RJ em Foco
TCP é investigado por expulsar moradores e usar imóveis em esquema de lavagem de dinheiro
Justiça determinou bloqueio de R$ 60 milhões e sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens ligados à facção
A Polícia Civil identificou um braço do Terceiro Comando Puro (TCP) suspeito de expulsar moradores do entorno do Morro de São Carlos, no Estácio, na Região Central do Rio de Janeiro, para ampliar o domínio territorial da facção. Segundo as investigações, o grupo usava extorsões, ameaças e intimidação armada contra comerciantes e moradores, obrigando vítimas a vender imóveis por valores abaixo do mercado ou a abandonar as propriedades.
Em um áudio obtido pelos investigadores, uma advogada orienta integrantes da quadrilha sobre obstáculos para regularizar a posse de um imóvel pertencente a um morador apontado como alvo do esquema.
Na gravação, a advogada afirma: “Já tem um processo gravado no imóvel, que é de execução da prefeitura, então a gente não pode entrar direto com a posse sua, porque já está configurada no nome dele. A gente não pode entrar diretamente com um processo de posse em seu nome, porque já existem documentos em nome dele”. Em outro trecho, ela acrescenta: “Teria que colocar uma sucessão dele, obviamente, porque todas as pessoas, inclusive, o conhecem. Além disso, o tabelião iria ao local para fazer essas confirmações. Esse é o risco”.
De acordo com a polícia, a pressão exercida pelo tráfico fazia com que muitos moradores deixassem seus imóveis. Nesses casos, os criminosos tentavam produzir documentos para dar aparência de legalidade à ocupação, alegando que os bens lhes pertenciam ou que estavam sob sua posse havia muitos anos.
Segundo as investigações, o esquema funcionava em cinco etapas. A primeira era a intimidação armada, com extorsões, ameaças e presença ostensiva de criminosos contra comerciantes e moradores. Em seguida, após a criação de um ambiente de medo, ocorria a coação sistemática dos proprietários.
A terceira etapa consistia na venda forçada ou no abandono dos imóveis. Depois, os criminosos usavam empresas com aparência de legalidade para adquirir os bens em nome da organização. Por fim, realizavam a lavagem de dinheiro por meio dessas empresas. Durante a ação desta sexta-feira, três pessoas foram presas em flagrante por receptação.
Entenda a operação
Pelo menos 21 pessoas físicas e jurídicas são investigadas por suspeita de envolvimento no esquema. Os agentes cumpriram 43 mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 60 milhões, além do sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens e valores usados pelo grupo para ocultar patrimônio.
De acordo com a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), o esquema era comandado por chefes do tráfico ligados ao TCP. Quatro deles foram identificados como Leonardo Miranda da Silva, conhecido como Léo Empada; Marcílio Cheru de Oliveira, o Menor Cheru; Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Parazão; e Anderson Rosa Mendonça, o Coelho. Este último está preso à disposição da Justiça por outros crimes.
Segundo a polícia, Parazão é de Belo Horizonte, em Minas Gerais, e está foragido da Justiça mineira. Ele teria recebido apoio do TCP para se esconder em comunidades controladas pela facção no Rio. Rafael também é suspeito de comandar o tráfico no Morro da Mineira e de coordenar a venda de armas entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além dele, Léo Empada e Menor Cheru também tiveram as prisões decretadas e são considerados foragidos.
As investigações apontam que a quadrilha não se limitava ao tráfico de drogas e ao controle armado do Morro de São Carlos. O grupo teria implantado um sistema de exploração econômica contra moradores e comerciantes do entorno da comunidade, impondo medo por meio de ameaças, extorsões e constrangimentos.
Segundo a Draco/IE, as vítimas eram forçadas a deixar seus imóveis para que os bens fossem transferidos a pessoas ligadas ao tráfico. As propriedades, de acordo com a polícia, eram usadas para ampliar o patrimônio dos criminosos e fortalecer a influência do TCP na região.
“Eles coagiam moradores da região periférica do Morro de São Carlos para que deixassem seus imóveis. Percebemos, durante a investigação, que os alvos eram moradores e comerciantes. O que apuramos é que indivíduos ligados ao tráfico exigiam o pagamento de taxas de comerciantes para que pudessem permanecer nos respectivos locais. Alguns moradores eram forçados a abandonar imóveis ou obrigados a vendê-los por preços muito abaixo do mercado. Depois, os bandidos ocupavam esses imóveis e forjavam documentos para caracterizar a posse. Algumas das residências eram destinadas a pessoas ligadas aos traficantes; outras eram alugadas; e algumas transformadas em imóveis comerciais explorados pelo tráfico”, disse o delegado Jefferson Ferreira, titular da Draco/IE.
Segundo o delegado, o avanço de facções criminosas e milícias para áreas no entorno de regiões já dominadas por esses grupos tem sido observado em outras partes do Rio de Janeiro.
“Temos atentado para o avanço das facções criminosas. Estamos combatendo essas expansões”, afirmou o delegado.
As apurações também indicam o uso de empresas de fachada para ocultar e movimentar recursos ilegais da facção. A estrutura de lavagem de dinheiro, conforme a investigação, estaria diretamente ligada à cúpula do TCP e funcionaria como mecanismo para fortalecer o grupo criminoso e sua expansão patrimonial.
As provas reunidas pela Draco apontam a atuação de chefes do TCP na articulação logística com criminosos de Minas Gerais, na coordenação territorial e na estrutura patrimonial e financeira usada para ocultar e reinserir dinheiro do crime na economia formal.
Venda de armas
Além do esquema de lavagem de dinheiro, a investigação identificou uma estrutura voltada à venda de armas, responsável pelo abastecimento de comunidades dominadas pelo TCP. De acordo com a polícia, integrantes da organização atuavam como operadores financeiros, gestores patrimoniais e também exerciam funções relacionadas à negociação, intermediação e aquisição clandestina de armamentos.
Durante a operação, os policiais apreenderam drogas, celulares, computadores, dinheiro e um veículo de luxo. O material foi levado para a sede da Draco, na Cidade da Polícia, no Jacaré.
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