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'CV busca ser PCC, e TCP busca ser CV': subsecretário chama traficantes de novos 'senhores feudais'; entenda

O comentário do delegado Flávio Britto foi feito durante seminário sobre Segurança Pública com presença de autoridades municipais, estaduais e do governo federal na FGV

Agência O Globo - 22/05/2026
'CV busca ser PCC, e TCP busca ser CV': subsecretário chama traficantes de novos 'senhores feudais'; entenda
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ao diagnosticar o crime organizado no Rio, o delegado Flávio Britto, subsecretário de Inteligência de Estado da Secretaria de Polícia Civil (Sepol/RJ), disse que o Comando Vermelho (CV) incorporou a forma de atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC). Já o Terceiro Comando Puro (TCP), por sua vez, seguiu os passos do CV, na avaliação dele. Ainda são definidos os traficantes como novos “senhores feudais”, durante seminário sobre Segurança Pública realizado na FGV, em Botafogo, Zona Sul do Rio, nesta sexta-feira. No encontro, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, apresentou o “Brasil contra o crime organizado”, programa que prevê R$ 11 bilhões contra organizações criminosas em todo o país, com prioridade para o Rio.

Em São Gonçalo:

Operação mira chefes do tráfico do CV:

O encontro reuniu autoridades municipais, estaduais e federais. Em comum entre as análises, há a percepção de que, no universo do crime organizado, o tráfico de drogas perde cada vez mais em importância para a exploração comercial desenvolvida em diferentes setores.

— Já detectamos exploração de combustível por parte de facção aqui no Rio de Janeiro. Só que, em geral, é fragmentado. Não é uma coisa institucionalizada como o PCC faz. O CV hoje busca ser o PCC do ponto de vista financeiro, assim como o TCP busca ser o CV do ponto de vista organizacional. Estamos caminhando a largos passos para um processo de capitalização semelhante ao do México, à medida que, se o Comando Vermelho continuar a expansão nacional no nível em que está hoje, eu tenho certeza absoluta de que, em 10, 15 anos, eles vão começar a olhar para o lado, que é São Paulo — inspirado. — Quando o Comando Vermelho, com o poder de armamento que tem, olhando para São Paulo, o PCC vai ter dificuldade de segurar.

O delegado avaliou ainda que o contexto atual é de fragmentação da soberania do estado e comprometimento da democracia.

— Hoje, nem chamo mais (os criminosos) de traficantes ou narcotraficantes. Para mim, são senhores feudais do crime, porque sabem que são donos do território e procuram-lo para que ele se torne intransponível, sob a bandeira do CV ou do TCP, por exemplo. E, ali dentro, há todo um tipo de atividades econômicas que geram lucro e receitas girando em prol desse sistema — destacado.

Importação de crimes e terceirização do tráfico

Flávio Britto chamou a atenção para uma manifestação que tem assistido nos últimos cinco anos: a importação de chefes criminosos de outros estados, como Bahia e Ceará.

— Isso acontece sobretudo por conta da interação nos presídios federais. A Rocinha e os complexos do Alemão e da Penha cometeram grandes crimes de bunkers. E temos mais dois se formando, um do PCC, que é o Complexo de Israel, e outro do CV, o Complexo do Salgueiro. E as facções daqui, principalmente o Comando Vermelho, não fazem isso de graça. Ou passa a ter acesso à rota que o crime tem em seu estado ou começa a participar do tráfico naquele município, com o objetivo de implantar a mesma lógica criminosa que funciona no Rio — analisou. — Há comunidades no Rio onde o tráfico já foi terceirizado e não é mais operado pelo dono do morro. Na Rocinha, boa parte do tráfico é comandada por homens do Ceará.

O ex-comandante-geral da Polícia Militar do Rio, o coronel Ubiratan Angelo disse que, há muito tempo, a atividade do PCC é empresarial:

— O Comando Vermelho aprendeu com o PCC e com a milícia a utilizar o território para fazer dinheiro, de empresariar. Há muito tempo, a atividade do PCC é empresarial. Basta ver o grande investimento da facção em gasolina. Então, hoje o que temos no Rio é, com razão, a utilização do território conflagrado para fins econômicos.

Saiba mais:

'Infiltração do crime em empresas legalmente invasivas'

Procurador do estado há 25 anos e atual presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), Rafael Rolim definindo a segurança pública como “o maior problema” do Rio.

— Vivemos uma sofisticação muito grande do crime organizado, por meio de empresas legalmente contidas e infiltração na estrutura do poder público — afirmou.

Rolim casou-se com a carga num contexto de devassa de órgãos públicos promovida pelo desembargador Ricardo Couto. Desde que se tornou governador em exercício, Couto fez exonerações em cargas de comissão com restrição do grupo político encabeçado pelo ex-governador Cláudio Castro e o ex-deputado Rodrigo Bacellar, este preso na operação da Polícia Federal que investiga a relação entre políticos e o Comado Vermelho.

Presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), Couto chegou ao cargo de governador interino em 23 de março, após Castro renunciar ao cargo para concorrer ao Senado Federal. Desde então, já foram mais de duas mil exonerações em órgãos públicos.

Na Cedae, Rafael Rolim substituiu Aguinaldo Ballon. A gestão anterior investiu R$ 200 milhões no banco Master.

— Há 40 dias, fui convidado para o cargo, com uma missão difícil, mas fundamental hoje, de enfrentar uma situação de absoluta falência moral do estado, com a normalização do “é assim, sempre foi assim e sempre será assim”. Agora, estamos tentando dar um recado para a sociedade fluminense e brasileira de que, sim, é possível no Rio enfrentarmos a situação posta, enfrentar o crime organizado. A saída do Rio não passa pelo Aeroporto do Galeão, mas por que a sociedade entenda o diagnóstico e possa, cada um na sua parte, enfrentar esse problema — pontuou o procurador.

Escritório para Segurança Pública no Rio

Em relação à infiltração do crime no setor empresarial, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, chamou a atenção da permeabilidade de ramos como os fundos de investimento.

— A única maneira de combater isso é estarmos atentos e suprirmos os déficits de orientação no mercado financeiro, estabelecendo regras que inibam a permissividade sem paralelo em outros países. Temos que unir dados, fazer os cruzamentos e tomar providências legais diante de ilegalidades, como bloqueios — disse o ministro.

Wellington César Lima e Silva anunciou que o ministério está constituindo escritórios contra o crime organizado em todo o país, incluindo o Rio de Janeiro. Nesta tarde, ele e o governador em exercício se reuniram para discutir o assunto.

— Estamos pesquisando um local no Rio para fazermos isso logo. Essa medida proporcionará agilidade e proximidade com as forças policiais. Isso, somado a ao menos duas operações nacionais de asfixia financeira por mês, trazem resultados imediatos e diários.

'Brasil contra o crime organizado'

De acordo com o ministro, o programa “Brasil contra o crime organizado” atuará em quatro frentes. Uma delas é a asfixia financeira, com articulação de órgãos como Banco Central, Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), um exemplo do que ocorreu na operação Carbono Oculto. A segunda é a melhoria de 138 unidades prisionais, o que, segundo o ministro, representa 10% dos presídios, que são 1.380, 17%,8% da população carcerária e 80% das lideranças criminosas do país. Para atingir esse objetivo, uma das medidas é o investimento em tecnologia para interromper o fluxo de comunicação dos presos com o mundo externo. O terceiro aspecto é aumentar o esclarecimento de homicídios, com investimento nas polícias técnico-científicas. E o quarto é o reforço no combate ao tráfico de armas.