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Palacete e jardins da Casa Firjan, em Botafogo, viram Patrimônio Cultural Brasileiro

Com projeto original de 1906, casarão foi presente de casamento a Celina Guinle e Linneo de Paula Machado

Agência O Globo - 10/06/2026
Palacete e jardins da Casa Firjan, em Botafogo, viram Patrimônio Cultural Brasileiro
Casa Firjan

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, por unanimidade, o tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado e de seus jardins, atual sede da Casa Firjan, como Patrimônio Cultural Brasileiro.

Os conselheiros também recomendaram que o nome de Celina Guinle seja incorporado à designação oficial do imóvel, em reconhecimento à sua importância histórica. Celina recebeu dos pais, Eduardo e Guilhermina Guinle, o casarão como presente de casamento. Com a mudança, o espaço passa a se chamar Palacete Celina Guinle e Linneo de Paula Machado e seus jardins.

Localizado em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o imóvel recebe, em média, 20 mil visitantes por mês. O público conhece a história do palacete, cujo projeto original é de 1906, visita exposições em alguns de seus 30 cômodos e aproveita a tranquilidade dos jardins, que ocupam 7.577 dos 8.202 metros quadrados do terreno.

— O palacete é extremamente importante em termos urbanísticos porque tem uma qualidade arquitetônica e paisagística muito elevada. É, sobretudo, um exemplar riquíssimo de uma arquitetura eclética do início do século XX, que retrata com muita clareza o que era a paisagem urbana do bairro de Botafogo e da cidade do Rio de Janeiro. Para nós, é uma expressão muito importante da arquitetura da época — afirmou a superintendente regional do Iphan-RJ, Patrícia Corrêa.

Refúgio em meio à cidade

Frequentado diariamente por idosos, adultos e crianças, o espaço é visto por muitos visitantes como um refúgio silencioso em meio à rotina intensa do Rio. A grama aparada e a sombra de árvores centenárias atraem famílias que buscam contato com a natureza.

A nutricionista Rafaella Barbosa Lellis, de 28 anos, moradora de Botafogo, conta que leva o filho Caetano, de 1 ano e 1 mês, aos jardins do palacete pelo menos a cada 15 dias para que ele conviva com outras crianças e explore o ambiente ao ar livre.

— Eu o deixo livre para explorar o espaço, porque sei que aqui dentro é seguro, e ele ama — disse.

A babá Josefina Leite também considera o local ideal para levar as meninas de 1 e 4 anos das quais cuida.

— Elas pedem para vir e choram quando temos que ir embora — contou.

O novo patrimônio cultural brasileiro também atrai turistas, como a gerente operacional Caroline Sodré, de 29 anos, e a contadora Ana Carolina, de 31, ambas do Pará.

— Se eu morasse no Rio, viria ao palacete todos os fins de semana — afirmou Caroline.

— Além de toda a beleza e calmaria, o espaço agrega a parte histórica e cultural da cidade — completou Ana Carolina.

O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, destacou que o palacete de fachada cor-de-rosa foi um importante ponto de encontro para industriais no século passado.

— Ele segue conectando, gerando diálogos, emitindo alertas e promovendo a indústria. Foi erguido por Eduardo Palassim Guinle, patriarca da influente família Guinle no Brasil e fundador da Companhia Docas de Santos. Está, portanto, na veia dessa casa a sua relação com a indústria — declarou.

Patrícia Corrêa também ressaltou detalhes estéticos do imóvel, além da conhecida escada em caracol do hall central.

— A riqueza dos detalhes de azulejos daquela casa é algo impressionante. A família Guinle teve uma importância muito grande na conservação desses azulejos, que datam do fim do século XIX e compõem a maior parte dos ambientes da casa. Os pisos também são todos originais. A casa é um exemplar extremamente importante, e tudo foi muito bem restaurado e executado pela Firjan. Por isso, é tão importante o tombamento arquitetônico inicialmente — explicou.

Segundo a superintendente regional do Iphan, o tombamento do mobiliário do palacete deverá ser proposto em uma segunda etapa. Com o reconhecimento federal, o casarão passa a ser protegido nas três instâncias. O imóvel já era tombado pelo estado, desde 2006, e pela prefeitura, desde 1987.

— Conservamos, preservamos, restauramos e adaptamos com total respeito à importância desse prédio de carga histórica tão forte. Seguimos todas as orientações e referências de diversos órgãos de patrimônio, conseguindo transformar o palacete em um espaço funcional, que entrega à comunidade serviços e reflexões sobre inovação, futuro e nova economia — afirmou a gerente-geral da Casa Firjan, Cristiane Alves.

O livro “Casa Firjan - Viva o Futuro Hoje”, de Clóvis Bulcão de Moraes e Carlos Fernando Andrade, relata que o projeto original do palacete, de 1906, foi desenvolvido pelo arquiteto John Oberg. Ao receber a mansão como presente de núpcias, em 1910, Celina decidiu ampliar a futura residência.

Coube ao arquiteto Armando Carlos da Silva Telles detalhar serviços como pintura, forração e decoração interna, além de demolição e reconstrução da fachada lateral. Em 1925, ano da morte de Guilhermina Guinle, Celina encomendou um acréscimo no térreo. A nova reforma incluiu alterações internas assinadas pelo arquiteto francês Joseph Gire.

Restauração e adaptação

Com a restauração e a adaptação que transformaram o palacete na Casa Firjan, inaugurada em 2018, foram instalados elevador, novos banheiros, equipamentos de segurança contra incêndio e pânico, além de sistemas de ar-condicionado, automação e informática. Um anexo moderno também foi construído.

Os antigos cômodos foram adaptados para novos usos, com preservação dos revestimentos originais de pisos e paredes. Armários de louça passaram a abrigar livros, e a copa foi transformada em restaurante.

Entre os 30 cômodos do casarão, no térreo, foi montada a Sala Lucy e Luiz Carlos Barreto, que recebe eventos e projetos de cinema, com exibições de filmes. Nas salas Celina e Guilherme, também no térreo, acontecem exposições recorrentes. Já a Sala Firjan, no segundo andar, abriga uma exposição permanente sobre a história da casa.