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Baía da Ilha Grande é santuário de duas espécies de tubarões ameaçadas

A descoberta mais recente é a presença de jovens tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier), um dos maiores do mundo

Agência O Globo - 12/04/2026
Baía da Ilha Grande é santuário de duas espécies de tubarões ameaçadas
Baía da Ilha Grande é santuário de duas espécies de tubarões ameaçadas - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Ser grande não basta para aparecer. Mistérios de vulto podem, literalmente, passar ao lado, em dias de sol e praia cheia, sem que a maioria das pessoas se dê conta. É o caso dos tubarões da Baía da Ilha Grande, na Costa Verde do Estado do Rio. Lá, foi descoberta a maior agregação de tubarões da costa do Brasil. Mas de onde vêm, para onde vão e o que fazem são mistérios que ainda estão por aqui.

Do furto de um cavalo

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Cientistas revelaram que as águas protegidas da baía são um santuário para tubarões de mais de uma espécie, todas ameaçadas de extinção. E nenhuma delas com histórico de agressividade contra seres humanos no Brasil. Em vez de problema, garantem pesquisadores, os tubarões da Ilha Grande acenam como uma solução para aumentar a renda de comunidades caiçaras locais com a exploração do turismo de observação da vida selvagem.

— Muito provavelmente esses tubarões sempre estiveram aqui. Há relatos antigos de pescadores e mergulhadores e, por isso, viemos investigar. O resultado fascina. É um deslumbramento. Esses animais frequentam todo o litoral do Rio, viajam pela costa do Brasil. Mas o ponto de encontro deles é aqui na Ilha Grande. Tudo sem serem percebidos. O tubarão da vida real é muito distante da imagem do filme homônimo de 1975, que só serviu para alimentar pesadelos e demonizar esses animais — afirma o coordenador-geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande, José Truda.

Truda, um ambientalista pioneiro na defesa dos mares, passou décadas de sua vida lutando pela conservação das baleias.

— Mas me dei conta que os peixes mais temidos dos mares estavam em situação bem mais precária do que os adorados cetáceos. A má fama do tubarão se deve em boa parte ao terror do filme homônimo, sobre um grande tubarão branco insano, cuja espécie sequer ocorre aqui — destaca.

O Projeto Tubarões da Ilha Grande foi criado justamente para distinguir fato de ficção nas histórias de pescadores. E era tudo verdade. Os cientistas descobriram que animais da espécie galha-preta, da qual não há registro de ataques no Brasil, se reúnem às dezenas na baía. Numa ocasião, 113 galhas-pretas, provavelmente fêmeas grávidas, foram avistadas por drone, nadando juntas na Enseada de Piraquara de Fora, em Angra dos Reis. Essa enseada de águas tranquilas e transparentes é um lugar que por si só chama atenção. E não só pela beleza.

— É a maior concentração já observada em todo o Atlântico Sul — afirma Leonardo Neves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e coordenador científico do projeto.

Em Copacabana,

Banho de água quente

O prosseguimento dos estudos revelou que Piraquara de Fora é um porto seguro para esses animais. Tanto que foi incluído na lista da Isra (sigla em inglês para a organização internacional que classifica áreas globais de importância para tubarões e raias). A suposição é que as fêmeas grávidas vão para lá em busca de alimento — há fartura de peixes pequenos que constituem a base de seu cardápio — e trégua da sobrepesca que transforma os mares do mundo em desertos de tubarões.

Um outro possível atrativo é a água excepcionalmente quente, o que poderia beneficiar o metabolismo dos tubarões. Piraquara de Fora é o ponto de deságue das águas limpas, porém, superaquecidas usadas para resfriar o reator da usina nuclear de Angra dos Reis. A pluma de água superquente se estende por quase quatro quilômetros quadrados. A temperatura da água pode chegar a 35°C no verão.

Temidos como predadores, os tubarões são, na verdade, quase sempre a caça. Salvo áreas onde há desequilíbrio ambiental, como Recife, que ainda tem a má sorte de ali ser local de ocorrência do cabeça-chata, o mais agressivo dos tubarões.

