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Dia da Terra: artista quilombola Marcelo Firmino cria bichos como pacas, antas e onças, com árvores mortas

Natureza do Parque Estadual Cunhambebe, na Costa Verde fluminense, é transformada em esculturas de madeira

Agência O Globo - 22/04/2026
Dia da Terra: artista quilombola Marcelo Firmino cria bichos como pacas, antas e onças, com árvores mortas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Onde se veem árvores mortas, há quem enxergue bichos. Pacas, tamanduás-mirins, antas, onças, passarinhos e o que mais traz a biodiversidade da Floresta Atlântica. De troncos e galhos tirados de destroços emergem pelos, patas, bicos, penas pelas mãos do escultor Marcelo Firmino.

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O artista que dá uma nova vida às árvores mortas é de uma comunidade quilombola de Mangaratiba, no Parque Estadual Cunhambebe, na Costa Verde fluminense. A natureza, para ele, é berço. E seu trabalho tem contribuído para que crianças que desconhecem a floresta possam apreciar um pouco da Mata Atlântica. Poucos personagens, portanto, podem simbolizar tão bem o Dia da Terra, celebrando de apoio ao meio ambiente lembrado pela ONU a cada 22 de abril.

Firmino, de 55 anos, como suas obras, passou por muitas transformações. Nasceu e cresceu na comunidade quilombola das Fazendas Santa Justina-Santa Izabel, mas foi estudar na cidade. Virou petroleiro. Até um dia, no fim dos anos 1990 do século passado, deparou-se com esculturas de animais num salão de hotel. Achei que poderia fazer igual. Ou até melhor. Deixou o emprego e voltou para sua comunidade.

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Talento e aulas de arte

Seu trabalho chamou a atenção do gerente do Parque Estadual Cunhambebe, Ivan Cobra. Isso alertou Debora Mendonça, da Meta Florestal Vale, que apoia a educação ambiental em unidades de conservação no Estado do Rio e tem uma parceria com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

— Ivan nos falou sobre um artesão muito talentoso que esculpia os animais do parque. Mas viver de arte é muito difícil. Firmino estava quase desistindo quando o chamamos para ser fornecedor do projeto de educação ambiental. Foi um sucesso estrondoso — conta Debora.

E foi assim que os bichos de Firmino foram pararem em escolas do Estado do Rio, seguirão para outras de Minas Gerais (no entorno da Reserva Biológica da Mata Escura), para exposições e casas de clientes do Brasil fora.

Quando vê uma árvore morta, Firmino imagina como poderia lhe devolver a vida. Vida na forma de bicho.

— Eu aprendi a escutar a floresta. Deixo o animal ir aparecendo, nunca tenho uma ideia pré-determinada. Há troncos que são perfeitos para virar uma paca, um quati, um gavião-de-penacho. É preciso observar o formato da madeira e pensar no movimento do bicho, seja um lagarto, um sapo, um peixe ou uma onça — explica Firmino.

Ele nunca tira as árvores do próprio Cunhambebe, uma unidade de conservação. Trabalha com as removidas de condomínios próximos e, muitas vezes, mortas em penetração, frequentes nas encostas da região.

— Deslizar é uma coisa triste. Mesmo que não morra gente, morrem árvores, bichos. Então, acho que transformar em esculturas essas árvores mortas também é uma forma de conservar — diz o escultor.

Ele também trabalha com as muitas árvores derrubadas em desmatamentos locais legalizados para a construção de casas. Há graças em que uma árvore morta em pé, da qual restou somente o toco, é esculpida enraizada e tudo.

— Meus pais me obrigaram a estudar quando era menino. Fui para a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio. Na época eu não valorizava, hoje sei que foi fundamental. Me ajuda, por exemplo, a trabalhar com núcleos. Tudo na natureza tem múltiplos núcleos, infinitos toneladas. A técnica de pintura é essencial para reproduzir essa diversidade.

Papel na caixa

Ivan Cobra explica que o trabalho de Firmino ajuda na preservação ao levar um pouco do encanto da floresta para os alunos de escolas de comunidades do entorno. Antes eram empregados apenas material audiovisual ou animais taxidermizados, que não podem ser tocados e são muito mais escassos.

— Muitos desses estudantes moram colados ao parque, mas nunca entraram na floresta, desconhecem sua riqueza, beleza e importância — Destaques Cobra.

Concordo Firmino. Pai de uma menina de 8 anos e de um menino de 12, ele fica feliz que suas esculturas contribuem para que crianças do cotidiano distante da floresta tenham a oportunidade de conhecer um pouco de seus animais.

— Difícil de acreditar, mas tem muita criança que mora aqui perto que nunca viu um bicho do mato, não sabe o que tem na mata. Como podemos esperar que se tornem pessoas que compreendem a necessidade de preservação? – pergunta.

O Cunhambebe se estende por Mangaratiba, Angra dos Reis, Rio Claro e Itaguaí. Com 38 mil hectares, é a segunda maior unidade de conservação estadual, atrás apenas do parque dos Três Picos, na Serra Fluminense. É também uma das unidades de conservação de maior riqueza biológica do estado devido à diversidade de ambientes.

Os ecossistemas vão de praias e manguezais a florestas de montanhas com cerca de 2.000 metros de altitude. A fauna da Mata Atlântica também segue bem representada, como a onça-parda e o muriqui, o macaco maior do Brasil.

— O Cunhambebe é o maior produtor de água da Costa Verde. Ele fornece 70% da água de Mangaratiba. Temos que apresentar essa floresta à sociedade, e esculturas como as de Firmino são um convite para que as pessoas venham ao parque, em cuja sede também há obras do escultor — enfatiza Cobra.

A natureza é uma inspiração, mas Firmino frisa que não seria possível trabalhar com tanta destreza se não tivesse frequentado aulas de arte.