RJ em Foco
Alta de passagens e combustíveis impulsiona caronas por aplicativo no Rio
BlaBlaCar soma 520 mil usuários ativos no estado; Detro-RJ classifica serviço como transporte ilegal
Passageiros que pegam a estrada a lazer ou a trabalho têm voltado a atenção — e levado as malas — para os serviços de uma plataforma de carona remunerada. A alta nos preços dos combustíveis, motivada pela guerra no Oriente Médio, e o consequente impacto no custo das viagens de ônibus têm impulsionado o uso da BlaBlaCar, reconhece Tatiana Mattos, presidente da empresa no Brasil.
Atualmente, a plataforma reúne 520 mil usuários ativos no estado do Rio de Janeiro, o quarto com mais adeptos no país, atrás apenas de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo, líder do ranking.
Despesas divididas
A plataforma francesa, lançada no Brasil há 11 anos, atua em 22 países e reúne cerca de 90 milhões de membros. A proposta é o compartilhamento de custos: motoristas que já fariam determinado percurso oferecem carona em troca de uma ajuda para as despesas da viagem.
— O objetivo é dividir as despesas do deslocamento, sem fins lucrativos, conectando pessoas que têm o mesmo destino e contribuindo para uma mobilidade mais acessível e eficiente — explica Tatiana Mattos.
Apesar dessa proposta, já há usuários que utilizam a BlaBlaCar de forma profissional. É o caso de Alexandre Gonçalves, que trabalhava como motorista de aplicativo na capital. Ele começou a usar a plataforma para dividir custos quando voltava de Quissamã, no interior do estado, onde deixava parentes em uma casa da família. Há dois anos, mudou-se para lá e passou a tirar o sustento das caronas.
— Faço Macaé-Rio e Rio-Macaé umas duas vezes ao dia. Vivo hoje de BlaBlaCar. É melhor do que trabalhar com carro de aplicativo. A rentabilidade é maior, mas a carga horária é grande — afirma.
Na capital fluminense, um dos pontos escolhidos por motoristas para oferecer caronas fica no entorno da Rodoviária do Rio, no Santo Cristo. Morador de Campos, David Muller, que trabalha embarcado como operador de rádio, foi um dos passageiros que se deslocaram até a região. Ao aguardar na porta de um galpão na Rua Equador, precisou ligar para o motorista e descobriu que o ponto de encontro correto era um posto de gasolina a cerca de 300 metros, em uma rua próxima.
— O BlaBlaCar foi R$ 60. Se eu fosse de ônibus, seria o dobro — disse David.
De acordo com o site da BlaBlaCar, o preço médio da carona do Rio para Macaé é de R$ 62, enquanto o ônibus convencional custa pelo menos R$ 72. Até Cabo Frio, a viagem pelo aplicativo sai por R$ 55, contra passagens de ônibus a partir de R$ 81. Para Angra dos Reis, o valor no app é de R$ 49, ante R$ 87 do ônibus.
Modo de usar
A plataforma afirma que o valor pago é destinado integralmente ao condutor na maior parte do Brasil. Desde o ano passado, porém, a empresa passou a implantar taxas de serviço e planos de assinatura para alguns grupos de usuários.
Para acessar o serviço, é preciso baixar o aplicativo e fazer um cadastro com e-mail, CPF e data de nascimento. A inclusão de uma foto de perfil e o envio do documento cadastrado, por imagem ou PDF, ajudam “a construir confiança, incentivando os membros a viajarem com você”, informa mensagem exibida no app.
A partir do cadastro, é possível oferecer ou pegar carona. No caso do motorista, é necessário informar origem e destino — que podem ser pontos movimentados da cidade ou locais próximos à residência —, além do trajeto, da data da viagem e do valor cobrado. O modelo do veículo e eventuais restrições, como cigarro e transporte de animais, também são indicados.
Já o passageiro, ao informar data, origem e destino, é direcionado a uma página com opções de horários, valores, nome e foto do motorista, avaliado por até cinco estrelas. No perfil, também é possível verificar se o condutor costuma cancelar viagens com frequência, uma das reclamações entre usuários.
O arquiteto Jadilson Aires, de 52 anos, a caminho de Macaé, diz que esse risco ainda o impede de aderir integralmente à carona.
— Ainda dou preferência ao ônibus porque acho mais certo. Quando tenho compromisso, o BlaBlaCar pode atrasar, cancelar, e fico com certo receio. Do Rio para Macaé, há vários horários, então é tranquilo. Mas, quando vou de Vitória para Macaé, prefiro o ônibus — avalia Jadilson, que estima que a carona reduza em pelo menos uma hora o tempo de viagem até o Norte Fluminense.
Segundo a empresa, a “confiabilidade da comunidade” é um de seus pilares. A lógica, afirma a plataforma, é a de que imprevistos acontecem, mas cancelamentos recorrentes, especialmente em cima da hora, podem resultar em penalizações, como suspensão ou banimento da conta. Essas situações devem ser reportadas pelos usuários.
Os amigos Rafael Perissé e Victor Maldonado trabalham embarcados em um hotel flutuante e moram em Itaperuna. Para eles, “cada minuto em terra conta”. Victor admite certa desconfiança ao viajar com um motorista desconhecido, mas avalia que a economia de tempo compensa.
— A agilidade de chegar cedo em casa é o incentivo — afirma.
Rafael entende que o risco é semelhante ao de embarcar em um ônibus.
— Ali no carro, você corre risco com um só. No ônibus, é com 48 — compara.
A presidente da BlaBlaCar afirma que a segurança é a principal prioridade da empresa, que adotou um selo de perfil verificado após múltiplas etapas de checagem dos usuários. O suporte ao cliente funciona sete dias por semana. A plataforma também oferece a funcionalidade “Só para Elas”, para que mulheres viajem com outras mulheres.
‘Transporte ilegal’
A popularização da plataforma é acompanhada de embates judiciais em outros estados, como Rio Grande do Sul e Paraná. No Rio de Janeiro, o órgão responsável por disciplinar a modalidade é o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio (Detro-RJ).
O Detro-RJ enquadra a BlaBlaCar como “transporte ilegal”, por entender que a plataforma “disponibiliza previamente rotas, horários e pontos de embarque e desembarque”, o que a aproximaria “de um serviço coletivo com comercialização de assentos, e não de transporte individual privado”.
Já a Semove — nome atual da Fetranspor, federação das empresas de transporte do Rio — afirma que a “evolução da mobilidade urbana passa pela valorização do transporte público frente ao transporte individual”.
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