RJ em Foco
Mesmo após demolições, grupo ligado à milícia continuou vendendo terrenos na Pedra Branca
Denúncia aponta que esquema de lotes clandestinos movimentou patrimônio milionário e levou MP a pedir bloqueio de R$ 27 milhões
Por trás da promessa de terrenos regularizados em uma área verde de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, o Ministério Público afirma ter identificado uma organização criminosa que combinava grilagem, corrupção policial, uso de laranjas e atuação de milicianos para vender loteamentos ilegais no entorno do Parque Estadual da Pedra Branca.
A investigação descreve que a organização criminosa teria atuado desde 2016. Para os promotores, o grupo não se limitava à prática de crimes ambientais ou estelionato. O esquema tinha estrutura empresarial, com divisão de tarefas, responsáveis financeiros, intermediadores de vendas, operadores de máquinas, parentes usados como laranjas e agentes públicos encarregados de repassar informações estratégicas.
No centro dessa estrutura, segundo a denúncia, aparece Milton de Souza Junior, conhecido como Miltinho. De acordo com o Ministério Público, ele se apresentava como proprietário de uma extensa área localizada na região do Rio da Prata, em Campo Grande, onde passou a desenvolver um empreendimento batizado de Viva Verde, também chamado de Vila Verde Residencial.
O Ministério Público afirma, porém, que Milton não figurava como proprietário formal do terreno nos registros imobiliários. Ainda assim, teria conduzido a venda de centenas de lotes por meio de contratos particulares, empresas de fachada e intermediários que atuavam como corretores de imóveis.
Segundo o g1, Milton foi preso no âmbito da investigação. Também foram presos os policiais civis Marcos Eduardo Maia, Marcello Carvalho de Menezes e Leonardo da Silva Machado, suspeitos de envolvimento na organização. Os três, assim como o policial militar Wendel Vale de Oliveira e outras 11 pessoas, foram denunciados. Entre os alvos de mandados de busca também está um delegado da Polícia Civil.
A quadrilha fazia ofertas consideradas sedutoras aos compradores: terrenos em uma área arborizada, cercada pela natureza e destinada à construção da casa própria. O problema, segundo a investigação, é que os lotes estavam inseridos na zona de amortecimento do Parque Estadual da Pedra Branca, onde qualquer ocupação depende de rígido controle ambiental e urbanístico.
Embora a denúncia identifique, até o momento, prejuízo superior a R$ 846 mil às vítimas já localizadas, os promotores afirmam que a dimensão financeira do esquema era muito maior. Segundo cálculos do Ministério Público, caso todos os lotes fossem comercializados, o lucro da organização poderia chegar a R$ 27 milhões.
Para os investigadores, o valor ajuda a explicar a sofisticação da estrutura montada para manter o negócio em funcionamento mesmo após embargos ambientais, demolições promovidas pela prefeitura e sucessivas investigações.
De acordo com os promotores, os loteamentos continuaram avançando mesmo após notificações ambientais, embargos administrativos, fiscalizações do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), ações do Ministério Público e operações da prefeitura. Em setembro de 2021, a Prefeitura do Rio realizou uma grande ação de demolição no local. Máquinas derrubaram construções erguidas irregularmente na área, em uma operação amplamente divulgada à época. Ainda assim, segundo a investigação, o grupo continuou atuando.
O Ministério Público afirma ainda que o grupo investigado mantinha ligação com a milícia liderada por Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, atualmente preso. A venda de terrenos e loteamentos ilegais é descrita pelos promotores como uma das atividades exploradas dentro da área de influência do grupo paramilitar.
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