moradores convivem com buracos nas ruas e desmoronamentos nas margens da baía. A Associação de Moradores de Paquetá (Morena) cobra apoio das autoridades para que o bairro possa se apresentar com mais força na disputa.

— Estamos sempre com o pires na mão. Precisamos retomar nossa autoestima. Aqui não é só um lugar bonito e calmo. Para efetivamente conseguir ser candidata, há muitas melhorias que precisam ser feitas e que seriam muito benéficas — afirma Denise Viola, uma das diretoras da entidade.

Menos poluição do ar

Charmosa, Paquetá tem nas ruas de terra batida uma de suas marcas, e não apenas um problema decorrente da falta de asfalto. Na ilha, veículos a combustão são proibidos, com exceção de menos de 20 carros de serviço, como ambulâncias e viaturas. Sem trânsito intenso e buzinas, o transporte é feito por bicicletas, triciclos e carrinhos de golfe licenciados pela prefeitura, os “táxis” que substituíram as charretes com animais há dez anos. A presença crescente de bicicletas elétricas e ciclomotores, no entanto, tem incomodado moradores e afetado o sossego local.

O turismo é o motor da economia da ilha. Moradores mais antigos lembram que, após a construção da Ponte Rio-Niterói, na década de 1970, muitos cariocas passaram a buscar com mais frequência a Região dos Lagos. Nos últimos anos, porém, Paquetá vem sendo redescoberta por visitantes atraídos pelas águas mais limpas da Baía de Guanabara e por um calendário intenso de eventos. Este ano, já estão previstas 12 festas juninas e julinas. No Dia dos Namorados, as pousadas estavam com reservas esgotadas.

Sócio do Tia Leleta, um dos restaurantes mais tradicionais da ilha, Gabriel Gitsin, de 62 anos, também aposta na Copa do Mundo para atrair turistas. Amigo da família de Lucas Paquetá, ele torce para que o jogador ajude a projetar o nome da ilha internacionalmente. Parte da rua já foi decorada com bandeirinhas verdes e amarelas, e os jogos da seleção serão exibidos no estabelecimento.

— Todos nós queremos o hexa. O nome da nossa ilha está lá. Estamos torcendo forte por ele. Todo jogo do Brasil vai ter um evento aqui com música — diz Gabriel.

A contradição é que, apesar da vocação turística, ainda falta estrutura para receber os visitantes. Uma das principais atrações locais é o Parque Darke de Mattos, com árvores centenárias, jardins, trilhas e mirantes. O espaço seria ideal para piqueniques, não fosse o fechamento, há anos, dos dois únicos banheiros públicos da ilha, localizados na entrada do parque.

Guia turístico, Plínio Amaro conta que os visitantes costumam elogiar o clima e as belezas naturais, mas reclamam da falta de infraestrutura.

— Precisa ter um banheiro público no Darke de Mattos — resume.

Outro gargalo histórico é o transporte entre a ilha e o continente. Há duas formas de chegar a Paquetá: por barcos que partem de Itaoca, em São Gonçalo, ou pelas barcas que saem da Praça Quinze, no Centro do Rio. Com a recente troca da concessionária pelo governo do estado, a grade de horários da Praça Quinze ganhou mais uma viagem, mas usuários ainda se queixam das condições das embarcações e dos atrasos.

Sem roubos de celular

A segurança é outro atrativo da ilha. As dezenas de bicicletas deixadas nas ruas sem cadeado contrastam com as 4.662 furtadas no Estado do Rio em 2025. Dados do Mapa do Crime do GLOBO indicam que, no ano passado, também não houve registro de roubos de celular no bairro.

— Quando me mudei definitivamente para a ilha, diziam que eu não iria me acostumar. Mas é fácil se acostumar com coisas boas. Aqui é um dos poucos bairros em que ainda há forte tradição da festa de São Cosme e Damião, por exemplo. As crianças vão batendo de porta em porta e ninguém tem medo de abrir. Onde mais há isso no Rio? — pergunta Taís Mendes, de 63 anos.

Comerciantes e moradores reconhecem que a despoluição das praias é o ponto mais sensível para a revitalização de Paquetá. Dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mostram que, este ano, todas as praias analisadas tiveram períodos em que o banho foi liberado. Ainda assim, o mergulho nem sempre é recomendado, especialmente após chuvas.

A concessionária Águas do Rio informou que universalizou a coleta e o tratamento de esgoto em Paquetá em 2023. Segundo a empresa, as obras contribuíram para a “melhoria da balneabilidade das praias” da ilha. A companhia afirma ainda que investirá, até 2033, mais R$ 2,7 bilhões em saneamento nas cidades do entorno da Baía de Guanabara.

A prefeitura informou que utilizou mais de cinco mil metros quadrados de ensaibramento para tapar buracos nas ruas este ano e que realiza licitação para contratar a empresa responsável por melhorias e manutenção no Parque Darke de Mattos. Sobre o Solar Del Rey, a Secretaria Municipal de Cultura afirmou ter investido R$ 1,6 milhão na primeira etapa da reforma. A segunda fase das obras deve começar no próximo ano.

A Secretaria Estadual de Transporte e o Consórcio Barcas Rio informaram que a linha entre a Praça Quinze e Paquetá “opera com elevados índices de eficiência”, com cumprimento de “99,9% da programação”. Acrescentaram que “a qualidade e a manutenção da frota são constantemente monitoradas, o que resultou, inclusive, em elogios formais dos usuários na Ouvidoria”.