RJ em Foco
Drones de carga, bunker na mata e criptomoedas: como o Comando Vermelho expandiu suas frentes de atuação no Rio
Facção atua além do tráfico tradicional de drogas e busca ampliar poder territorial, capacidade logística, fontes de financiamento e influência
Drones capazes de transportar o equivalente a 20 fuzis, treinamento com técnicas trazidas da guerra na Ucrânia, uma fazenda clandestina de mineração de criptomoedas, infiltração em estruturas políticas, avanço para áreas fora das favelas e a exploração bilionária de serviços de internet sob ameaça e violência. As investigações e operações reveladas nos últimos meses mostram que o Comando Vermelho (CV) vai além do tráfico tradicional de drogas e busca ampliar poder territorial, capacidade logística, fontes de financiamento e influência, enquanto mantém sob proteção alguns dos principais chefes da facção escondidos nos complexos da Penha e do Alemão, Zona Norte do Rio.
'CV busca ser PCC, e TCP busca ser CV':
Após confronto entre facções rivais:
Drones de guerra e treinamento com técnicas da Ucrânia
As investigações da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança identificaram que traficantes do Complexo do Alemão adquiriram. Os equipamentos têm capacidade para carregar até 80 quilos — peso equivalente a cerca de 20 fuzis FAL ou AR-15 —, autonomia de até 12 milhas e custo superior a R$ 200 mil por unidade.
Traficantes do Comando Vermelho compram drones com capacidade para transportar até 20 fuzis entre favelas;
Imagens captadas por uma aeronave da Polícia Militar flagraram um treinamento com um drone de aproximadamente três metros de comprimento cercado por pelo menos dez pessoas momentos antes da descolagem. Segundo a polícia, o treinamento seria ministrado por um brasileiro que retornou da guerra na Ucrânia após atuar por pelo menos um ano como voluntário no conflito contra a Rússia.
A aponta inteligência que ele passou a repassar técnicas militares aos planos e chegou ao apresentador Edgar Alves de Andrade, o Doca, membro da cúpula do CV, com uma placa balística utilizada por ele no front europeu. A preocupação das autoridades é que os equipamentos permitam o transporte de armas e drogas entre territórios controlados pela facção sem necessidade de deslocamentos terrestres sujeitos à interceptação policial.
Fazenda de criptomoedas encontrada no mercado do Complexo do Lins
Durante mais uma fase da Operação Contenção, realizada nesta sexta-feira no Complexo do Lins, policiais civis localizaram uma estrutura clandestina de . O espaço abrigava coleções de computadores utilizados para validar transações de bitcoin e outras moedas digitais. Segundo o pesquisador, todos os equipamentos estavam ligados a uma rede improvisada de energia, reduzindo custos de uma atividade conhecida pelo elevado consumo elétrico.
Polícia encontra fazenda de mineração de criptomoeda no Complexo do Lins;
A descoberta ocorreu durante uma intervenção externa contra membros do Comando Vermelho investigados por tráfico de drogas, roubos de veículos, assaltos a pedestres, ataques a instituições bancárias e vigilância armada dos acessos à comunidade. A polícia afirma que o grupo monitorava em tempo real deslocamentos de viaturas, blindados e aeronaves e utilizava canais restritos de comunicação para transmitir ordens operacionais e coordenar ações criminosas.
Central de desbloqueio de celulares
Em março do ano passado, uma operação no Morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, encontrou uma central clandestina de desbloqueio de celulares na favela, dominada pelo Comando Vermelho. No endereço foram encontrados 200 aparelhos adquiridos e furtados.
A central funcionava em um cômodo escondido atrás de um bar, um local discreto utilizado para esconder a atividade criminosa. A polícia foi inicialmente até o endereço para apreender drogas, no entanto, acabou esbarrando na central de desbloqueio, que era utilizada para modificar os IMEIs (número único de cada aparelho) e revender os celulares roubados.
Na central, os agentes apreenderam softwares e equipamentos usados para desbloquear ilegalmente os aparelhos — inclusive modelos iPhone, conhecidos por suas barreiras de segurança. Segundo a polícia, os criminosos enviavam links falsos, simulando e-mails oficiais da Apple, para enganar as vítimas e obter acesso às contas.
Além disso, programas automatizados permitiram que robôs testassem inúmeras senhas codificadas até conseguirem destruir os celulares. Em muitos casos, no momento do roubo, as vítimas foram coagidas a fornecer senhas ou retirar bloqueios de segurança, facilitando a ação criminosa.