A análise internacional mais recente, publicada na Nature Review Biodiversity, estima que a abundância total de tubarões caiu quase 65% e mais de um terço (37,5%) das espécies está ameaçado, causando mudanças generalizadas na estrutura dos ecossistemas marinhos. Isso porque os tubarões e as raias, suas parentes próximas, são sentinelas do estado dos oceanos. Sua presença indica boa qualidade da água e da vida que ela abriga. Tubarões mantêm em equilíbrio as populações de peixes, crustáceos e outros animais, eliminando os doentes e evitando a proliferação de espécies indesejadas, explica Truda.

A crise global dos tubarões é resultado da expansão desregulada da pesca, somada a monitoramento insuficiente de captura e comércio.

Sinal de alerta:

O estudo na Baía da Ilha Grande só foi possível graças ao uso intensivo de tecnologia. Os animais são monitorados por sistemas de vídeo subaquático remoto acoplados a iscas. São os BRUVs (da sigla em inglês para Baited Remote Underwater Video), instalados no fundo do mar e monitorados por aproximadamente uma hora.

— Conseguimos não apenas detectar a presença dos animais como também tirar medidas, sem a necessidade de captura — destaca Neves.

Ao trabalho com BRUVs se soma o com drones. Com essas tecnologias, os cientistas podem alcançar áreas distantes, por mais tempo, sem afugentar os animais.

— Diferentemente do que a maioria das pessoas imagina, os tubarões evitam a nossa presença —acrescenta Neves.

O projeto trabalha com o monitoramento e ações de educação ambiental nas comunidades de pescadores. É o caso da comunidade caiçara da Praia do Laboratório, na enseada de Piraquara de Fora. Muitos dos pescadores já se tornaram aliados e agora soltam os tubarões pegos acidentalmente em suas redes.

O galha-preta (Carcharhinus limbatus) é o principal objeto de estudo. É um tubarão não muito grande. Em Piraquara mede entre 2m e 2,4m. O nome alude às extremidades pretas das barbatanas. As fêmeas ficam grávidas e dão à luz de um a dez filhotes ao cabo de uma gestação de dez a 12 meses. Ele come peixes e pequenos invertebrados.

Cão Hulk:

Mas o galha não é o único a atrair o interesse. Os cientistas buscam comprovar os relatos da existência do mangona ou serra-garoupa (Carcharias taurus), um dos tubarões mais ameaçados de extinção no mundo. Esse gigante muito tímido mede mais de três metros e come peixes ósseos, pequenos tubarões, raias e invertebrados. Tem uma das menores taxas reprodutivas entre tubarões (um a dois filhotes a cada dois anos), o que, somado à pesca e captura incidental, o levou à beira da extinção.

Atração turística

O mangona nunca foi registrado pelo projeto, embora sua presença seja dada como certa. Também relatado, mas não avistado, é o martelo. Existem seis espécies, todas ameaçadas de extinção. Os martelos se destacam pela bizarrice de sua cabeça em formato de T. Eles se alimentam de peixes, raias e invertebrados.

— Todos são ameaçados, não são agressivos e não representam perigo — enfatiza Truda.

A descoberta mais recente é a presença de jovens tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier). O tigre é um dos maiores tubarões do mundo, pois pode chegar a sete metros, mas também é um dos menos conhecidos. E esse é o primeiro registro no Sudeste do Brasil. Em 2025, a equipe identificou 11 tubarões-tigre jovens na Baía da Ilha Grande. Os registros foram obtidos com os BRUV, instalados no fundo do mar.

Sabe-se que o tigre no Brasil ocorre ao longo de toda a costa. Mas eram até agora conhecidos por pesca, encalhes ou relatos ocasionais. As imagens obtidas, de indivíduos medindo entre 1,3m e 1,8m de comprimento, representam o primeiro registro em ambiente natural no Sudeste. Eles ficam juntos, numa área restrita da baía, na Estação Ecológica de Tamoios. Neves afirma que os indivíduos registrados na Baía da Ilha Grande são claramente jovens, pois estes têm marcas escuras bastante características. Esses padrões funcionam como uma “impressão digital” e permitem identificar cada indivíduo

— Isso indica que a região pode ter papel importante no crescimento da espécie. Funcionar como um berçário para esses animais. Temos na mesma região a maior agregação de galhas-pretas e um berçário de tigres. Isso é muito especial. Queremos que as pessoas parem de matar os tubarões, entendam que eles não são os monstros do cinema e que nossos mares precisam deles. O galha-preta, por exemplo, pode virar atração turística — ressalta Truda.