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Conversas em grupo de WhatsApp do CV revelam como funcionam e prestam contas as bocas de fumo

Um dos integrantes do grupo é Breno Barbosa Diniz, filho de PM que teria sido morto pelos comparsas em fevereiro deste ano

Agência O Globo - 14/04/2026
Conversas em grupo de WhatsApp do CV revelam como funcionam e prestam contas as bocas de fumo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As mais de 2.300 mensagens de um grupo de WhatsApp de gerentes do tráfico em favelas do Comando Vermelho mostram a rotina de funcionamento e fornecimento de contas das bocas de fumo. O material — obtido pela GLOBO após a reportagem do último domingo contando a história do — revela que Breno e outros gerentes utilizaram o grupo para trocar informações sobre as vendas em cada uma das dez bocas de fumo da Cidade de Deus. Esses levantamentos foram feitos pela manhã e à noite, nas trocas de “plantão”. O conteúdo arquivado, que abrange o período de 8 de agosto a 2 de dezembro de 2025, mostra como a quadrilha controla as finanças, monitora policial e mantém a disciplina e a posição.

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Os responsáveis ​​por relatar a quantidade de drogas vendidas no período do plantio devem seguir um padrão rígido, que foi estabelecido por Breno. Cada gerente do tráfico detalha o tipo de droga, a pesagem, o valor e a quantidade comercializada. “Aí, tropa, todos os responsáveis ​​da mesa mandem assim agora, pra nós poder tá identificando cada preço vendido”, alertou o rapaz numa mensagem.

'Firma', 'freguês' e 'camisas choradas'

As mensagens indicam a existência de pelo menos dez pontos de venda de drogas na Cidade de Deus, identificadas como Vento, Vasco, Mercadinho, Amendoeira, Maraca, Bagdá, Croácia, Jarrão, Cocoricó e Fundão. Os gerentes das bocas de fumo tratam cada um deles como “firma” e os usuários de drogas como “fregueses”. “A firma que não tiver aberta ainda e tiver freguês manda vir no vento”, escreveu um traficante.

No dia a dia, os traficantes informam o valor total das vendas usando o termo “camisas choradas” para se referir ao volume total comercializado no dia. Outra gíria é "Cidade dos Porcos", termo usado pelos criminosos para se referirem à Cidade da Polícia, no Jacaré.

Em uma das mensagens, Breno determina que seja feita uma prestação de contas para cada tipo de droga: cocaína, crack, maconha e vadia. Numa outra, o rapaz coordena os horários das trocas de plantão. “A meta é acertar de 8h às 20h, 9h às 21h ou 10h às 22h, no máximo”, escreveu.

Um outro traficante, que se identificava como FML AP, frisou que, se houvesse falha na contabilidade, faria “doer no bolso”. E reclamou: "Tão esperando o que pra se ligar? Bobão fica toda hora nessa, virei babá de bandido agora".

Celebração pela morte

Breno ocupou uma função de destaque no tráfico local: era gerente de uma boca de fumo no conjunto habitacional conhecido como AP (Apartamentos) da Cidade de Deus, onde nasceu e foi criado. Cabia a ele coordenar a venda de drogas em pelo menos dez pontos e monitorar o movimento policial no entorno da comunidade. No dia seguinte ao desaparecimento, os parentes ouviram de traficantes da região que Breno foi considerado “X9”, termo usado para rotular informantes.

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Em 19 de março, um mês após seu desaparecimento, os traficantes da Cidade de Deus fizeram uma celebração da morte do rapaz. Uma foto obtida pelo EXTRA mostra traficantes da região em uma comemoração após o incêndio. Nas imagens, é possível ver ao menos cinco deles reunidos em uma mesa de bar, consumindo bebidas, em um encontro que moradores associaram à celebração pela morte de Breno. O ferro-velho que Breno tinha dentro da comunidade foi incendiado no mesmo dia.

Desde o sumiço, o corpo de Breno é procurado pelo pai, o sargento da PM Francisco (nome fictício). O jovem é tratado, na investigação da Polícia Civil, como vítima de homicídio e ocultação de cadáver. O fogo foi controlado rapidamente e não houve registro de feridos ou interdições na via, de acordo com o Centro de Operações Rio (COR). Moradores alegam que, ao atearem fogo, infrações fizeram ameaças a quem mencionasse o nome de Breno. Segundo relatos, qualquer pessoa que falasse sobre o jovem teria o destino dele, em referência ao chamado “tribunal do tráfico”.