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Dia dos Namorados no mar: jubartes buscam parceiros e têm filhotes no litoral do Rio
Neste ano, as baleias começaram a aparecer mais cedo, em maio, quando o usual seria a partir de junho
Sejam jovens ou mais maduros, para as baleias-jubarte o período é de sedução. No mar, a estação do romance é todo vapor e vai muito além do Dia dos Namorados. No litoral do estado do Rio de Janeiro, ela se estende até agosto. Neste ano, esses animais apareceram mais cedo, em maio, quando o habitual seria em junho, em busca de parceiros e para dar à luz filhotes gerados em encontros do ano anterior.
A jubarte faz jus ao apelido de cantora. Seu encanto vai além dos saltos espetaculares, dos esquichos e da exibição de nadadeiras colossais. Elas têm canções, dialetos e sotaques que, um pouco, vêm sendo decifrados por pesquisadores. Também chegam ao Brasil em número cada vez maior, para alegria de moradores e turistas.
— O Brasil tem hoje a maior população de jovens do mundo. Eles voltaram a aparecer no litoral do Rio de Janeiro há cerca de dez anos e são mais numerosos a cada ano. Redescobrem um litoral que já foi deles. Após chegarem quase ao extermínio, é uma alegria ver animais essas espetaculares de volta — afirma Enrico Marcovaldi, diretor do Projeto Baleia Jubarte (PBJ), que atua há quase quatro décadas e é pioneiro na conservação e pesquisa desses cetáceos.
Na segunda expedição do ano do PBJ no município do Rio, realizada na última terça-feira, foi possível avistar, sem grande dificuldade, 12 animais. Eram adolescentes aprendendo a rota brasileira, caminho ancestral pelo litoral do estado.
As jubartes passam seis meses se alimentando na Antártica, onde consomem krill, diminuto crustáceo de águas geladas que é base da cadeia alimentar marinha antártica. Nos outros seis meses do ano, rumam para o Brasil para se reproduzir e dar à luz em águas mais quentes e rasas, numa jornada de cerca de 4 mil milhas apenas na ida.
Elas passam pelo litoral do Sul e do Sudeste até chegar à Bahia. Em novembro, retornaram às águas da Antártica. Durante o período em águas brasileiras, não se alimentam. A prioridade é a reprodução.
Essa meta tem sido bem-sucedida, livre do massacre promovido no passado pelo ser humano. Quando a caça de cetáceos — não apenas de jubartes — foi finalmente proibida no Brasil, em 1987, restavam cerca de 2 mil baleias. Hoje, segundo Marcovaldi, elas já somam aproximadamente 35 mil. O número ainda está distante da abundância do passado, mas indica um futuro promissor.
— As baleias estão sendo vistas com mais facilidade no Rio porque há mais jubartes no mar. Antes, eram tão poucas que passavam despercebidas — destaca Marcovaldi.
Avistar jubartes no litoral já não é tão difícil. Há quem tenha fotografado os animais da janela de casa, em Ipanema. No mar, com sorte, também é possível ouvi-las — e não apenas escutar o borrifo que fazem ao emergir para respirar. De forma geral, a jubarte vem à superfície a cada quatro a oito minutos, embora possa permanecer submersa por mais que o dobro desse tempo, se quiser.
Os sons emitidos por eles, em alguns casos, podem ser ouvidos fora d'água, quando se aproximam da superfície durante o canto. No oceano, essas vocalizações se propagam por milhares de quilômetros. A jubarte é, em muitos sentidos, a voz do oceano.
Serenatas, poemas e ervilhas
O namoro das jubartes precisa de serenata. Apenas os machos cantam. Eles compõem melodias de 12 a 14 minutos, que podem repetir por horas para seduzir as fêmeas. E nada de samba de uma nota só: a melodia da jubarte tem estrutura definida, com pequenas unidades repetitivas chamadas “frases”, organizadas em temas maiores, numa sequência específica. São como poemas, em que cada tema funciona como uma estrofe.
A fêmea é maior que o macho e, segundo pesquisadores, bastante exigente. As melodias também precisam inovar a cada ano para atrair sua atenção.
— A cada ano, elas incorporam os filhos que escutam em suas longas jornadas pelo oceano. Sons da natureza, como os ruídos dos peixes e do próprio oceano, e também os produzidos por seres humanos, como os motores de navios — explica o pesquisador do PBJ Pedro Froes.
Já mães e filhotes se comunicam como se sussurrassem, provavelmente para não chamar a atenção de predadores. Um jubarte é um gigante, mas seus filhotes, mesmo nascendo com cerca de quatro metros e engordando aproximadamente 100 quilos por dia, são vítimas de ataques de orcas. Menores, eles atacam em grupo. Marcovaldi lembra que as orcas, conhecidas por sua inteligência, também frequentam o litoral do Rio. Um grande macho apelidado de Capitão é bem conhecido pelos pesquisadores.
Há ainda filhos de alimentação, de alerta e outros menos compreendidos pela ciência. Froes acrescenta que diferentes situações de jubartes têm seus próprios dialetos e sotaques. O dialeto das baleias que vem para o Brasil pode ser distinguido, por exemplo, do das equatorianas. Em geral, como jovens de uma população mantêm a mesma rota por toda a vida. Por isso, existem jubartes brasileiras, chilenas e equatorianas.
Os cientistas monitoraram as vozes das baleias com microfones especiais instalados na água e também com a tecnologia de “etiquetas”, que revolucionou o estudo desses animais. Fixadas por ventosas, elas enviam dados de localização por satélite, áudios, vídeos e informações sobre o estado de saúde dos animais, explica Froes.
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