RJ em Foco
Pedreiros mortos por policiais em São Gonçalo gravaram vídeo no trabalho horas antes
Marcelo da Cruz Silva e Edivan Felipe de Assis foram baleados pela polícia no Jardim Catarina; moradores relatam mais de 30 tiros.
Horas antes de serem mortos em São Gonçalo, o gesseiro Marcelo da Cruz Silva e o pedreiro Edivan Felipe de Assis registraram em vídeo um dia tranquilo de trabalho, enviando as imagens para amigos. No dia 27 de maio, ambos saíram de casa levando ferramentas e marmitas para mais um expediente em uma obra em Niterói. No caminho, foram abordados por agentes do 7º Batalhão (Alcântara), que dispararam contra eles após confundirem uma régua de obra com um fuzil. A investigação está sob responsabilidade da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí.
'Covardia'
No local onde os corpos ficaram expostos, vizinhos registraram a disposição dos objetos e relataram que foram mais de 30 disparos, sem qualquer abordagem prévia. A polícia apreendeu a régua que seria utilizada no trabalho, e os policiais envolvidos foram afastados das funções, estando sob investigação.
— A esposa dele ficou em choque ao ver o marido desfigurado. É desumano. Como mais de cinco policiais não conseguem abordar uma moto com dois homens em baixa velocidade? Era uma moto velha, eles estavam com o capacete no braço. E foram assassinados. A comunidade segue à mercê do sistema. Só quem mora na favela entende. Eles eram trabalhadores. A polícia matou e ainda queria colocá-los no Caveirão. Os moradores impediram, ou eles não teriam nem direito à perícia — relatou uma moradora, acrescentando que policiais tentaram jogar as ferramentas de trabalho dos pedreiros em um valão da comunidade.
Além das ferramentas, os dois levavam um tripé de suporte nível, utilizado na construção civil, e uma régua de metal para alinhar paredes. Segundo testemunhas, parte do tripé, que é dobrável, estava com a ponta para fora da mochila, o que pode ter levado os policiais a confundirem o objeto com um fuzil.
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj acompanha o caso "com extrema indignação" e classificou como "inadmissível" a morte dos trabalhadores durante a operação do 7º BPM (São Gonçalo). Em nota, a comissão defendeu a necessidade de apuração imediata dos fatos e a divulgação das imagens das câmeras corporais dos policiais envolvidos.
“O caso exige investigação rigorosa, perícia técnica imediata e divulgação das imagens das câmeras corporais dos agentes envolvidos. É inadmissível que trabalhadores sejam mortos pelo Estado enquanto saem para garantir o sustento de suas famílias”, afirmou a comissão.
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