RJ em Foco
Filho descobre cadáver de um homem enterrado no lugar do de sua mãe, no Rio
Caso é investigado pela 72ªDP. Cadáver de Vera Lúcia Ribeiro da Silva, que morreu de infecção estomacal aos 68 anos em 2022, foi trocado pelo de um homem em 2024
Em São Gonçalo, um homem descobriu que o corpo de sua mãe, que seria exumado, foi substituído por um cadáver masculino. O desaparecimento da ossada de Vera Lúcia Ribeiro da Silva aconteceu no Cemitério Municipal São Miguel, um dos principais da cidade da Região Metropolitana do . Seu filho, Alexandre Ribeiro da Silva, de 54 anos, levou o caso à polícia e registrou a ocorrência no último dia 15 de maio. Nesta sexta-feira, a administração do cemitério revelou que em 2024 outro cadáver foi sepultado na mesma cova. O caso é investigado pela 72ªDP (Neves).
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— Ela morreu em 2022. Até o enterro, tudo aconteceu normalmente. Anotamos o número do jazigo, assim como a administração do cemitério registrado. Fomos informados de que teríamos que voltar dali há três anos. Em março de 2025, eu retornei. Quando chegamos, um funcionário chamado num andaime, foi até a gaveta, que fica na parte de cima, e disse que o corpo dela ainda estava com matéria e que ainda não era possível fazer a exumação. Ele perguntou: "Você quer ver?" Como era um funcionário informando, eu disse que acreditava nele e que não queria vê-la naquele estado. Ele, então, fechou a gaveta e disse para voltarmos à administração para marcar para um ano à frente. A todo momento eu dizia que era o corpo da minha mãe. Ela era espírita. Então, enterramos cmo um vestido branco. O corpo que encontramos lá era de alguém de calça, blusa e com uma arcada dentária com aparelho nos dentes — relata Alexandre Ribeiro da Silva.
O filho, de 54 anos, iria proceder com a exumação do corpo para levar os restos mortais de Vera Lúcia para o Cemitério Parque da Paz, em Niterói. Ele e funcionários do cemitério São Miguel devolveram os livros de registro de sepultamentos dos últimos três anos. Nesta semana, houve a constatação de que uma administradora do cemitério deixou outro corpo, em 2024, ter sido enterrada onde sua mãe foi sepultada dois anos antes.
— Com o desaparecimento do corpo dela, estamos praticamente vivendo o luto de novo. Removemos o corpo dela para enterrar junto com o do meu pai, que está em outro cemitério. Era um desejo dela. É triste. Agora como é que vamos encontrar os restos mortais? Estou perdendo as esperanças, mas queremos justiça. Não quero que outras pessoas passem pelo que passei — desabafa Alexandre, que acrescenta: — Com essa informação do sepultamento de 2024, desconfio de que quando eu fui lá no ano passado, já não era o corpo dela.
Há mais de um ano, por conta de outras denúncias, uma investigação na linha de vilipêndio e ocultação de cadáver foi aberta na cidade. À época, o delegado titular da 72ª DP era Fábio Luiz da Silva Souza. Em abril deste ano, a delegação foi assumida por Mario Lamblet. Mais denúncias chegaram à polícia, abrindo novas linhas de investigação. No município de São Gonçalo, familiares que visitam com frequência alguns cemitérios da cidade especulam a existência de uma máfia.
Há ainda a desconfiança de figuras políticas da região de que a exposição da desorganização nos cemitérios da cidade abra caminho para a prefeitura reformular a gestão com interesse em licitações milionárias. Em abril deste ano, uma licitação de R$ 385 milhões anunciada pelo governo de São Gonçalo foi suspensa pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) após denúncias de irregularidades. O município busca uma empresa para gerenciar os cemitérios da cidade há 25 anos, mas técnicos do corte voltaram a encontrar no edital os mesmos candidatos de direcionamento selecionados num pregão em 2023, que foi considerado ilegal pelo órgão.
Em 2019, a Prefeitura de São Gonçalo firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público para criar uma política pública voltada para a gestão dos cemitérios da cidade. O prefeito Capitão Nelson — pai do pré-candidato ao governo do Rio (PL) — decidiu então, em 2022 e 2023, conceder à iniciativa privada quatro unidades: São Gonçalo, São Miguel, Pacheco e Santa Isabel, que fazem, em média, seis mil sepultamentos por ano. As duas licitações foram judicializadas e consideradas ilegais pelo TCE.
Participação na Receita
Este ano o município tentou realizar a licitação pela terceira vez. O edital prevê uma outorga mínima de R$ 3 milhões, mais uma variável de 2% das receitas mensais. E, mais uma vez, a contratação foi judicializada e interrompida pelo Corte de Contas. Desta vez, os técnicos encontraram duas irregularidades que abrem suspeitas sobre uma tentativa de direcionar a licitação milionária. O novo edital e o anterior delimitam a concorrência a empresas que comprovem ter profissionais registrados no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) ou no Conselho de Engenharia e Agronomia (Crea), com comprovação de terem trabalhadores em serviços semelhantes à gestão de cemitérios.
“Causa preocupação por evidenciar que o caso não envolve a mera insatisfação de um interessado, mas a existência de uma profusão de questionamentos sobre o certo, tanto por parte de licitantes como por parte do Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços Funerários, proporcionando o caráter controverso das amplitudes editalícias”, destacou a conselheira Marianna Willeman, relatora do processo no TCE, ao suspender o pregão.
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