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Rio ganha nesta quarta-feira centro cultural dedicado à memória e à arte negra, com exposição de artista da Rocinha

Espaço num sobrado da Gamboa vai abrigar uma galeria para expor trabalhos de artistas pretos e periféricos e salas de aula com cursos sobre a história negra

Agência O Globo - 13/05/2026
Rio ganha nesta quarta-feira centro cultural dedicado à memória e à arte negra, com exposição de artista da Rocinha
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Com uma exposição na qual o artista plástico Geleia da Rocinha faz uma releitura de oito retratos de africanos escravizados feitos originalmente em 1869 pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel, em Recife, será inaugurado nesta quarta-feira, às 17h, no Centro Cultural Pretos Novos, na Gamboa. O novo espaço dedicado à memória e à arte negra e que se integra ao circuito da herança africana naquela região da cidade, será aberto num dado que tem uma dupla simbologia: 0s 21 anos da fundação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), publicado em 2005, e os 138 anos da assinatura da Lei Áurea, em 1888.

Confusão em bar:

Sena:

O novo centro cultural vai funcionar num sobrado de dois andares, na rua do Livramento, 119. Na parte de baixo, num espaço com 160m², funciona uma galeria de arte que recebe prioritariamente trabalhos de artistas negros e periféricos, além de espaço para saraus e um clube de leitura. Na parte de cima, distribuídos em uma área de 200 m², serão oferecidas salas de aula, onde serão ministrados cursos sobre a história e a cultura negra, além de auditório, estúdio de podcast e um espaço para palestras.

O local é uma extensão do Museu Memorial do Instituto Pretos Novos, onde já foram realizadas palestras e os cursos. A diferença é que o novo espaço agora é muito maior e poderá receber um público mais amplo. No antigo endereço, na Rua Pedro Ernesto, permaneceu a curada da arqueologia, dos laboratórios, da reserva técnica e da biblioteca.

seu:

— Vamos ampliar o memorial. Vai ser uma divisão de tarefas. Quem visita aqui (IPN) visita lá (centro cultural) e vice-versa. Infelizmente, a gente não conseguiu nada aqui do nosso lado para ampliar o imóvel, então teve de ir para o outro lado da rua. Mas é bom porque a gente faz uma pequena caminhada até lá — brinca Merced Guimarães, presidente do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN).

O prédio foi obtido em regime de comodato e as obras para deixá-lo em condições de receber o público a partir desta quarta-feira foram realizadas com a ajuda de doações. Merced diz que ainda espera por parcerias, algumas já prometidas, para fazer algumas melhorias.

Entenda:

Artista de renome internacional

Nascido e criado na Rocinha, José Jaime Costa já foi auxiliar de pedreiro, porteiro e vigilante. Mas foi a paixão pela pintura, nutrida desde a infância, que o fez se tornar reconhecida internacionalmente. Sem nunca ter feito uma aula de pintura, o artista plástico, que atende pelo apelido de Geleia da Rocinha, já teve trabalhos expostos nos Estados Unidos, na Alemanha, na Suíça, na Dinamarca, em Portugal e até no Japão. A parceria dele com o Instituto Pretos Novos vem de longa data. Ele foi um dos primeiros a expor no local.

A nova exposição “Memória à Flor da Tela”, com as oito obras inéditas da Geleia da Rocinha, terá a curaria de Marco Antonio Teobaldo. Em seu trabalho — pinturas em acrílica sobre MDF —, os personagens são retratados em figuras divinas, adornados com símbolos e núcleos ligados aos orixás do Candomblé. A mostra deverá permanecer em cartaz pelos próximos três meses, com visitação gratuita entre 10h e 18h.

Mobilidade:

—Ele (Geleia) faz essa releitura e coloca esses escravizados anônimos numa situação sagrada. Ele forma, afirma assim, esse panteão com esses personagens que criam e traz uma certa dignidade a essas pessoas que foram no anonimato — explica o curador Marco Antônio Teobaldo. — Geleia tem essa característica, é uma autodidata, criada da Rocinha e traz essa tradição que não passa muito pelo convencionalismo dos museus nem das academias. É um artista que tem seu trabalho forjado na rua, nos terreiros, nas festas e nessas memórias coletivas — conclui.

O Instituto Pretos Novos (IPN) funciona num imóvel do século XVIII na Rua Pedro sob o qual foi descoberto um sítio arqueológico com mais de 40 mil ossadas, onde antes trabalhou um cemitério de escravizados. O achado destruído aconteceu em 1996, seis anos depois de Merced ter comprado a casa e resolvido reformar o imóvel. Foi então que encontraram fragmentos de ossos humanos misturados a vestígios de cerâmica, vidro, ferro e outros materiais. Veio daí a ideia de transformar aquele espaço num centro de memória dos povos negros que vieram escravizados para o Brasil.