RJ em Foco
Terreiro de Crioulo transforma quintal em Realengo em uma das rodas de samba mais disputadas do Rio
Nascido em chão batido na Zona Oeste, grupo rompeu fronteiras do bairro, conquistou público de outras regiões e se apresenta com frequência em São Paulo
A Rua do Imperador, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, costuma ter a tranquilidade típica de uma via residencial: casas de até dois pavimentos, algumas árvores e pouco movimento. Mas, no primeiro sábado de cada mês, a paisagem muda. A quantidade de carros estacionados aumenta, e um quintal simples, protegido por um muro baixo e discreto, passa a receber uma das rodas de samba mais concorridas da cidade: o Terreiro de Crioulo.
Sem letreiro chamativo na entrada, o espaço reúne amantes do samba de raiz em um ambiente que preserva a atmosfera de quintal, com chão batido, proximidade entre músicos e público e forte presença de referências à ancestralidade afro-brasileira.
— Me sinto aqui como se estivesse no quintal da minha casa. É um clima muito bom, onde se ouve samba de raiz de verdade. Eles construíram uma história bem bacana — afirma o militar Maike Brasileiro Barros, de 29 anos, morador da Vila da Penha.
A roda surgiu em 2014, a partir da fusão de dois projetos de samba: Samba da 400 e Criolice. Desde então, o encontro cresceu e passou a ocupar um quintal com capacidade para até 1.200 pessoas. O sucesso ultrapassou os limites de Realengo, avançou por outros territórios do Rio e chegou também a São Paulo, onde o grupo se apresenta com frequência.
No fim de maio, o conjunto formado por 20 músicos, comandado por PH Mocidade, animou o fim de tarde no Alfa Bar e Cultura, no Boulevard Olímpico, próximo à Praça Quinze. Dias antes, havia sido contratado como atração de um evento fechado no Museu do Amanhã.
— Existia uma resistência do povo do Centro e da Zona Sul de vir para o samba na Zona Oeste. Diziam que era longe demais. Quebramos essa resistência — afirma PH Mocidade.
No primeiro sábado de junho, foi possível constatar a diversidade do público que frequenta o Terreiro de Crioulo. Havia pessoas de diferentes regiões do Rio e até de São Paulo. Entre elas estava o bancário José Leonardo Duarte, de 40 anos, morador da Glória.
— Já me organizo de modo que, no primeiro sábado do mês, eu não tenha nenhum outro compromisso. Gosto do tipo de samba que ouvimos aqui. É aquela coisa tradicional, sem concessões aos modismos. Sem falar que é um terreiro ancestral — pontua.
As marcas dessa ancestralidade aparecem em vários detalhes: nas bancas que vendem bijuterias e objetos de inspiração afro, na decoração do espaço e nas vestimentas dos músicos e de parte dos frequentadores. Em uma das paredes, uma faixa anuncia: “Nossa Pequena África”. Do outro lado, sobre um mapa da África, lê-se: “Terreiro de Crioulo é chão ancestral”.
Para manter essa conexão simbólica com as origens, parte do terreno permanece em chão batido. Segundo PH, a roda é montada no centro do quintal justamente para aproximar músicos e público.
— A gente não quer ficar imprensado contra a parede, num palco, nem ser o artista. Queremos que o povo participe e cante junto. Não nos importamos em tomar banho d’água, cerveja ou refrigerante — diz PH.
O repertório costuma valorizar bambas como Roberto Ribeiro, Almir Guineto, Zeca Pagodinho e outros nomes fundamentais do samba. A procura é tão grande que os ingressos, vendidos pela Sympla a partir de R$ 20, costumam se esgotar rapidamente.
Para quem não consegue acompanhar o Terreiro de Crioulo em sua casa, em Realengo, a alternativa é ficar atento às redes sociais do grupo, onde são divulgadas as apresentações realizadas em outros pontos da cidade e fora do Rio.
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