Infiltração política
Outro capítulo das investigações envolve uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente da Segundo a acusação, eles teriam atuado para obstruir investigações relacionadas ao Comando Vermelho por meio do repasse de informações confidenciais sobre operações policiais.
PGR denuncia Bacellar, TH Joias e desembargador Macário Júdice
Ao STF, defesa de Macário Júdice
Um dos episódios relatados envolve a Operação Zargun, deflagrada pela Polícia Federal em setembro do ano passado para investigar supostas ligações de TH Joias com a facção. Conforme a denúncia, o ex-deputado teria tomado conhecimento antes da ação e retirado computadores e equipamentos de seu gabinete antes do cumprimento dos mandatos.
Em fevereiro, a Polícia Federal já havia indicado os investigados. Segundo as apurações, TH Joias utilizaria o mandato parlamentar para favorecer os interesses do crime organizado, sendo acusado de intermediar negociações envolvendo drogas, fuzis e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão. As defesas negam irregularidades.
Novas células do CV
O avanço do Comando Vermelho também passou a ser observado em áreas urbanizadas fora das favelas tradicionais. Em Jacarepaguá, que bastou pouco mais de um mês para a facção consolidar presença em uma área de aproximadamente 55 mil metros quadrados entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana, região historicamente dominada pela milícia.
Como nasce o medo:
Segundo os relatos, a ocupação começou na virada para 2026, quando homens armados percorreram ruas efetuando disparos para o alto e anunciando a chegada da facção. Moradores e comerciantes afirmaram que muitos dos membros do grupo cresceram na própria região e passaram a utilizar essa proximidade para impor cobranças e ameaças.
Há relatos de extorsões, fechamento de estabelecimentos comerciais, expulsão de trabalhadores e cobrança diária de dinheiro para funcionamento de negócios locais. Os especialistas classificaram as especificações como um estágio de "território sob influência", marcado pela circulação armada, imposição de ordens e extorsões antes da instalação de estruturas permanentes de controle territorial.
Domínio da internet
As investigações sobre a exploração clandestina mostram outra frente econômica cada vez mais relevante para organizações criminosas. Levantamento do GLOBO aponta que facções e milícias já atuam nesse mercado em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses, alcançando cerca de 40% do território estadual. A prática, que surgiu em áreas dominadas por milicianos, teria sido posteriormente reproduzida em maior escala pelo Comando Vermelho.
Exploração do sinal de internet por traficantes e milicianos já alcança 40% do Estado do Rio;
Empresas que se recusam a pagar taxas ou perdem espaço para operadores ligados ao crime passaram a ser alvo de represálias. Somente nos primeiros quatro meses deste ano foram registrados incêndios contra veículos, escritórios e instalações de empresas de internet em Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá.
As investigações mostram dois modelos de atuação: em alguns locais, grupos criminosos assumem diretamente a exploração do serviço por meio de empresas próprias ou de terceiros; em outros, cobram taxas de operadoras legalizadas para permitir o funcionamento.
Segundo a Secretaria de Segurança, apenas nas regiões de Muzema, Rio das Pedras e Gardênia Azul foram identificadas 18 empresas explorando o serviço, e a arrecadação mensal estimada dos grupos criminosos com essa atividade chega a R$ 3 milhões.
Cúpula protegida nos complexos da Penha e do Alemão
Grande parte dessas estruturas criminosas continua orbitando em torno dos principais chefes da facção escondidos nos complexos da Penha e do Alemão. A Delegacia de Homicídios da Capital descobriu recentemente as investigações sobre uma emboscada que matou cinco policiais civis e militares durante a operação de 28 de outubro de 2025. Entre os indiciados estão . Segundo a polícia, Doca integra a cúpula do Comando Vermelho e possui 317 notas criminais e 43 mandados de prisão.
Indiciados por mortes de cinco policiais no Complexo da Penha,
Gadernal é apontado como responsável pela gestão financeira, logística, segurança e execução de ordens da organização, enquanto Pedro Bala seria o braço operacional e gerente-geral do grupo, encarregado de ordenar confrontos armados para manutenção do domínio territorial. Somados, os três acumularam 69 mandados de prisão.
A investigação concluiu que os crimes montaram uma emboscada na região da Vacaria, na Vila Cruzeiro, e buscaram atingir o maior número possível de agentes de segurança envolvidos na operação. Sete suspeitas que trocaram tiros com os agentes foram presos em uma estrutura de concreto, espécie de bunker na área de mata.
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