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Filho descobre cadáver de um homem enterrado no lugar do de sua mãe, no Rio

Caso é investigado pela 72ªDP. Cadáver de Vera Lúcia Ribeiro da Silva, que morreu de infecção estomacal aos 68 anos em 2022, foi trocado pelo de um homem em 2024

Agência O Globo - 22/05/2026
Filho descobre cadáver de um homem enterrado no lugar do de sua mãe, no Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em São Gonçalo, um homem descobriu que o corpo de sua mãe, que seria exumado, foi substituído por um cadáver masculino. O desaparecimento da ossada de Vera Lúcia Ribeiro da Silva aconteceu no Cemitério Municipal São Miguel, um dos principais da cidade da Região Metropolitana do . Seu filho, Alexandre Ribeiro da Silva, de 54 anos, levou o caso à polícia e registrou a ocorrência no último dia 15 de maio. Nesta sexta-feira, a administração do cemitério revelou que em 2024 outro cadáver foi sepultado na mesma cova. O caso é investigado pela 72ªDP (Neves).

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— Ela morreu em 2022. Até o enterro, tudo aconteceu normalmente. Anotamos o número do jazigo, assim como a administração do cemitério registrado. Fomos informados de que teríamos que voltar dali há três anos. Em março de 2025, eu retornei. Quando chegamos, um funcionário chamado num andaime, foi até a gaveta, que fica na parte de cima, e disse que o corpo dela ainda estava com matéria e que ainda não era possível fazer a exumação. Ele perguntou: "Você quer ver?" Como era um funcionário informando, eu disse que acreditava nele e que não queria vê-la naquele estado. Ele, então, fechou a gaveta e disse para voltarmos à administração para marcar para um ano à frente. A todo momento eu dizia que era o corpo da minha mãe. Ela era espírita. Então, enterramos cmo um vestido branco. O corpo que encontramos lá era de alguém de calça, blusa e com uma arcada dentária com aparelho nos dentes — relata Alexandre Ribeiro da Silva.

O filho, de 54 anos, iria proceder com a exumação do corpo para levar os restos mortais de Vera Lúcia para o Cemitério Parque da Paz, em Niterói. Ele e funcionários do cemitério São Miguel devolveram os livros de registro de sepultamentos dos últimos três anos. Nesta semana, houve a constatação de que uma administradora do cemitério deixou outro corpo, em 2024, ter sido enterrada onde sua mãe foi sepultada dois anos antes.

— Com o desaparecimento do corpo dela, estamos praticamente vivendo o luto de novo. Removemos o corpo dela para enterrar junto com o do meu pai, que está em outro cemitério. Era um desejo dela. É triste. Agora como é que vamos encontrar os restos mortais? Estou perdendo as esperanças, mas queremos justiça. Não quero que outras pessoas passem pelo que passei — desabafa Alexandre, que acrescenta: — Com essa informação do sepultamento de 2024, desconfio de que quando eu fui lá no ano passado, já não era o corpo dela.

Há mais de um ano, por conta de outras denúncias, uma investigação na linha de vilipêndio e ocultação de cadáver foi aberta na cidade. À época, o delegado titular da 72ª DP era Fábio Luiz da Silva Souza. Em abril deste ano, a delegação foi assumida por Mario Lamblet. Mais denúncias chegaram à polícia, abrindo novas linhas de investigação. No município de São Gonçalo, familiares que visitam com frequência alguns cemitérios da cidade especulam a existência de uma máfia.

Há ainda a desconfiança de figuras políticas da região de que a exposição da desorganização nos cemitérios da cidade abra caminho para a prefeitura reformular a gestão com interesse em licitações milionárias. Em abril deste ano, uma licitação de R$ 385 milhões anunciada pelo governo de São Gonçalo foi suspensa pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) após denúncias de irregularidades. O município busca uma empresa para gerenciar os cemitérios da cidade há 25 anos, mas técnicos do corte voltaram a encontrar no edital os mesmos candidatos de direcionamento selecionados num pregão em 2023, que foi considerado ilegal pelo órgão.

Em 2019, a Prefeitura de São Gonçalo firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público para criar uma política pública voltada para a gestão dos cemitérios da cidade. O prefeito Capitão Nelson — pai do pré-candidato ao governo do Rio (PL) — decidiu então, em 2022 e 2023, conceder à iniciativa privada quatro unidades: São Gonçalo, São Miguel, Pacheco e Santa Isabel, que fazem, em média, seis mil sepultamentos por ano. As duas licitações foram judicializadas e consideradas ilegais pelo TCE.

Participação na Receita

Este ano o município tentou realizar a licitação pela terceira vez. O edital prevê uma outorga mínima de R$ 3 milhões, mais uma variável de 2% das receitas mensais. E, mais uma vez, a contratação foi judicializada e interrompida pelo Corte de Contas. Desta vez, os técnicos encontraram duas irregularidades que abrem suspeitas sobre uma tentativa de direcionar a licitação milionária. O novo edital e o anterior delimitam a concorrência a empresas que comprovem ter profissionais registrados no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) ou no Conselho de Engenharia e Agronomia (Crea), com comprovação de terem trabalhadores em serviços semelhantes à gestão de cemitérios.

“Causa preocupação por evidenciar que o caso não envolve a mera insatisfação de um interessado, mas a existência de uma profusão de questionamentos sobre o certo, tanto por parte de licitantes como por parte do Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços Funerários, proporcionando o caráter controverso das amplitudes editalícias”, destacou a conselheira Marianna Willeman, relatora do processo no TCE, ao suspender o pregão.