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Como o Complexo da Maré virou central de crimes do TCP, segundo a polícia

Na Operação Trinus, realizada nesta quarta-feira, foram presos 25 suspeitos, apreendidos cinco fuzis e duas pistolas, além de recuperados 27 carros e 22 motocicletas.

Agência O Globo - 11/06/2026
Como o Complexo da Maré virou central de crimes do TCP, segundo a polícia
Polícia faz operação na Maré para cumprir mais de 50 mandados contra o TCP - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma investigação da Polícia Civil aponta que o Terceiro Comando Puro (TCP) transformou dez favelas do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em uma central de crimes. Cercada por algumas das principais vias expressas da cidade, a região passou a ser usada, segundo os investigadores, para esconder criminosos mediante pagamento de “aluguel”, receber carros, cargas e celulares roubados, abrigar escritórios de mineração de criptomoedas e de aplicação de golpes, além de servir à venda e ao inquérito de drogas.

De acordo com a polícia, a diversificação das atividades criminosas tem como objetivo ampliar os lucros da facção. Nesta quarta-feira, policiais civis e militares realizaram a Operação Trinus para cumprir 56 mandados de prisão. Ao todo, 25 suspeitos foram capturados. Os agentes também apreenderam cinco fuzis e duas pistolas e recuperaram 27 carros e 22 motocicletas.

Houve intensa troca de tiros na chegada de policiais às comunidades. O funcionamento de mais de 40 escolas e de três postos de saúde foi afetado. Passageiros que estavam na Estação Fiocruz do BRT, na Avenida Brasil, precisaram se jogar no chão para se protegerem de disparos. Não há informações sobre feridos entre moradores ou suspeitos.

Os principais alvos da operação — Michel de Sousa Oliveira , conhecido como Mangolé; Alexandre Ramos Nascimento , o Pescador; e Leandro de Sousa Nunes , apontados como chefes de facção na Maré — não foram localizados.

Operação mirou seis frentes de atuação

A ação é resultado de seis meses de investigação da 21ª DP, em Bonsucesso, e foi organizada em seis frentes para atingir uma estrutura montada pelo TCP para obter receita. A principal delas teve como foco os roubos de carga.

Segundo a polícia, há uma espécie de consórcio entre criminosos da Maré e do Complexo da Pedreira, na Pavuna, que atua em ataques a tráfegos na Avenida Brasil e nas linhas Vermelha e Amarela, com divisão dos lucros. Parte dos produtos adquiridos, alegando o investigador, é negociada no Baile da Disney, inclusive conhecida na Vila do João.

— Essa é uma característica muito comum: atuar em parceria. Eles podem ir para outro terreno de atuação porque ali também existe uma quadrilha da mesma facção — explicou o delegado Tiago Dorigo , da 21ª DP.

Outra parte do material adquirido é vendida em estabelecimentos da própria Maré. Segundo Dorigo, a área dominada pela TCP no complexo passou a funcionar como um “verdadeiro shopping center de veículos e cargas roubadas”.

— Muitos desses negócios pertencem a familiares dos chefes da facção. Uma parte das cargas roubadas é escoada imediatamente para abastecer essas lojas — afirmou o delegado.

Baile da Disney teria papel estratégico

De acordo com a investigação, o Baile da Disney ocupa posição estratégica na especificação econômica do TCP. Realizado aos sábados no campo da Vila do João, o evento se tornou conhecido pela decoração temática inspirada em personagens infantis, além de pirotecnia, atrações circenses e apresentações musicais.

Os investigadores tiveram acesso a imagens em que mais de 40 criminosos armados com fuzis aparecem circulando em meio ao público.

— Esse ambiente é utilizado para venda de material roubado, onde a facção criminosa ostenta forte poder bélico e vários cantores fazem apologia ao crime, o que fortalece cada vez mais essas facções — disse Dorigo.

Mineração de criptomoedas e escritórios de golpes

Durante a operação, policiais encontraram um escritório de mineração de criptomoedas na Vila do João. A estrutura, que reúne computadores de alta potência usados ​​para validar transações digitais, é considerada pela polícia uma estratégia mais recente de obtenção de lucro.

No fim de maio, outra fazenda de mineração foi localizada no Complexo do Lins, também na Zona Norte, área controlada pelo Comando Vermelho. Equipamentos desse tipo costumam ter consumo elevado de energia.

— Essas quadrilhas estão sempre buscando novas formas de aumentar lucros. Tudo que é novidade e que der dinheiro, não importa se na ilegalidade, eles vão praticar ou abrir espaço para que pessoas especializadas usufruam da proteção deles para praticar o crime — explicou Dorigo.

A polícia suspeita que o escritório pagava “aluguel” à facção para funcionar dentro da comunidade. Também será investigado se o tráfico usou aplicações em bitcoins para lavar dinheiro.

— Tornou-se seguro se instalar dentro dessas comunidades e abrir um escritório do crime. Os mais variados tipos de golpistas e estelionatários saíram do centro da cidade e abriram escritórios em comunidades, porque souberam da dificuldade que a polícia tem para realizar transações — afirmou o delegado.

Celulares roubados tinham metas de produtividade

Outra frente da operação é uma rede organizada de roubo e recepção de celulares. Segundo a investigação, os criminosos receberam armas e motocicletas roubadas para praticar assaltos e eram obrigados a cumprir metas condicionais pela facção.

As vítimas, de acordo com a polícia, foram coagidas a fornecer a senha dos aparelhos ainda durante os roubos. Depoimentos coletados pelos pesquisadores indicam que celulares desbloqueados podiam ser vendidos por até R$ 2,5 mil. Já os aparelhos bloqueados foram negociados por até R$ 600.

Durante a ação, os policiais também localizaram duas estufas com 300 pés de maconha e um laboratório usado para a mistura e o processamento de cocaína.