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Ruas 'blinda' comissões que tratam de orçamento na Alerj com ex-secretários de Castro em meio a articulação pré-eleitoral
Criação de colegiado para fiscalizar gastos públicos e mudanças na Comissão de Orçamento que trata da LDO 2027 são vistas por deputados como tentativa do presidente da Casa de ampliar protagonismo político antes da eleição de 2026
As mudanças promovidas pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Douglas Ruas (PL), em comissões que tratam do orçamento do estado acirraram os bastidores políticos da Alerj e ampliaram as críticas de deputados da oposição e até de setores da direita. A avaliação nos corredores do Parlamento é que o movimento de Ruas faz parte de uma estratégia para transformar a Casa em vitrine política às vésperas da eleição de 2026, período em que o parlamentar tenta ganhar protagonismo para viabilizar sua pré-candidatura ao governo do estado.
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A principal mudança ocorreu com a instalação, nesta quinta-feira, da Comissão Especial de Fiscalização de Gastos Públicos, criada por Ruas um dia antes. O colegiado será presidido pelo deputado Jair Bittencourt (PL), ex-secretário de Governo da gestão Cláudio Castro, enquanto a relatoria ficará com o deputado Alan Lopes (PL) relatoria ficará com o deputado Alan Lopes, que não possui histórico de atuação na área orçamentária. Na Alerj, o parlamentar integrou comissões como as de Saneamento Ambiental e Conselho de Ética e Decoro Parlamentar.
Nos bastidores da Casa parlamentares afirmam que a escolha de aliados ligados ao antigo núcleo do governo Castro reforça a percepção de que a comissão poderá funcionar como plataforma política num momento em que o orçamento estadual e o ajuste fiscal ganharam centralidade no debate fluminense.
Jair Bittencourt deixou a Secretaria de Governo no fim de março, após permanecer apenas uma semana no cargo. Antes, havia comandado a Secretaria estadual de Desenvolvimento Regional do Interior, Pesca e Agricultura Familiar.
Mudança na comissão de orçamento e finanças da Alerj
Enquanto a nova comissão especial foi criada com discurso voltado ao controle de despesas e equilíbrio fiscal, a Alerj já possui a tradicional Comissão de Orçamento, Finanças, Fiscalização Financeira e Controle, responsável por analisar as contas do estado e projetos como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O colegiado é presidido pelo deputado Gustavo Tutuca (PP), outro ex-integrante do primeiro escalão de Castro.
Tutuca ocupou a Secretaria estadual de Turismo em dois períodos — entre novembro de 2020 e março de 2022 e novamente de janeiro de 2023 até março deste ano — além de já ter comandado a Secretaria de Ciência e Tecnologia em 2015.
Deputados da Casa afirmam que a montagem das duas comissões acabou concentrando o debate fiscal nas mãos de parlamentares que integraram recentemente o governo estadual. Um dos movimentos que mais geraram reação interna foi a saída do deputado André Corrêa (PSD) da Comissão de Orçamento para a entrada de Tutuca, mudança atribuída diretamente a Ruas por parlamentares ouvidos reservadamente.
O ex-progressista, no entanto, não foi o único a perder o posto na Casa. O deputado Vinícius Cozzolino, que deixou o União Brasil e também foi para o PSD de Paes, perdeu o cargo de titular na Comissão de Orçamento para Bruno Dauaire (União).
Desconforto entre deputados
A criação da nova comissão também provocou desconforto no PSD, do ex-prefeito Eduardo Paes. Segundo relatos de bastidores, integrantes da bancada resistiram inicialmente em indicar um nome para o colegiado justamente pelo receio de que a comissão fosse utilizada como instrumento político. Ao final, o partido decidiu indicar a deputada Célia Jordão, que já integrou o PL antes de migrar para o PSD. A indicação da parlamentar aconteceu como um saída amigável do partido de participar dos debates.
'Ruas é HD vivo do govero'
Nesta quinta-feira, durante o expediente final da sessão plenária, o tema provocou um embate entre parlamentares. O deputado Vitor Júnior afirmou que Ruas seria o “HD vivo” da gestão estadual dos últimos anos, em referência à passagem do presidente da Alerj pela Secretaria estadual das Cidades no governo Castro.
— Ele (Ruas) é o HD vivo de tudo que aconteceu no estado do Rio de Janeiro nesses últimos três anos. Falar que quer requerimento para apurar o orçamento da Casa? Ele assumiu há três meses. O que ele fez no orçamento da Casa? Nada. Ele fez no orçamento do estado como secretário das Cidades. Ele pode colaborar para a gente entender o que foi o orçamento nos últimos três anos — declarou Vitor Júnior (PDT).
O parlamentar discursava em defesa da abertura de uma CPI para investigar contratos de radares eletrônicos do Detran. Durante a fala, questionou a diferença de valores entre licitações realizadas em 2022 e 2025 para contratação de equipamentos.
A declaração provocou reação imediata do deputado Filippe Poubel, líder do PL na Casa e aliado de Ruas. Poubel acusou Vitor Júnior de incoerência ao se colocar como opositor do antigo governo.
— Vossa Excelência também era deputado do coração do governador Cláudio Castro. Tinha indicação no Detran de Niterói, cargos no Segurança Presente, entre outros — rebateu.
Deputados avaliam que a ofensiva de Ruas ocorre após o fracasso da tentativa de assumir interinamente o governo estadual. Com a saída de Cláudio Castro no fim de março, o Executivo passou a ser comandado pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, terceiro na linha sucessória. Ruas chegou a recorrer ao Supremo Tribunal Federal para assumir o Palácio Guanabara, mas o pedido foi negado.
Busca por popularidade
Aliados do presidente da Alerj defendiam que a ocupação temporária do governo poderia ampliar sua visibilidade e fortalecer uma eventual candidatura ao Palácio Guanabara. Pesquisas internas do PL indicariam, segundo deputados, que parte significativa do eleitorado fluminense ainda desconhece Ruas. O que acendeu o sinal de alerta sobre ações que pudessem alavancar seu nome no estado.
Embora o cenário sucessório para o Palácio Guanabara ainda esteja em estágio embrionário, a primeira pesquisa Genial/Quaest, divulgada pelo GLOBO em abril de 2026, já desenha o primeiro esboço da disputa. O atual presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), desponta como o principal antagonista de Eduardo Paes (PSD), registrando entre 9% e 11% das intenções de voto.
Apesar de consolidar o posto de "nome da direita" com o aval direto do senador Flávio Bolsonaro, Ruas tem pela frente o desafio de furar a bolha da Região Metropolitana. Atualmente, o parlamentar é um ilustre desconhecido para 71% do eleitorado fluminense.
No meio político, também há leitura de que as recentes mudanças promovidas por Ricardo Couto no primeiro escalão do governo atendem não apenas a critérios administrativos, mas à necessidade de reorganizar a máquina estadual antes do prazo eleitoral de 4 de julho. A partir dessa data, a legislação restringe nomeações, exonerações e movimentações de pessoal para evitar uso político da estrutura pública durante a campanha.
Deputados da direita passaram a interpretar as trocas em secretarias estratégicas como uma tentativa de “enxugar” a máquina e reduzir eventual influência de Ruas caso ele venha a assumir o governo nos próximos meses. Ao mesmo tempo, parlamentares observam que o calendário eleitoral começa a pressionar a tramitação de projetos econômicos na Alerj, especialmente a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que precisa ser aprovada antes do recesso parlamentar.
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