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'Selva urbana de crime e corrupção', diz Economist em análise sobre a crise de governança no Rio

Violência custa ao Rio cerca de US$ 2 bilhões por ano, o que representa aproximadamente 1% do PIB estadual

Agência O Globo - 18/04/2026
'Selva urbana de crime e corrupção', diz Economist em análise sobre a crise de governança no Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A renomada revista The Economist publicou neste sábado uma análise contundente sobre a crise de governança no Rio de Janeiro, contrapondo o vigor do turismo local à grave falência institucional que atinge a cidade. O artigo destaca a dualidade de uma metrópole que, ao mesmo tempo em que atrai milhões de turistas, enfrenta enormes desafios para manter a ordem diante da corrupção sistêmica e do domínio territorial de grupos criminosos.

Segundo a reportagem, o contraste é evidente nos números. O Rio de Janeiro registrou um aumento de 45% no turismo internacional em 2025, recebendo 2,1 milhões de visitantes estrangeiros. Apesar desse crescimento, a publicação alerta que essa "fachada de fantasia exótica" esconde uma realidade política frágil e instável.

De acordo com a Economist , a estabilidade política do estado é quase inexistente. O Rio acumula um histórico de governadores afastados ou presos por corrupção no século XXI. O cenário atual é crítico: Cláudio Castro, ex-governador, foi impedido de exercer cargas públicas por oito anos, na decisão de 2026, devido ao uso irregular de recursos públicos em campanhas eleitorais. Já Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa, está preso sob suspeitas de envolvimento com o tráfico de drogas.

O texto enfatiza a ligação entre o crime organizado e setores da política. O assassinato de Marielle Franco é apontado como divisor de águas. A postagem, em fevereiro de 2026, de Chiquinho Brazão e seu irmão, Domingos Brazão, a mais de 76 anos de prisão, expôs uma profunda infiltração das milícias nas instituições do estado.

A revista também ressalta conexões perigosas na política nacional. Menciona que familiares de Adriano da Nóbrega, miliciano morto em 2020, integraram a folha de pagamento de Flávio Bolsonaro na época em que era deputado estadual. Segundo a matéria, esses vínculos seguem sob investigação, especialmente com a proximidade das eleições presidenciais de outubro, nas quais Flávio é um dos nomes de destaque.

territorial

A reportagem detalha a divisão territorial do Rio entre organizações criminosas e milícias. Os números impressionaram: cerca de 1,7 milhão de pessoas vivem sob domínio das milícias, enquanto número semelhante está sob influência do Comando Vermelho (CV).

O da Maré é citado como exemplo da exclusão e densidade populacional: mais de 140 mil pessoas habitam uma área de menos de quatro quilômetros quadrados, cenário que evidencia como o crime organizado ocupa o espaço deixado pelo poder público.

A Economist descreve o contexto com contundência: “Bem-vindo ao outro Rio de Janeiro: uma selva urbana densa com as gavinhas do crime e da corrupção”.

O sentimento de muitos cariocas, segundo o texto, é de que a situação já ultrapassou o limite do que pode ser administrado localmente. Entre os entrevistados, cresce o apelo por uma intervenção federal, enquanto o Senado brasileiro discute medidas para combater a "infiltração sistêmica" do crime nas instituições. O morador Wellerson Milani retoma a preocupação: "Como você vai ter uma eleição limpa quando metade da cidade é controlada por grupos criminosos?".

Uma análise da The Economist conclui que, além das praias e atrações turísticas, o Rio de Janeiro enfrenta uma crise de legitimidade democrática que exige respostas urgentes para impedir que o “outro Rio” continue a ditar o ritmo da política e da vida social no estado.