RJ em Foco
Herança de R$ 88 milhões impulsiona reestruturação da Santa Casa da Misericórdia, dizem dirigentes
Maior montante legado à instituição neste século chegou a ser questionado na Justiça, mas agora pode ajudar em longo processo de pagamento de dívidas, retomada de atividades e até modernização
A Santa Casa da Misericórdia do Rio, irmandade filantrópica criada em 1582 pelo padre jesuíta José de Anchieta, recebeu doação de R$ 88 milhões ao fim de uma disputa judicial que se arrastava havia cerca de três anos,A fortuna — que inclui dinheiro, ações e imóveis em Brasília — estabelecida em testamento pelo advogado José Maria Valdetaro Vianna é o maior valor legado à instituição neste século. Segundo integrantes da irmandade, ele fez questão de destacar, no documento, o reconhecimento ao trabalho filantrópico desenvolvido pela entidade.
Dança das cadeiras:
Operação Narco Fluxo:
Servidor aposentado do Senado Federal e membro do Instituto dos Advogados do Distrito Federal, o benfeitor morreu em novembro de 2022, aos 91 anos. Divorciado, não deixou filhos.
Com o desfecho do espólio de Vianna, houve a liberação dos recursos. Uma ex-empregada doméstica entrou na Justiça para tentar o reconhecimento de união estável, o que poderia alterar a destinação da herança. A tese, no entanto, foi rejeitada, e a decisão tomada em Brasília há poucas semanas garantiu o cumprimento integral do testamento em favor da Santa Casa.
— É a cereja do bolo de um trabalho de gestão de crise de cinco anos. Esse dinheiro veio na hora certa. Se fosse antes, poderia ter desaparecido no meio da dívida — celebrou Maurício Osthoff, mordomo jurídico da entidade, cargo equivalente ao de diretor.
Dívidas à espera de pagamento
A Santa Casa atravessa um processo de reestruturação após anos de crise. O passivo trabalhista, que já chegou a R$ 150 milhões, está próximo da metade, depois da venda de imóveis e de um plano de amortização. Ainda há débitos fiscais, estimados em cerca de R$ 300 milhões, e cíveis, que passam de R$ 500 milhões, diz o advogado. Metade da doação deve ser destinada à quitação de pendências na Justiça do Trabalho, prioritárias por estarem em fase de execução. O restante servirá para retomar áreas paradas, modernizar unidades e ampliar a rede hospitalar.
Responsável pela gestão dos imóveis da irmandade, o mordomo dos prédios, Cláudio André Castro, afirma que a venda de ativos tem contribuído para equilibrar as contas:
— Vendemos imóveis que não eram rentáveis para pagar dívidas. A Santa Casa se mantém da gestão do seu patrimônio. É um esforço grande para manter a assistência funcionando — explicou Castro.
Hoje, a rede inclui o Hospital Geral, na Rua Santa Luzia, no Centro, onde também funciona a sede da instituição, e uma unidade na Gamboa, que fazem cerca de 13 mil atendimentos mensais. Consultas são oferecidas a preços acessíveis, em torno de R$ 100, com foco na população de baixa renda. A Santa Casa também é responsável por um educandário em tempo integral no Humaitá e atende 300 idosos em dois asilos, em Jacarepaguá e Cascadura, além de projetos sociais com o poder público.
— É uma medicina de ponta a preços acessíveis. A gente segue atendendo, mas ainda não conseguimos retomar a parte cirúrgica, que está interrompida. A ideia agora é usar esse fôlego para recuperar essas áreas e fazer a instituição renascer — afirmou o cirurgião plástico Ricardo Cavalcanti, mordomo do Hospital Geral.
Um dos principais gestores da Santa Casa, o médico ainda destaca que a Santa Casa preserva um patrimônio histórico relevante, como a capela imperial e o museu da farmácia:
— Temos excelência médica e histórica — sintetizou.
Ao longo dos 444 anos de funcionamento, a instituição recebeu bens e fortunas de benfeitores, muitos deles retratados em uma galeria na sede. Contudo, a tradição, que remonta ao período colonial, vinha rareando, afetada por crises financeiras e escândalos que afastaram potenciais doadores.
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